Baby Driver é uma obra prima musical

João Abbade
Jul 27, 2017 · 6 min read

“Tudo que você precisa é de uma faixa pra quebrar tudo.”

Nada define melhor Em Ritmo de Fuga (Baby Driver) do que sua cena de abertura; talvez por isso ela tenha o início da germinação desta ideia na cabeça do diretor Edgar Wright. A cena mostra o começo de um assalto e Baby não participa ativamente, apenas fica no carro, de boa, cantando e dançando enquanto tiros rolam ao fundo. Quando seus comparsas entram no carro a coisa fica mais interessante: uma perseguição maluca se inicia e explosões, tiros e derrapadas tomam a tela e são combinadas com as batidas do ritmo da música ao lado da edição frenética e insana característica de Wright. Baby Driver em suma é isto: ação da melhor qualidade pensada desde o início para funcionar com músicas de rock dos anos 80, uma edição totalmente pirada e uma pitada de drama na vida de um garoto com distúrbios mentais.

Talvez a maior “assinatura” de Edgar Wright é fazer filmes “de gênero” que não se parecem exatamente como filmes de gênero, mas sim como algo fresco. Isso porque os filmes desta categoria normalmente optam por uma direção e edição bem básica (no lugar comum), Wright é o exato oposto disso. Ele usa a tela ao seu favor como poucos cineastas. Ele testa, experimenta, brinca e faz o inesperado acontecer. Os planos de filmagem são seu verdadeiro parque de diversões e nessa atração tanto ele, como diretor, quanto nós, como espectadores, nos divertimos. E é uma sensação incrível ver sirenes de viaturas e barulhos de derrapadas coalizando com a trilha sonora. Obviamente é um um trabalho imenso colocar tudo isso em sincronia na tela, mas ao ver tudo isso acontecendo de forma primorosa

Na maravilhosa Trilogia Cornetto, Wright subvertia um gênero específico com sua comédia visual e britânica. Já em Baby Driver ele parece ir além disso. Sem dúvidas, o filme de “assalto” é o que predomina, mas em diversos pontos do filme há um flerte com outros tipos de filme tal qual musicais, thrillers e até com a estrutura e estética de videogame.

Apesar de ninguém efetivamente dançar e cantar em grandes números, na sua essência, o longa é um musical; cada cena de ação é montada, coordenada e pensada para funcionar em cima de uma música específica. Pra se ter uma ideia do quão importante a música é para Wright, as cópias do roteiro enviadas aos atores vinham acompanhadas de pen-drive com a trilha sonora anexada. E o mais importante: a música não é um mero elemento estilístico, a música é parte protagonista do desenvolvimento de narrativa e dos personagens; e isso é o que basicamente define um musical.

A virtude de trabalhar com esse gênero é não se envergonhar de fazer parte dele ele se divertir com isso. Muitos filmes de gênero do novo milênio se levam a sério demais sem se tocarem que assim só estão replicando o passado com novos truques cinematográficos. É interessante e super-divertido ver algo que se entende como o que ele é e não como um filme tradicional contando uma história de forma alternativa. Em Baby Driver há um belo plano sequência do protagonista dançando fazendo um tarefa mundana, uma cena de um casal cantando e dançando na lavanderia e até uma referência a Dolly Parton — de Moulin Rouge. Wright não esconde seu amor por música e por coreografias e isso é bonito de se ver.

De uma forma ou de outra, Em Ritmo de Fuga também me lembrou de um filme de videogame, mesmo talvez essa não sendo a intenção? Wright já mostrou que tem uma vasta bagagem em Scott Pilgrim Contra o Mundo, mas desta vez — ao invés de visual — a referência à jogos foi mais na questão da estrutura do filme. Pelo decorrer do filme vemos diversas “fases”, com direito a planejamento e execução; e, em dois momentos, uma cena de ação me remeteu nitidamente à batalhas de chefes em games. Os minutos finais tem vários estágios, onde Baby não chega a atacar seu inimigo, tendo que esperar o momento certeiro. O “chefe” até retornar após você achar que derrotou ele!

Protagonista apagado, coadjuvantes estrelados

Diferentemente do carisma personificado que eram Nick Frost e Simon Pegg, Baby pode se passar como um garoto antipático a primeira vista. Baby, vivido por Ansel Elgort, tem transtornos mentais e usa a música como escapismo para sua realidade. Ele também é ansioso e tem bastante dificuldade de conversar com as pessoas. Por esta razão o protagonista pode até ter o seu carisma diluído, mas só o deixa mais relacionável com a audiência.

A escrita de Edgar Wright consegue transformar personagens inseguros em caras legais com habilidades incríveis sem diminuir um lado da personalidade. Repetindo a dose de Scott Pilgrim, o roteirista faz com que o personagem se apoie nas suas estranhezas e transforme as coisas que o deixam estranho nas coisas que o deixam forte.

Mas se por um lado o protagonista não tem tantos holofotes, os coadjuvantes são as verdadeiras estrelas deste filme. Jon Bernthal aparece por 20 minutos, mal fala, e rouba a cena. É aquele tipo de personagem que apenas pelas suas ações já faz nascer uma vontade de saber mais sobre sua história e seu passado. Jamie Foxx é irritante, escrachado e não tem medo do perigo, o que faz de si um pé no saco com muita personalidade. Jon Hamn é sem sombra de dúvidas a grande estrela do filme: estiloso, tem uma ótima química com Ansel e faz ainda melhor aquele psicopata enrustido que vimos em White Xmas, de Black Mirror. Kevin Spacey e Eiza Gomez são os mais “tradicionais”e fazem apenas aquilo que já se espera deles, enquanto isso Lily James faz um adorável par romântico que não está lá apenas para ser o par romântico.

Os figurinos também são incríveis e refletem perfeitamente a personalidade de cada personagem. Destaque para as maravilhosas roupas vermelhas remetendo a loucura e violência do Batts (Foxx).

“Ele estava devagar?”

Se tem uma palavra que não pode ser usada pra descrever esse filme é “devagar”. As cenas de ação não só são incríveis como é de se esperar do diretor. É o filme mais estiloso que você vai assistir e Wright e o coreógrafo Heffington pintam a tela do cinema com originalidade, autenticidade e sem usar CGI.

As perseguições são frenéticas, mas ao mesmo tempo bem montadas, o que deixa o filme com muitos elementos em tela, mas todos organizados na cabeça do espectador que não fica perdido no meio da ação como em certos filmes de robôs gigantes.

Tudo isso faz de Baby Driver o melhor filme de ação desde Mad Max: A Estrada da Fúria.

Antes dos créditos subirem, Wright ainda faz mais uma coisa subversiva: durante todo o longa ele deixa a entender que dois personagens eram a personificação do mal e que provavelmente um dos dois seria o vilão do longa. Nada disso acontece e todos somos pegos de surpresa com um vilão totalmente inesperado, mas igualmente genial. A virada na atuação do personagem é incrível e toda a cena de ação final é bem executada, com coreografias diversas e movimentos de câmera e iluminação singulares.

O desfecho acaba um pouco padrão dentro da história de um criminoso, mas não poderia ser diferente sem desvirtuar a mensagem proposta.

Como diria o dramaturgo Chekhov: “Ninguém deve colocar um rifle carregado no palco se ninguém estiver pensando em dispará-lo.” Infelizmente, o personagem de Jon Bernthal, apresentado na cena inicial, não é usado em nenhum outro momento do longa, caindo no deslize da “Arma de Chekhov” e sendo um elemento completamente trivial e descartável da trama.

Metade musical, metade filme de assalto, Baby Driver é um filme de ação 100% satisfatório que brinca com a forma de fazer filmes como poucos atualmente. Não me lembro da última vez que saí de uma sala de cinema com um sorriso tão grande estampado no rosto e com uma vontade colossal de rever algo tão criativo. Seria um crime assistir só uma vez.

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