Esse negocio de shipar o casal ficticio

Quem me conhece sabe que eu amo/adoro um seriado de ficção científica/fantasia. E na última temporada de Game of Thrones percebi um verbo muito esquisito, shipar, no Facebook/Twitter. Shipar seria um aportuguesamento do inglês to ship, mas ainda assim não fazia muito sentido para mim de onde isso tinha saído, pois na minha cabeça ship = embarcação e to ship = embarcar/enviar. Como diabos isso tinha virado sinônimo de torcer por um casal acontecer. Eu sou muito curiosa! E lá fui eu buscar uma origem.

Para minha sorte, recentemente o dicionário Merriam-Webster publicou um texto sobre shipping. Eles perceberam a origem para o substantivo ship na década de 90 entre os fãs de Arquivo X.

Vocês super shipavam isso!

Mas você amigo que caiu de paraquedas e nem sabe porque está lendo esse texto, pois não sabe do que se trata, eu explico. Minha definição de ship (o substantivo).

Ship = duas ou mais pessoas (reais ou fictícias) que estão (em realidade ou na fantasia das pessoas) agrupadas por intimidade, romance ou sexualmente. São tradicionalmente referidas com seus nomes agrupados por travessão (Harry/Hermione), unidos num apelido comum (Shevine, que une Blake Shelton + Adam Levine) ou por um nome qualquer consagrado (Stark Spangled Banner, referindo a Tony Stark + Steve Roger + Bruce Banner).
Encontre uma pessoa que te olhe como o Tormund olha a Brienne. Estilo psicopata!

Assim, você pode usar sua rede social favorita para dizer algo como: “Meu ship favorito do momento é o Briemund, de Game of Thrones”. Ou seja, você torce para que Brienne de Tarth e Tormund se tornem um casal em algum momento da série. E como num reforço ao que tentei definir acima, podem ser pessoas reais (aqueles seus amigos que você queria muito juntar), pode sim ter mais de duas pessoas envolvidas (como ter torcido por um triangulo amoroso Harry/Hermione/Ron) e pode ser real ou não (mesmo a Hermione tendo ficado com o Ron no final do livro, tem gente que não aceita até hoje e cria suas próprias histórias em que ela termina com o Harry). E para não confundir, quem torce pelo casal não é um ship, é um shipper.

Se eu fosse a Hermione também escolheria o Ron! Vai entender.

Pelo que pesquisei, tudo começou com Arquivo X. As pessoas torciam tanto para que o agente Mulder e a agente Scully se tornassem um casal que começaram a se denominar como relationshippers que foi abreviado para R’shippers que passou a shippers. Aqueles que, como eu, não queriam que eles fossem um casal (atrapalha o trabalho investigativo!) eram os noromos, abreviação de no romantic moments. O primeiro texto encontrado usando o termo shipper vem de abril de 1996 (de escavações arqueológicas da internet), apesar de muita gente dizer que na verdade quem cunhou o termo foram os fãs de Aventuras de Lois e Clark, mas ainda não foi encontrado nenhuma evidencia que suporte o uso por fãs da série. E dos shippers veio o ship. Referencias de uso em outras séries ocorrem a partir de 1999, em textos e comentários de fãs de Star Trek Voyager e Harry Potter.

Muita gente shipou Janeway/Seven of Nine

Pois é, apesar de nunca ter ouvido falar do termo, me descobri totalmente noromo na maioria das séries que assisto. Está todo mundo querendo fazer altos casalzinhos e eu querendo que as pessoas foquem em objetividade e metas! Penso logo em Fringe, no momento que a Olivia e o Peter viraram um casal de verdade, a série desandou de uma ficção cientifica muito promissora para a pieguice, ficou um porre. Muita gente que conheço fica shipando João das Neves e Daniela dos Dragão em GOT e eu quero que eles fiquem bem longe um do outro, um no Norte e outro no Sul. Já ouvi de juntar o Elliot e a Angela de Mr. Robot e eu quero que ele fique cada vez mais loucão sozinho. E ainda bem que o casal de Arquivo X voltou na nova temporada separado, a série andou. Tenho um coração de pedra? Estou achando que sim.

Eu gostava mais quando eles apenas flertavam! OK, admito, eu queria o Peter para mim.

Quando procurando por ship na internet, você também pode encontrar a sigla OTP (além de barcos, muitos barcos). OTP significa One True Pairing, ou seja um casal verdadeiro. Representa o seu ship favorito, aquele que você vai apoiar até o final dos tempos, mesmo não sendo aceito pelo canon (tipo os loucos Harry/Hermione). Na mesma interpretação OT3 é triangulo verdadeiro, e assim por diante com OT4, OT5, etc. O oposto, aquele que você não tolera de jeito nenhum é o NOTP (not+OTP).

Acho que tenho mais NOTP que OTP.

E o verbo to ship? Primeiro, minha definição de to ship ou shipar em português:

Shipar: agrupar pessoas ou personagens intimamente, romanticamente ou sexualmente.

Assim, você pode dizer: “Eu shipo JediStormPilot em Star Wars”, referindo que você gostaria que a Rey, o Finn e o Poe tivessem no fim da trilogia um final feliz juntinhos. Então você é um JediStormPilot shipper.

Acho fofo!

Mas Adriana, zapeando a internet eu já vi o termo slash. É o mesmo que ship? Não, não é. Para começar, o termo slash precede o termo ship em mais de vinte anos de uso, vindo aparentemente de Star Trek, mais especificamente de histórias Kirk/Spock. No seu primórdio não tinha nada de romântico, mas adquiriu a característica rapidamente. Em geral, slash se refere a fanfics em que o grupo de pessoas shipado seja homens. Eu diria que é a palavra em inglês para o japonês yaoi, mas posso estar errada. Alguns usam esses termos como verbo, e então ganha uma semelhança com to ship. A diferença é que teria de ser um grupo de homens. Como exemplo de uso: “Eu li uma slash sobre Superhomem/Batman.” “Eu slasheio Lito/Hernando, eles têm que ficar juntos”. E a versão feminina seria o femslash (que seria o yuri do japonês). Tem registros em 1995 entre os fãs de Xena: A Princesa Guerreira o uso do termo Altfic ao invés de femslash, mas à medida que as tribos de fãs foram se misturando, se popularizou o femslash mesmo. Assim, to ship é bem mais amplo que to slash, pois engloba a todos. Mas obviamente isso só ficou claro agora, com cabeças mais livres. Na década de 90, existiam várias subclassificações dos fanfics, pois as pessoas morriam de medo de começar um fanfic e descobrir tarde demais que era “diferente do que elas deveriam/poderiam ler”. Tinha classificação em slash, het (relações heterossexuais), gen (sem relacionamento), etc. Só bem recentemente ficou liberado ler e shipar tudo e todos.

Bromance!

Deixo claro que no Merriam-Webster as definições são levemente diferentes das que dou acima, pois eles se limitam ao casal tradicional, quando na realidade do uso, na internet e na boca do povo, as relações mais variadas de poliamor são muito mais frequentes que relações “tradicionais”. Basta pensar que é muito mais legal na cabeça do povo da internet shippar que o Capitão banderoso vai se descobrir apaixonado pelo Soldado Invernal (ou pelo Tony) que shipar algo com a agente Carter versão 2. O segundo é menos shipado porque é o mais provável e realista, vai acontecer independente do que as pessoas querem. Assim, relações multigênero e os mais diferentes polígonos amorosos são em geral muito mais shipados e desenvolvidos pelos fãs nas fanfics.

O fandom da Marvel é muito confuso no shipping

No momento atual, acho que só shipo Briemund, mais pelo alivio cômico que vai gerar do que pelo romance em si. E vocês, que provavelmente não tem um coração de gelo, shipam quais personagens?