ENCONTRO NA RUA BARULHENTA
06/10/2014 — Araraquara, SP — Brasil
Avistei a figura sentada ao longe, rente a um cercado de grade, na calçada de um edifício. A rua estava movimentada e ele estava ali, parado. Meus passos desaceleraram. Em meio ao barulho do transito, ao burburinho de conversa alheia, a presença daquele homem, tomou toda minha atenção. Ao chegar perto, notei que um rapaz conversava com ele. Deve ter sido atraído da mesma forma que eu fui. Me senti mais atraído pelo senhor. Cheguei a mesma calçada em que ele estava, não conseguia tirar os olhos de seu corpo. Não sei ao certo o que foi, mas alguma coisa dentro de mim fez com que eu passasse reto pelo senhor e pelo rapaz. Estava com medo, talvez, não sei ao certo. Mas, desacelerei mais ainda meus passos e, quase parando, dei meia-volta. Tive de voltar para junto do senhor. Ao me virar, o rapaz já estava saindo também, estava vindo em minha direção. Perguntei a ele se o senhor sentado era morador de rua. O rapaz, olhou-me desconfiado, mas logo respondeu:
- É, acho que é sim.
Nada respondi. Fui em direção ao senhor. Chegando ao seu lado, pude perceber que haviam lágrimas em seus olhos. E estes mesmos olhos, eram vagos, olhavam para uma direção que a muito não existia. Ele, perdido em seus pensamentos, não notou minha chegada. Agachei-me. Coloquei minha mão sobre seu ombro e perguntei:
- O senhor está bem?
O homem não respondeu nada. Continuava perdido em pensamentos. Perguntei mais uma vez:
- O senhor tem algum dinheiro? Já almoçou hoje? — A resposta que recebi foi o balançar negativo de sua cabeça branca.
Não disse nada. Da bolsa que trazia comigo e que levava diariamente em minhas costas, tirei minha refeição. Minha marmita. Ofereci-lhe de bom grado. O senhor, acredito que um pouco assustado, não entendeu o gesto. Por alguns instantes ficou em silêncio apenas observando o pote bege cheio de arroz e feijão. Mais alguns instantes se passaram, e enfim, ele olhou para mim.
Nunca mais irei esquecer aqueles olhos. Aquela expressão. O contorno daquele sorriso de gratidão. No instante em que seu olhar encontrou o meu, uma tempestade de tristeza invadiu minha alma. Comecei a analisar aquele rosto e me perguntar.
Quantas histórias aquele homem já havia passado? Quantas pessoas aqueles olhos conheceram? Quantas refeições aquela boca havia ingerido? Quantas chuvas aqueles cabelos brancos haviam tomado? Quantas noites frias e quantos dias quentes aquele corpo havia vivido? Quantas decepções, quantas alegrias, quantas tristezas, quanta dor aquelas rugas haviam sofrido ao longo dos longos e tortuosos anos de sua vida? Isso eu nunca irei saber. Todas as respostas se perderam na imensidão daquele instante.
Ao pegar a marmita, o senhor disse:
- Esta pesada. — E deu um leve riso.
- É, eu como muito. Minha mãe sempre capricha nos meus pratos. — Respondi a ele retribuindo o sorriso.
- Mas e você, não vai ter nada para comer? — Disse o senhor, preocupado.
- Eu estou indo para minha casa. Almoço por lá. Não se preocupe, ficarei bem.
Pronunciei esta frase, mas, em minha cabeça, eu estava me perguntando, como uma criatura como esta, ainda consegue se preocupar com o próximo, mesmo quando a maioria das pessoas não se preocupam com ele?
- …minha Amanda. — Disse o senhor com a voz quase inaudível.
- O que? Quem? — Perguntei surpreso ao saber que existia alguém em sua vida
- Amanda. Preciso cuidar dela — Disse o senhor, já com lágrimas nos olhos.
- Ela é sua neta? Sobrinha? Filha? — Perguntei
- Sobrinha — O senhor me respondeu virando-se para me olhar — Eu cuido dela.
Espantado e, sem saber o que dizer ou fazer, falei à ele:
- Bom, a comida agora é sua, faça o que quiser com ela. Dê a Amanda, coma, não sei, mas fique bem.
O senhor nada disse. Balançou a cabeça positivamente e foi pegando a marmita e colocando dentro da sacola que carregava consigo.
- O senhor esta bem? — Perguntei já em pé — Precisa de ajuda para se levantar?
- Não. Eu vou descansar um pouco.
Sem que eu esperasse, estendeu a mão até a minha. Fiz o mesmo. Apertei sua mão. Mão dura, grossa, com tantos calos que já não da para sentir a macies que a pele humana tem. Mas, eram mãos firmes. Intensas.
Enquanto segurava minha mão, olhou mais uma vez para mim. Sorriu. Sorri de volta. Sua boca se abriu e dela, pude decifrar um ‘obrigado’ tímido, mas sincero. Eu, sem saber o que fazer, apenas continuei sorrindo.
- Preciso ir agora senhor, tenho que pegar o ônibus e voltar para minha cidade. O senhor fique bem por favor. Tome cuidado ao atravessar as ruas. Se cuida mesmo. — disse-lhe estas palavras com um forte aperto no coração e sabendo que, mesmo que eu pedisse pela eternidade, o seu bem estar e a sua segurança, não dependiam apenas dele.
Ele nada respondeu, apenas assentiu. Ainda sorrindo. Passei a mão em seus cabelos e nos ombros e me despedi. Disse um ‘até logo’, mas queria ter dito um ‘até amanhã’.
A nobreza deste homem é de se valorizar. Pensei em perguntar o seu nome, mas achei melhor assim, sem saber nomes. Ali, eu não conheci o João, Pedro, Francisco, Manoel, Joaquim e nenhum outro homem. Ali, eu conheci o ser humano. Sem nome, sem idade, sem nada que o rotulasse, apenas o ser humano. Indefeso, solitário, sem amparo, mas com um passado. Um presente e um futuro.