Apatia do Saber

Someone told me a long ago: «you are way cooler if you don’t care about anything, if you still act like you’ve seen it all, like everything is boring…» Spoiled fuckers! — Tove Lo, in Fire Fade (Short Movie)

Tem-se sentido cada vez mais, sobretudo na comunidade mais jovem, um crescente sentimento de desprezo por quase tudo o que os rodeia. Uma postura letárgica com tendência para criticar instantaneamente seja o que for, sem hesitação, sem conceder, à partida, uma oportunidade ao que analisam e avaliam, partindo logo para o desdém. Aquilo com que se deparam até pode ser de qualidade, mas falham na disposição para prestar atenção e dedicar um pouco do seu tempo à apreciação verdadeira daquilo que observam, daquilo que ouvem e daquilo que sentem.

Ebba Tove Elsa Nilsson, mais conhecida por Tove Lo, expõe uma opinião em que afirma que todo este género de atitudes pode resultar de um julgamento por parte desses mesmos jovens de que está na moda olhar para tudo o que os rodeia como se de nada de novo se tratasse, como se tudo fosse aborrecido, como se nada lhes interessasse. Ao que parece, segundo esta cantora e compositora sueca, para uma boa parte da juventude de hoje, a postura de desvalorização perante tudo e todos e o comportamento de quem julga que já fez, viu, ouviu e sentiu tudo o que havia para fazer, ver, ouvir e sentir, são os mais adequados.

Eu diria que esta atitude é própria e compreende-se que seja adotada por aqueles que realmente já viveram e passaram pelo suficiente para sentirem que todos os obstáculos foram ultrapassados e todas as suas metas foram cruzadas, aqueles que sentem que jogaram o jogo da vida, venceram todos os níveis, venceram o boss e se sentem aborrecidos porque a vida não lhes oferece mais desafios. Mas será que um jovem de dezanove ou vinte anos se pode dar ao luxo de afirmar que se sente dessa maneira? Um jovem que julga ter experimentado tudo o que a vida tem para lhe dar, apenas depois de duas décadas, quando há pessoas com o quádruplo do seu tempo que afirmam já ter passado por muito mas que lamentam não ter tempo suficiente para passar por tudo?

Como é que num espaço de trinta anos, se passa de uma comunidade como a dos anos oitenta, uma comunidade que adora o mundo, que vive apreciando cada presente que a vida lhes proporciona, uma comunidade que vive celebrando em êxtase sempre que haja oportunidade para isso - para uma comunidade que despreza tudo e mais alguma coisa, uma comunidade que em vez de apreciar ao máximo e valorizar aquilo que a vida lhes oferece, come, deita fora, pede por mais e enraivece se o presente seguinte lhe for rejeitado? Uma comunidade que aceita e incita ao desenvolvimento da cultura do constante movimento, da urgência de devorar sem antes saborear, da incessante superiorização em relação àquilo que foi anteriormente alcançado.

Até se pode afirmar que tudo advém da evolução e que é natural que a sociedade de hoje em dia olhe para os trinta anos que se passaram, que se compare com a sociedade de antigamente e, tendo em conta a diferença de uma para a outra, que sinta que está num patamar superior. É natural que, tendo em conta aquilo que se sabe em termos históricos e o que já se alcançou, tendo em conta as experiências dos antigos, hoje em dia seja possível afirmar que já sabemos e experimentámos todos os truques que a vida pode ter na manga. No entanto, se assim se forma a lógica, em que plano estarão as comunidades que se seguirão às atuais? O nível de desinteresse que demonstrarão será ainda maior que o atual? Se assim for, se as necessidades de cada ser humano estiverem satisfeitas e disso, em vez de resultar a felicidade, resultar o contrário, como agirão os especialistas em função deste problema?

Resta aguardar e acreditar que a nova geração iludida se erga e se dirija para a pequena abertura no meio das rochas que compõem a caverna onde a mesma se encontra e se deixe iluminar por todo um novo aglomerado de desafios.

27 de Agosto de 2017

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    Diogo Vieira Borges

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