Novos Passados

“We don’t know the true value of a moment until it becomes a memory” — by Peter Dinklage, in Rememory, 0:48:22

“We are just the sum of our memories” — by Peter Dinklage, in Rememory, 1:03:47

Em que pé estaríamos se, dado o avanço da tecnologia, fosse possível criar uma máquina que pudesse trazer cada uma das nossas memórias e conseguisse fazer com que fosse possível visualizar e encarar tudo aquilo por que passámos anteriormente e que gostávamos de vivenciar de novo? Seria bom ou mau? Será o passado apenas o passado? Estará a função cerebral renovadora da nossa memória eternamente destinada exatamente para essa ação natural? Será que no final, o suposto é termos uma memória cheia de pequenas lembranças, de pequenas partes de tudo o que passámos, e não de todas as experiências na sua completude, apenas porque o nosso cérebro não tem capacidade de lembrar todo e qualquer detalhe, ou será que também assim é porque se nada esquecêssemos, poderia ser prejudicial para a nossa psicologia?

Aqui me apresento eu, como um nostálgico assumido, alguém que sempre que se depara com algo ou alguém associado ao seu passado, às suas memórias de pureza, ingenuidade, inocência e, portanto, absoluta felicidade, sente um afeto natural instantâneo, uma sensação automática de conforto e uma necessidade de não largar, de não deixar que me deixe de novo. Sinto aquela urgência de agarrar, de manter comigo, de forçar esse algo ou alguém a voltar a proporcionar-me aquilo que outrora me foi proporcionado pelo que agora preenche a minha memória.

O maior presente que me pode ser oferecido é uma viagem no tempo. Um passeio por trilhos que explorei quando calçava números abaixo do 35, por casas onde pernoitei quando ainda pensava que havia monstros debaixo da cama, por restaurantes onde comi, não saboreei e não fazia a mínima ideia que mais tarde viria a desejar que tivesse saboreado. Um encontro com as pessoas que fizeram parte da história do meu desenvolvimento, com as melodias que marcaram aquelas festas, aquelas longas viagens de carro e aqueles meros momentos aparentemente insignificantes em que nem eu nem quem me acompanhava estávamos perto de achar que pudessem permanecer na nossa memória.

Hoje em dia sou definido pela minha infância. Sou definido através da atração pelo conforto do passado. Sou definido pelo forte apego ao que tenho, ao que me rodeia e a quem me acompanha. Não é que não consiga encarar o futuro e a novidade como algo de positivo e não como se fosse necessariamente negativo, mas sinto um forte arranhão na barriga quando estou naquela neutralidade do presente em que me sinto obrigado a dar o salto daquilo que foi para aquilo que virá a ser. Enfraqueço por ter a noção de que o passado me marcou e que a transição para o futuro me magoará naturalmente, desde logo pelo facto de não mais voltar a ter aquilo que tive. Por mais que tente racionalizar a situação e tente responder às minhas próprias perguntas, por mais que tente perceber o porquê de agir como ajo e de sentir aquilo que sinto, por mais que até consiga responder e perceber, acabo sempre por questionar-me e sentir-me novamente e exatamente da mesma maneira.

É inevitável — por mais que perceba que é suposto estarmos constantemente a evoluir e a experimentar coisas novas, a criar novos passados, cada vez que é necessário dar o salto de um passado vivido para um passado por viver, aquela terrível e agoniante sensação de estar prestes a perder um pedaço daquilo que me fez ou faz feliz e de ter que o fazer para que volte a sê-lo, embora devido a algo completamente diferente, que por sua vez, também terá de ser ultrapassado, deita por terra todas as certezas que poderia ter.

Esta cronologia de altos e baixos, em que aquele mede de altura o que o outro mede de profundidade, leva-me a pensar se valerá a pena cair, sendo que quando subir, voltarei exatamente ao mesmo nível em que me encontrava antes da queda. O que justifica a criação de novos passados? O que é que motiva alguém a sujeitar-se a quedas sucessivas que não compensam aquando da subida? O contexto por detrás das mesmas? As experiências que as originaram? O que há de atrativo em todas estas transições aparentemente obrigatórias por natureza de um passado para o outro que, independentemente do conjunto de experiências que esteja por detrás deles, acabam sempre na tal queda inevitável? Estarei a cometer um erro se me agarrar ao presente e optar por fazer com que permaneça assim, recusando-me a deixar que se torne em mais um passado e em mais uma plataforma de salto para um novo presente que em nada mais difere do anterior, do que das suas circunstâncias?

De qualquer das formas, nós somos realmente feitos e definidos pela soma das nossas memórias. Somos o resultado do que vivemos e, sobretudo, do valor que damos ao que vivemos tanto na altura em que está ser vivido, como quando já não há maneira de o reviver. Porque se tudo nos for indiferente, se nada tiver valor, não há cronologia nenhuma de altos e baixos nem há passado ou futuro. Há um presente monótono e sem sentido que, e aqui afirmo com toda a certeza, não tem maneira alguma de ir ao encontro da felicidade.

5 de Setembro de 2017

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