Operários — Tarsila do Amaral

Nos acusamos de apatia. Mas será que poderíamos ter feito melhor?

Parte de dentro da esquerda a crítica em direção à apatia da esquerda. O motivo dos ânimos exautados é, claro, o impeachment praticamente consumado de Dilma Rousseff. Veja bem, não é uma autocrítica. Pelo contrário, é quase um lavar de mãos. Vejo isso diariamente nas redes sociais, na conversa de rua, na universidade. Infelizmente tenho que me incluir nesse bolo. Mas será só culpa nossa? A incapacidade de se organizar e atuar politicamente é fruto exclusivo da nossa apatia?

A geração que nasceu junto com a abertura democrática (a minha) sofreu com os resquícios de um governo ditatorial seguido de uma total instabilidade política e econômica. A desigualdade histórica do Brasil permaneceu (se não aumentou). Ascender socialmente era praticamente impossível. Além da educação básica precária, as universidades públicas era escassas. Sem educação que nos fornecesse autonomia de pensamento e sem perspectiva de mudanças na qualidade de vida nos restou como único caminho o mesmo de nossos pais: o trabalho de subsistência.

Sim, a geração dos nossos pais foi alienada pelas jornadas infinitas de trabalho. Uma parcela mínima teve a oportunidade de estudar. Nós continuamos alienados pelo trabalho, mas com a diferença de que agora achamos que não. Apesar de por diversas razões termos maior acesso à informação, a bens de consumo e experiências de vida, continuamos alienados. E a alienação aqui não se trata de burrice ou ignorância. Mas sim do não governo, onde somos arrancados de toda e qualquer possibilidade de escolha. Temos que trabalhar ou não conseguimos sobreviver.

Mas nossa alienação não é completa. Alguns de nós (bota alguns aí) conseguimos, na medida do possível, pensar nossas vidas, o sistema, a política, a economia, enfim, conseguimos pensar. Mas estamos atrasados. Não somos tão conscientes quanto pensamos. Nem tão politizados. O que sabemos ainda é insuficiente. Mas não é culpa só nossa. Fomos alienados na escola, somos alienados no trabalho.

Do outro lado estão as elites política e econômica. Que sempre detiveram o conhecimento e as riquezas do Brasil. É uma oligarquia que joga com habilidade o jogo do poder. Que sabe atuar estrategicamente contra qualquer insurgência popular. Sabe se utilizar das regras que ela própria criou. Sabe manipular retoricamente a maioria. Enquanto nós temos que nos desdobrar para sobreviver, aprendendo a conta gotas como tudo funciona.

Para se ter uma ideia, Sociologia e Filosofia só voltaram a ser matérias obrigatórias no ensino público em 2008, após 40 anos sendo substituídas pela retrógrada Educação Moral e Cívica. Como um país que ocultou de seus alunos durante tanto tempo correntes de pensamento que possibilitam a reflexão sobre o contexto em que se vive pode querer-se politizado agora? Sejamos honestos com nós mesmos. Ainda engatinhamos quando se fala de política.

Nossa geração, acompanhada das duas subsequentes, ainda cai nas paixões ideológicas, na atratividade do discurso fácil, na intolerância à ideias contrárias, nos preconceitos, na reprodução de raciocínios pré-concebidos e até no vale tudo da desonestidade intelectual. Ainda arde o peito quando a gente se depara com argumentos que contradizem o que achamos ser o certo. Falta-nos maturidade.

Olhando daqui, é a tudo isso que credito o que se convencionou chamar de apatia da esquerda. Mas, pensando bem, tenho que discordar. Não acho que falte emoção ou entusiasmo à juventude, que se aja com indiferença. Pelo contrário. Vejo uma insuficiência em nosso modo de pensar e agir, causada principalmente por uma educação precária e pela alienação que nos é imposta. Por isso, apatia não seria a palavra. Talvez estejamos sofrendo mesmo é de anomia. Na árdua tarefa de sobreviver, refletir sobre nossa identidade coletiva e descobrir o que e como fazer para construir o país que imaginamos.

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