O QUE O MAR ME ENSINOU SOBRE A VIDA…
A única coisa tão instável quanto o mar, é a vida.

Logo de cara aprendi que estabilidade é um conceito inventado. Criado possivelmente quando a Revolução Industrial se estabeleceu e os homens precisavam ser convencidos de trabalhar nos moldes fabris. A única coisa tão instável quanto o mar, é a vida. Nós buscamos ter controle sobre os outros, buscamos formas de nos prevenir de doenças e acidentes, planejamos nossas atitudes sem nenhum conhecimento sobre o amanhã e as reviravoltas que podem nos empurrar por quilômetros e normalmente somos surpreendidos pelo acaso: separações, perdas, demissões e mudanças de percepção. O mar muda, as ondas crescem e diminuem, respeitam e desrespeitam o vento com a mesma intensidade em que se arremessam nas rochas sem nenhum pudor. A única certeza que todo surfista tem antes de entrar no mar é que ele vai cair, e se sobreviver — lucro!
O mar me ensinou que o medo não serve para nada, e seu principal veneno é sua capacidade de nos paralisar. Se após uma queda, daquelas em que você é arremessado no ar e depois encontra a sua prancha embaixo d’água enquanto perde total controle sob oseu corpo, você desistir de entrar na água novamente, seu destino está fadado ao insucesso. Aprendi rapidamente [mesmo que essa não seja a maior das novidades] que nenhuma queda deve tirá-lo do mar, porque a única maneira de você vencer seus medos é enfrenta-los e só dá para aprender ou realizar alguma coisa nessa jornada — tentando.

Aprendi que serenidade e calma são as únicas formas de sobreviver dentro ou fora d’água. Você precisa poupar energia para continuar remando mesmo que seu destino seja próximo. O desespero, o stress, a raiva e qualquer outro exagero só vão fazê-lo afundar cada vez mais e leva-lo a mais escancarada forma de exaustão [ou burnout como os executivos costumam chamar]. Agora tente apreciar a conexão mental que você faz consigo mesmo enquanto espera todas as ondas terminarem de te humilhar e te mostrar o quão pequeno você é e veja que em poucos em segundos lá está você: em pé de novo.
Ninguém passa por uma arrebentação remando freneticamente como se não houvesse amanhã cortando a água sem intervalos, assim como nenhuma das histórias de sucesso que você conhece são de pessoas que correndo e atropelando seus desafios e adversários fizeram história.
Cada dia no mar– mesmo que na mesma praia — é uma chance única e incomparável para você se reinventar. Você pode entrar com uma nova prancha, pode testar uma posição nova, revisar sua base ou tentar uma manobra diferente e aprender mais sobre aquela onda. Em todas as vezes em que o mar me levou de volta para areia ele se despediu de mim dizendo que eu poderia voltar para tentar novamente e me fez ver que ás vezes você só precisa de um breve cochilo para poder enxergar uma nova oportunidade.
Naquela imensidão azul a imponência da natureza é tão clara quanto sua democracia e justiça: Todos somos iguais. Mesmo que sua prancha seja melhor, sua roupa mais quente, ou sua história de vida mais inspiradora — na água não existem diferenças. Nem mesmo a experiência pode impedir que você afunde por alguns segundos ou se machuque com quilhas, leash ou ponta da prancha. O feedback é sempre claro e não existem meias-verdades. Podendo estender esse ensinamento para qualquer contato com a natureza a mistura de força e fragilidade que temos que assimilar é o que deve nos guiar para exercitarmos diariamente a humildade, afinal os riscos e a escuridão do futuro estão disponíveis para todos com a mesma intensidade.
O mar me fez ver que o conceito de tempo também é bastante defasado, afinal 1 minuto pode ser uma eternidade se você pensar que este é o último, como você sente quando está em baixo d’água. A vida é uma coleção de momentos, momentos esses que duram em sua maioria uma fração de segundos. Pequenas correções de rota podem, pela mesma unidade de medida, virar seus planos do avesso. Reflita um pouco, e se der, liste mentalmente todos os momentos que foram por um fio e não se limite apenas aos ruins. Inclua na lista os segundos em que seus dentes não puderam ficar escondidos atrás dos seus lábios ou suas lágrimas se exibiram contra sua vontade.
O mar me ensinou também que respirar é a atitude mais importante do mundo. Nada é mais potente do que uma boa respirada antes da onda quebrar na sua frente, ou antes de mergulhar e arremessar a prancha para o outro lado de você quando não puder cortá-la remando. Por isso: respire, respire fundo, perceba sua respiração, encare o mar aberto que você chama de vida e leve consigo ao menos um aprendizado novo por dia.
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