Compromisso
É problemático, pelo menos na minha humilde opinião, o facto de a maioria das pessoas, no plano atual, e considerando toda e qualquer faixa etária, ser incapaz de se comprometer com algo ou com alguém. A preferência por uma relação que não é uma relação, por uma ligação sem fios, uma ligação que pode ser cortada a qualquer altura, em qualquer lugar, que na prática, nunca existiu.
Estamos perante a emergência de uma ideologia baseada numa fuga ao risco, numa atitude de fraqueza, de insegurança e, especialmente, de contentamento com o pouco representado pelo inexistente. Toda uma multidão que opta pela ilusão consciente de algo sem início e sem fim, que inconscientemente está a revolucionar o plano social, o plano da interação entre cada ser humano.
Cresce exponencialmente a naturalidade de ceder perante aquilo que é mais acessível, menos complicado, que exige menos esforço. A mentalidade de que em pouco tempo se retira o suficiente, mas o esquecimento de que por um bocado mais se retira tudo.
Depois de uma breve análise às alterações efetuadas ao plano geral da Humanidade nos últimos séculos, e tendo em conta que o período em que nos encontramos presentemente pode ser chamado de Era Tecnológica, a era onde tudo é facilitado, onde tudo é simplificado ao máximo de forma a conseguir extrair o mesmo ou até mais, exigindo o mínimo esforço e o mínimo de recursos possível, a era do irredutível, tanto eu como qualquer um consegue tecer facilmente uma relação entre as alterações na plataforma social e as alterações nas demais plataformas. Conclui-se que esta ideia de tornar o esforço aplicado seja no que for o mais eficiente possível, praticamente se aplica a todas elas. E atenção, eu concordo em absoluto que este é o caminho correto a seguir e que estamos a evoluir da melhor maneira. O problema é a sua aplicação no plano social.
Onde é que uma ideia do mais racional que há como esta, pode ser inserida em absoluto numa zona que é dominada pela emoção? Como é que se pode esperar que a sociedade vingue se abdicar da emoção, da sua natureza imprevisível e impulsiva? E se tal efetivamente acontecer, não será importante questionarmo-nos sobre as consequências e o resultado disso?
Se abdicarmos por completo do nosso domínio emocional e sentimental, se nos basearmos em ações meramente racionais e previsíveis, será incompreensível afirmar que perdemos a nossa essência, aquilo que efetivamente nos torna tão especiais como somos?
Tendo em conta todo este raciocínio analítico, questiono eu de forma entusiástica: como pode alguém agir desta forma? Como pode alguém abdicar da sua natureza e sentir-se bem consigo próprio? Como pode a sociedade estar disposta a racionalizar por absoluto algo que não pode ser racionalizado a esse ponto? Qual é o sentido deste ímpeto, desta intenção de tornar tudo previsível?
Estará a sociedade ainda motivada pelo receio do imprevisível? Pelo tormento do risco? E será essa a atitude mais correta perante este género de zona fora do nosso conforto? Não estaremos perante uma transposição da linha que separa o que nos beneficia e o que nos prejudica? Não será esta uma daquelas situações em que só é saudável deixarmos a nossa zona de conforto, explorarmos e tentarmos adaptar-nos às consequências da natureza de cada um de nós?
Hoje felizmente encontramo-nos ainda numa altura em que é possível dar uns passos atrás e transpôr a linha de novo para uma zona saudável, que apenas nos beneficie. Hoje a situação ainda não é crítica, mas é possível observar casos do género. Existe ainda quem seja capaz e até prefira lutar por aquilo que o satisfaz e não se cinja ao suficiente. Ainda há quem opte por se comprometer, por estabelecer uma ligação com aquele ou aquela que lhe oferece aquela sensação de completude e não apenas de satisfação.
No entanto, esse ou essa corajoso/a será naturalmente incapaz de ir ao encontro daquilo que pretende se apenas se cruzar com quem não veja as coisas da mesma maneira. Como deve lidar, aquele que procura algo forte e bem estruturado, algo concreto, honesto e verdadeiro, que está disposto a partilhar a sua companhia com quem também esteja e a aprecie, que age de acordo com as emoções e com os sentimentos que nutre, com aquele que não se sente à vontade com o estabelecimento de um compromisso, aquele que prefere algo que tenha um prazo de validade logo à partida, aquele que ignora a sua própria natureza humana e prefere algo efémero, sem intenção, sem significado?
Como deve lidar aquele aluno que desde o primeiro dia que se esforça para obter a nota máxima com aquele que diminui os seus parâmetros, se esforça menos e se contenta com a nota suficiente para ser aprovado? Como deve esse aluno dedicado lidar com o facto de ser dos poucos com essa atitude? Deve ele aceitar que está perante uma situação demasiado complicada, fora do seu alcance, e adotar a mesma atitude que os demais? Deve ele considerar a possibilidade de a opção tomada pelos outros ser a mais acertada, sendo que todos eles a escolheram e, aparentemente, vivem bem com ela? Ou deverá ele remar contra a corrente e manter uma postura de confiança perante o futuro e acreditar que tudo correrá da melhor maneira para ele?
A minha dúvida consiste em: aquele que é capaz de se comprometer com outrem, por muitos que sejam aqueles que o rodeiam e pensam de maneira diferente, deve continuar a confiar na sua própria atitude e na possibilidade, por muito reduzida que seja, de encontrar alguém que pense da mesma maneira que ele, que esteja disposto a correr o mesmo risco que ele? Ou deve pensar de forma racional, aceitar que se todos os demais vivem bem da maneira oposta e se ele adotar a mesma forma de pensar, no final das contas, acabará por estar a perseguir uma probabilidade maior de ser feliz?
E no caso inverso? Se aquele que se julga incapaz de se comprometer com algo ou alguém, estiver disposto a correr esse risco, mas não estiver certo da opção que pretende tomar, que atitude deve ele adotar? Por que caminho deve ele seguir, sendo que aqueles que pensam da mesma maneira que ele, aparentemente vivem felizes com a opção que tomaram, mas aqueles que tomam uma atitude contrária demonstram toda uma segurança e confiança no plano que assumiram, uma situação de felicidade concretizada que se prevê que continue da mesma maneira? Deve ele tomar uma atitude contrária, deixar a sua zona de conforto e apostar em algo que lhe pode assegurar a tal felicidade de forma estável, mas, por outro lado, lhe oferece a possibilidade de não se conseguir adaptar, de não conseguir encontrar a pessoa certa e acabar por não retirar felicidade absolutamente nenhuma? Será assim tão fácil a transição de uma situação sem risco nenhum mas sem grande retorno para uma situação efetivamente arriscada, mas que pode oferecer um retorno maior? Será que as consequências positivas da situação em que se dispõe a comprometer-se valem o esforço implicado na tal transição?
Bom, eu penso que sim. Penso que, sendo a natureza de cada um de nós o risco e a imprevisibilidade, o passar quer por altos e por baixos, e a nossa evolução consistir em superar os erros que outrora cometemos por via da aprendizagem, se me deparasse com alguém que estivesse envolvido em dúvidas e esse alguém se encontrasse nesta tal encruzilhada em que não saberia por que caminho seguir, dir-lhe-ia que tudo dependia da sua disposição e da sua capacidade de se levantar quando algo ou alguém o deitasse abaixo. Isto porque se efetivamente não fosse capaz de tal atitude, o melhor claramente que seria seguir pelo caminho mais plano; no entanto, se estivesse disposto a correr o risco de ter que ultrapassar os obstáculos com que eventualmente se pudesse deparar, de ter que suportar as dificuldades inerentes à necessidade de se levantar depois de ter tombado, se estivesse disposto a evoluir se assim fosse preciso, saíria mais feliz se apostasse no caminho mais atribulado.
No fundo, resumo tudo tanto à capacidade e disponibilidade de cada um para se manter em pé quando a situação geral se afigura mais complicada, como à confiança que cada um tem em si próprio. Quanto mais dispostos estivermos para testar a nossa força e a nossa confiança, maior será a probabilidade de sermos felizes.
24 de Agosto de 2017

