0. a porta

de pronto eram dois, meu olho pelo olho mágico uma mulher descoberta no fundo do altar, a pele ao avesso, as fibras vermelhíssimas bombas da tocha e o lábio rosa que inverso é o mesmo. de pronto eram três, eu, ela e a porta que nunca abrirá, esta porta é bastarda da madeira gentil desviada do solo, na palma da sua raiz tombava um gole de água pelas conchas das mãos e delicadamente botava na boca de um veado sedento do grande veado da eterna sede. éramos sós, e logo nu espremi meu corpo na madeira bondosa meu umbigo se tornara o outro olho mágico a boca dela era o anverso a língua exausta batia na porta. de pronto eram quatro, eu, ela, a árvore generosa e o marceneiro. não o marceneiro, o gesto de marcenaria. de repente a sensualidade dos adornos os relevos da mão imperturbável do marceneiro tocava nossos dois corpos. puxava o único fio luz do meu mamilo e apertava os tímpanos daquela mulher até o sangue escorrer fino. os dois linhos, de pelo meu, de sangue dela, juncavam na fresta da porta, rodopiando feito serpentes azuis do céu. de pronto eram cinco, os que já sabem e a maçaneta este falo amassagado, a cabeça fosca de um pênis antigo, desenhada pelos caninos de um velho amor que puxou as fibras para traçar os adereços, a mulher enfiava a maçaneta por inteiro na boca, e pelo outro lado minhas mãos abriam o antigo pênis, rotacionando o velho chuco de metal espesso como se fosse parte do meu corpo que arranhava o céu daquela boca girando girando sem nunca abrir nem fechar o ouroboro de cristal que a mulher ao avesso se empenhava a lamber. eram tantos no momento. pelo batente da porta as sombras jantavam-se e animais aberrantes eram formados na sobreposição dos membros que as luzes marcavam, minha sombra sobre a dela tocando a esfera negra de nossos corações e era a silhueta de um urso pardo mãe que percorria todo piso da minha sala. tudo que sai de ti para sempre em cachoeiro ao meu ânus para sempre. os corpos caem, já não contam os danos. estendido com as orelhas abertas e os olhos no fio remendado do mamilo, a mulher ofegante umidamente ofegante pede a morte. tanto pesam meus testículos que o piso se curva e todo seu excremento escapole pelas beiradas, pelas frestas, pelo buraco da chave, pelo agora rompido círculo do olho mágico, tudo enxarca meu lar e meu corpo gosmento, sou envolvido na lua dos aromas. a porta rompe e a mulher ao avesso, réptil fibroso, arranca um dente traseiro no qual chamamos de anjo.

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