No paralelo dos mundos

Vivo em dois mundos.
Num deles — e o que eu mais gosto — eu sou um cara feliz, estou cercado por pessoas de bem e que querem o meu bem. — Nesse lugar, não importa a dor que senti no passado e nem o que pode vir a ser no futuro, eu estou bem, íntegro e feliz. Neste mundo, faça chuva ou faça sol, a vibração é amor.
No outro, as cores já são mais fortes, intensas. O tom de voz sobe. A face endurece e o olhar mira sempre adiante. Nesse mundo, eu sigo abrindo caminhos, cortando mato ou dirigindo trator. Nesse lugar, minha mente inspira e comanda. Controla, programa, planeja e é rígida, aqui a vibração é ação.
Gostar mais do primeiro não significa que não goste do segundo.
Mas confesso que minha zona de conforto fica muito mais confortável no primeiro mundo que citei. Não que lá a bordoada não exista. Existe. E é problema do outro e não meu. Neste mundo eu não dou porrada. Neste mundo! Sair dele é mais difícil, nele eu inspiro amor. Inspiro, mas não saio do lugar. Vou navegando ao sabor do vento.
Já no outro, boto a mão na massa. Carrego piano. Toco o barco. Grito. Remo. Assobio e corto cana! Subo escada, morro e rampa! Me jogo, tomo caldo. Grito. E levanto. Ou deixo que me levantem. Coloco para fora todos os meus anseios e materializo. Faço acontecer. Respiro. Bato na parede e às vezes, dou murro em ponta de faca.
E se eu estivesse que escolher, qual seria?
A nossa mente tacanha e escassa sempre nos leva a uma única escolha. Desconsidera que somos duais, múltiplos e diversos. Nos codifica, qualificando-nos para estar neste ou naquele grupo. Um de meus trabalhos é fazer isso, agrupamentos. Muitas vezes, observo algo e na sequência visualizo uma sequência de ações semelhantes e uma palavra que possa “resumir” todas elas.
A nossa mente tacanha e escassa quer sempre estar no controle. Quer ter a razão. E ignora todo o mundo subjetivo que está entre nós. Não quer crer no imenso campo de possibilidades. Não quer ver que nem sempre um e um podem ser mais que dois. Não quer sentir. Fechar os olhos e imaginar. Criar. Voar. Ver além do tangível.
Ainda bem que temos um coração. Um coração que cabe mais que o sangue que corre em nossas veias. Um coração que pulsa e pode pulsar na mesma sintonia que vibra a terra. Um coração que emana amor. Que sente. Que vibra. Que se expande. Que em nossa visão pode chegar a cobrir este multiverso inteiro de possibilidades.
Aprendendo na prática o papel de cada mundo. O coração sente e a mente organiza!