Netflix and Moscow Mule

Uma simples bebida, duas grandes séries. É assim que o Moscow Mule, coquetel quarentista, assume o protagonismo dessas duas obras, pelo menos por alguns instantes. Em Better Call Saul (NETFLIX, 2015), o Moscow Mule é mostrado diversas vezes, principalmente em cenas envolvendo Kim Wexler (Rhea Seehorn, Franklin & Bash). Em House Of Cards (NETFLIX, 2013) a icônica caneca é usada Frank Underwood (Kevin Spacey, Beleza Americana) em uma cena do retiro com os pretensos apoiadores da sociedade Crow of Elysium.

O Moscow Mule (ou a Mula de Moscou) foi criado para alavancar dois empreendimentos falidos, o primeiro — a Smirnoff Company de John Glibert Martin e o segundo — a Cock N’Bull Tavern de Jonh “Jack” Morgan. A ideia de combinar seus produtos surgiu como alternativa para inserir a vodca no mercado americano e esvaziar um estoque de cerveja de gengibre. Em outras versões existe um terceiro progenitor na história da criação, usualmente a namorada de Jack Morgan que trouxe para a concepção da ideia a icônica caneca de cobre. Algumas vezes a criação da Moscow Mule ocorre durante a segunda guerra mundial, em outras após a segunda guerra, mas com fontes relevantes a trazendo para o período entre guerras. Contudo a icônica caneca é relevada formalmente a ideia apenas na década de 50. Em algumas linhas de raciocínio ela estaria como parte firmada desde o princípio, afinal as cervejas de gengibre eram servidas em canecas de cobre antes da ideia do Moscow Mule.

Mas é certo que como uma história da criação de uma bebida pelos dois homens, seja reconhecida em seu mais extenso senso pela inserção de um item, que elevou a ideia a status de ícone.

Assim como em House Of Cards (NETFLIX, 2013) onde o protagonismo de Frank Underwood (Kevin Spacey, Beleza Americana), é tomado aos poucos pelo carisma de Claire Underwood (Robin Wright, Wonder Woman). Claire, tanto na trama propriamente dita, quanto na trama pelo protagonismo, escala para o papel central, pendendo entre momentos imorais e amorais. Como a caneca de cobre, Claire Underwood assume a tarefa de fazer House Of Cards um ícone memorável. A parceria entre os dois os personagens assume-se cada vez mais igualitária e Claire desponta na quinta temporada como a grande protagonista. A receita clássica do Moscow Mule é de 50 ml de vodca posto em uma caneca de cobre, com suco de meio limão, sendo o volume preenchido com cerveja de gengibre.

Outro protagonismo sitiado é o de Jimmy McGill/ Saul Goodman (Bob Odenkirk, Breaking Bad) escalado aos poucos por Kim Wexler, que atua como ancora moral ao inebriado Jimmy McGill; mas ao contrario de uma construção simples a moralidade de Kim é posta a prova, e falha em alguns pontos tendo seu valor cobrado. Sem Kim, Better Call Saul, seria apenas uma mistura de tantas outras coisas, sem a áurea de uma série reconhecida. Da mesma forma o Moscow Mule poderia ter sido apenas uma união errada de bebidas, gerando uma mistura comum e anônima. Kim, marcadamente se apresenta como uma imagem antagonista a Jimmy “escorregadio” McGill, apesar de flertar com a moralidade dúbia de Jimmy, assim como com o próprio. Nesse ponto a personagem assume a realidade, com contornos cinza, ainda mantendo para si uma superioridade moral, mas com pequenos deslizes. Kim se torna além do interesse romântico, da namorada na geladeira, do sidekick — ela vai além assumindo a sua própria trajetória narrativa. O Moscow Mule provavelmente foi baseado em outro coquetel, o Mamie Taylor uma mistura de scotch, limão e cerveja de gengibre.

John G. Martin

Alguns anos atrás o Moscow Mule era apenas uma lembrança saudosa de mixologistas teóricos, um prazer de pioneirismo no coquetel que “iniciou tudo”. Pena que outros ressurgimentos não sejam inofensivos; alguns são incômodos, depois se tornam perigosos. Um discurso misógino, relevado em tom de brincadeira, pode assumir contornos radicais quando proferidos por posições de poder. O pussygate (escândalo envolvendo o presidente Donald Trump) não mereceu o quinhão devido e se tornou apenas mais um detalhe perdido em uma campanha estranhamente canhestra.

E assim Claire Underwood e Kim Wexler deixam de ser sidekickers e assumem a identidade das séries; e um coquetel perdido, ultrapassado, retorna a voga, nos mesmos moldes que discursos falidos reassumem a vez no poder.

Referências:

A Cock(tail) ’n’ Bull Story por Eric Felten. 2007. https://goo.gl/jxu8Ji