Em Algum Momento, Ilumina

Aqui pensando, cada vez mais me convenço de que sempre que alguém pública algo para denunciar corrupto, seja com a melhor das intenções, claro, de acusá-lo, de acordar as consciências para essa realidade bizarra que estamos vivendo, o que faz é aumentar a popularidade do referido corrupto.

Parece brincadeira, mas não é. Basta olhar para a história recente e verificar como a população tem se comportado diante dessas criaturas, os tais ratos da política, os predadores da coisa pública.

Pouquíssimos brasileiros se igualam, como símbolo de corrupção, de manipulação, de desfaçatez, a Paulo Maluf. No entanto, Maluf se elegeu tantas vezes quantas quis, carregando o slogan tirado das profundezas dos infernos do ademarismo — Ademar de Barros, outro ícone — o slogan do “Rouba mas Faz” que prevalece ainda de modo subliminar.

Mas não fica por aí. Há os clãs nordestinos, Getúlio Vargas, Esperidão Amin em Santa Catarina, Ney Braga no Paraná, Magalhães Pinto em Minas, Sarney no Maranhão e o supra sumo, o déspota mais amado, o único capaz de fazer sombra a Maluf, o painho Antônio Carlos de ACM Magalhães,

só para citar algumas eminências e reavivar a memória: mas são muitos. Penso também que não podem ficar esquecidos, Jânio Quadros e sua reedição mais moderna, Fernando Collor.

São os nossos políticos mais amados. O povo brasileiro, da classe média branca é fascinado pelos corruptos. Trata-se de uma projeção ancestral que nasceu naquele antepassado europeu que decidiu: “vou para o Brasil, ficar rico e voltar para a Europa”. Não conseguiu, mas passa de pai para filho, de geração a geração o moto inicial.

Já que não queremos construir país nenhum, mas ir embora, valorizamos a esperteza, a malandragem, o nepotismo, o compadrio, o “tirar vantagem em tudo” do Gerson. Mas, parece que o futebol tem sido o caminho mais eficaz para resolver o problema e criar nossos únicos heróis possíveis: Neymar ficou rico e voltou para a Europa; a idolatria a Ayrton Senna também só dá para explicar por aí. Subornamos o guarda de trânsito, o porteiro, o garçon; criamos os infinitos cartórios e o despachante, uma atividade reconhecida e voltada para o suborno e a propina, com a finalidade de romper as barreiras burocráticas. Jeitinho brasileiro, o quebrador de galhos.

Assim, gritar que aquele roubou e saiu impune, que outro comprou o juiz, ou ainda que traiu e se deu bem, só aumenta o prestígio e a admiração pelo energúmeno. Ninguém vai se mobilizar contra ele, porque o que importa é que ele se deu bem: curvemo-nos.

A classe média branca passa isso por “clivagem”, como dizia Reich, para as camadas menos favorecidas da população e, dessa maneira, se instala a velha praga.

Ah! Então porque o Lula é bandido? Porque o Lula é operário, porque o Lula não representa a classe média branca: “quem esse reles assum preto, essa graúna, pensa que é para se meter a pavão?” Além do mais, esse maluco que quer construir um país é uma ameaça ao plano original de voltar para a Europa. “Pau nele, então”.

A única luz que vejo é de longo prazo: reeduquem seus filhos, seus amigos, parentes, círculos sociais. A curto prazo, ainda não tive nenhuma ideia aproveitável, a não ser a de escrever esse texto e convidar a todos vocês, que já se exorcizaram da velha praga e decidiram ficar por aqui, a pensar juntos. Em algum momento, ilumina.

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