Um Pau de Bico Nenhum

Recostaram-se os últimos, os sobreviventes, na suavidade e no conforto do sofá encostado no canto da sala. Conversavam animadamente, livres de qualquer restrição que pudessem aplicar àquilo que diziam, envoltos e possuídos pelos efeitos daquilo que lhes havia enchido os copos ao longo daquela noite. Aparentemente exaustos, recusavam-se a sucumbir ao cansaço escancarado nos rostos de cada um deles e a aceitar que estava na hora de fechar as cortinas.

Definitivamente que era um cenário bastante apelativo, mas o charme da minha cama era ainda mais persuasivo, levando-me portanto, a antecipar-me a todos os outros e a finalizar a minha noite.

Caminhei calmamente para o meu quarto. Mergulhei diretamente para debaixo dos lençóis, coloquei os dispositivos auditivos e liguei a música. Ali estava eu, em guerra aberta com a minha almofada, sem saber ao certo a melhor posição em que a devia colocar, enquanto a minha atenção transitava da euforia das últimas horas anteriores, para uma lista de reprodução criada na altura, que consistia maioritariamente em rap português, rimas de vocabulário variado, com diversos sentidos e significados, à procura de ter a sorte de conseguir identificar algum deles com a forma como me sentia naquele preciso momento.

Não demorei muito até me reunir comigo mesmo e com os meus pensamentos e, posteriormente, a chegar a uma conclusão em relação àquilo que me molestava. Qualquer um que me observasse e pensasse duas vezes antes de tentar adivinhar, certamente que conseguiria saber o que preenchia o pequeno vazio presente no meu pensamento.

Era isso mesmo: um vazio preenchido. Uma cabeça repleta de ideias por realizar, de presunções e especulações que, na teoria, estavam relacionadas mas que eu não conseguia perceber ou encontrar essa mesma ligação.

Tinha um puzzle por resolver na minha cabeça. Tinha todas as peças, ou pelo menos a maioria delas, que chegavam para construir algo com sentido, mas não sabia por onde começar a resolvê-lo. Não sabia que peças devia agregar nem aquelas que deveriam ser deixadas de fora. Foi a confusão e a desorientação, com as quais (atrevo-me a informar, desde já) não lido muito bem, que se apoderaram da minha situação e escolheram qual a lista de melodias a serem ouvidas.

Muito profetizo eu de forma confiante, e são várias as vezes em que, felizmente, sou capaz de raciocinar sobre um certo problema e apresentar, desde logo, uma solução. Ainda que a primeira solução apresentada possa não ser a mais correta, não demoro muito a debater outras novas e a chegar à mais adequada delas. Isto, claro, em casos que não me envolvem.

Contudo, quando o problema é comigo mesmo, essa fluidez de raciocínio decide viajar para os Estados Unidos da América e apanhar o primeiro foguetão para a Lua, sem antes disso, se dedicar arduamente ao arranjo de uma nova identidade e desaparecer sem deixar rasto.

Também nesse dia virei o disco e voltou a tocar o mesmo. Voltei a não conseguir estabelecer a ligação entre todas aquelas dúvidas.

Todos nós já passámos por ocasiões em que não nos encontramos nas melhores condições, que pensamos que não pode piorar, que pedimos a tudo e a todos em segredo, que dêem um tempo ao tempo e aguardem que encontremos uma solução para todas as dúvidas, ou pelo menos algumas, com que nos deparamos presentemente. Todos nós já precisámos de arranjar um poder qualquer para pausar por um bocado a bola de neve que não pára de crescer, porque a partir de certa altura, essa mesma bola chega a um ponto em que, por mais fortes que sejamos, não temos poder absolutamente nenhum para a parar de vez.

Ainda estava eu a desejar que tudo parasse por um bocado para poder encontrar uma resposta às minhas próprias questões quando me deparei com essa situação terrível, quando a vida se voltou para mim e para o meu sistema interior de resolução de problemas e nos mandou ir dar uma volta aos Emirados Árabes Unidos, antes de informar que não estava disposta a oferecer poder nenhum para tentar parar a tal bola de neve. Encontrava-me numa posição de impotência, em que ainda não estava pronto a ser posto à prova, não estava pronto para ser interrompido por mais uma série de problemas. Ainda assim, o meu teste entrou no quarto e esse meu sistema decidiu calçar as sapatilhas e partir na tal viagem que se afigurava eterna.

Ali estava eu, coberto daquelas indecisões e dessas inseguranças, quando me deparei com a personificação de todos esses problemas. Agi, claro, como não podia deixar de ser, de forma ilógica, incapaz de expressar absolutamente nada daquilo que me ia na cabeça, nada daquilo em que estava a pensar. Nem cheguei perto de o conseguir! Interiorizei o enunciado, tinha noção de que estava a ser testado, de que aquele era o meu teste de que deveria responder a todas as suas questões naquele preciso momento. Mas a minha capacidade de raciocínio ainda estava adormecida na classe económica, a 2 horas de aterrar no Dubai, com vontade de, assim que tocasse com os seus pés em terreno árabe, caminhar tranquilamente e estabelecer raízes na praia mais próxima, acompanhada constantemente por dois mojitos e duas belas e exóticas raparigas dispostas a evitar que o excesso de calor a levasse a querer sair daquele paraíso.

Não hesitei a falhar de novo e a não pôr em prática tudo aquilo que havia teorizado até ali. Tanto debate interior, tanta vontade de fazer com que aquele terror de confusão terminasse e nada se alterou, mesmo tendo sido oferecida de bandeja, a oportunidade para que fosse capaz de o fazer. Comprometi-me, mais uma vez, à conversa padronizada em que respondia a tudo de forma a que não demonstrasse qualquer fraqueza ou indecisão. Qualquer questão que lhe fizesse era apenas desencadeada pelo interesse que tinha na companhia dela e na manutenção da mesma, não porque realmente quisesse desenvolver o assunto supérfluo que dominava a interação. Ainda optei por adotar uma postura que eventualmente pudesse transparecer a situação em que efetivamente me encontrava, na procura de que fosse compreendido e que as abordagens passassem a ser aquelas que eu pretendia, mas a esperança de que tal acontecesse desvaneceu-se quando ela rodou a maçaneta e desligou as luzes.

Seguiu-se a habitual e típica auto-recriminação, a altura em que não parava de me questionar sobre o porquê de não ter agido como devia. Não compreendia, mesmo assim, o porquê de tudo ter rolado da maneira como rolou e não tinha a mínima noção de como remediar a situação ou se sequer havia maneira de o fazer.

Por aquela altura, já a melodia que ouvia tinha outro significado, tinha outra função. Deixou de servir para que pudesse compreender o que se passava comigo mesmo, para compreender o porquê de não compreender o que se passava comigo e a atitude que eu havia tido em função disso. Era aquela melodia que eu ouvia porque me transmitia uma sensação de arrependimento e de vontade de fazer, não com que o tempo parasse, mas com que esse mesmo voltasse atrás. Deixei de me encontrar numa situação prévia à passagem da bola de neve, numa situação em que ainda me iludia com a possibilidade de a vida me poder oferecer aquele poder de paragem, para uma situação de desejo que a vida me tivesse abordado de uma maneira diferente, que tivesse tido alguma compaixão e que, desta vez, tendo em conta o valor que eu dava àquela conversa e a quem intervia na mesma, me presenteasse com um resultado favorável.

Ainda assim, nenhuma melodia é eterna. Já estava ela recostada num outro sítio qualquer, quando a minha capacidade de raciocinar aterrou de volta no meu cérebro e a nova melodia me transmitiu uma vontade de fazer com que aquela conversa se voltasse a repetir. Apercebi-me de que, por muito mau que tivesse sido o meu desempenho anterior, dependia apenas de mim a possibilidade de fazer com que tudo pudesse terminar de forma diferente.

Reluzia eu, finalmente, quando coloquei o telemóvel de lado, rodei a maçaneta e me senti pronto a partir em busca do tal sítio qualquer onde ela se encontrava.

Ainda demonstrava eu uma postura de quem sabia o que havia para saber, uma postura de quem seria capaz de ultrapassar qualquer obstáculo com que me deparasse naquela altura, se disso dependesse a oportunidade de refazer aquilo que se tinha passado ainda há poucos minutos, quando tudo desabou com um simples toque na janela do quarto. Um “knock knock” e a janela de tempo que ainda havia para que tudo pudesse ser diferente, fechou, sem que aviso nenhum me tivesse sido entregue. Sem que aí nada pudesse eu fazer.

Eu, que não acredito no destino ou em acontecimentos previamente determinados seja por que entidade divina for, senti que algo me estava a dizer para deixar que tudo acabasse da mesma maneira como acabou, que nada deveria eu fazer naquela altura e que deixasse que tudo funcionasse e se desenrolasse de acordo com o que já havia tido lugar. Senti que me estava a ser dito que devia permanecer quieto, que já tinha feito o que deveria ter sido feito e que o resto dependia não de mim, mas dela. Interiorizei, simplesmente, que o capítulo daquela noite estava já terminado, que mais nada havia a escrever e que era tempo de passar ao próximo.

Por isso, atendi ao pedido do rapaz que me havia chamado do lado de lá da janela, calcei as minhas pantufas e vesti a camisola mais quente que tinha, peguei no maço de tabaco e no isqueiro, subi calmamente e sossegadamente as escadas, sentei-me lá fora, já tranquilo comigo mesmo e disposto a aceitar a forma como tudo se tinha passado antes, durante e depois daqueles momentos de debate interior, e acendi o cigarro que dava por terminada aquela noite…

20 e 21 de Agosto de 2017

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Diogo Vieira Borges
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