#1 Memórias e Montagens: trovão

Quando Beatrice envergou as sobrancelhas como lâminas de raio, lembrei.

O trovão é axioma da história do grave, seu efeito imperativo rompe com a fina chuva, que, refrescante e aguda, prospera delicadamente na pele. Seu rugido de mil feras prateadas arranha verticalmente o céu, assustando e locomovendo o homem ao ritmo do paterno.

A potência patriarcal dos seres moventes é memória criativa do relâmpago primeiro; o rugido sempre fluirá uma potência, nunca o próprio poder, pois é o trovão um ruído das alcovas, das câmaras subterrâneas, é o som prestes-a-chegar, que, mesmo se destrinchado ao lado dos ouvidos, parecerá graves ecos distantes.

A visão do homem embrionário, é o dia branco condensado na raiz forte do relâmpago, que distorce a escuridão infinita do ciclo irrevogável da noite; é a barba grisalha de Zeus escorrendo pelo céu, íngreme com seus pelos dispersos, tão simbólicos ao progenitor quanto a mão presta da caça. Se Zeus faz a visão, Pã direciona a pulsação; pela manhã posterior ao rugir das feras prateadas, o homem embrionário tentou, com dois pedregulhos irregulares, transferir a pulsação para o barulho que criara, Pã-Pã-Pã. E assim, da mesma forma que um filho se torna pai, o saxofone, por genealogia, tem a forma de um belíssimo relâmpago brilhante e ziguezagueado, grave, paterno.

O toque naquela superfície era utópico. Trovão é som e textura do topo das montanhas, só resta à regência enxergá-lo com a pele idealizadora. Aquilo que inflama as matas, seca o sangue dos animais, aquece os pés; a tessitura de um trovão, tão imagética que foi, tornou-se a escolha do corpo grave utópico de todos os ditadores masculinos do século XX.

Todo efeito humano do rasgo celestial se deu no momento em que a similaridade do rouco masculino compactuou com a existência cosmogônica do trovão. Gritavam um para o outro! Exclamavam como a vertical linha da exclamação! Percebera, o homem, que podia ser semelhante a algo que vem de cima, que poderia, no grave utópico, também criar fogo.

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