Perdido numa noite fria no campo de possibilidades

Tenho uma vaga ideia de quem eu seja (ou esteja neste momento que escrevo). Tenho ciência da impermanência. Sei de uma porção de poucas coisas a respeito de vários assuntos.

Posso ser uma biblioteca de saberes. Posso ser referência. Posso dominar sobre determinado assunto. Posso ser o que eu quiser (ou o que você quiser)! Posso, mas não não quero porque isso cansa!

Posso e pude e fiz. Por isso digo, isso cansa! Cansa ao ponto de te tirar a energia do sorriso. De fazer brotar dentro de ti, uma sensação contrária a da satisfação por ter alcançado algo tão almejado.

Viver sem o brilho nos olhos. Conheço tantos que escolheram esta maneira para viver. Por um tempo, experimentei viver assim. E de novo, cansei. O brilho nos olhos que eu procurava, ele transcendia o final de semana.

Falar de cansaço pode parecer absurdo no mundo frenético que vivemos. Não temos tempo para isso! O cansaço é um detalhe para os fracos. Aos vencedores, a glória por ter superado este detalhe.

Fast-food. Fast-shop. Fast-love. Meios e aplicativos para facilitar e agilizar a vida. E o que fazemos com o tempo extra que ganhamos neste processo? Cansamos mais! Gastamos inconscientes.

Estamos cansados de estar cansados de estar cansados. Tão perdidos com o mundo de informações que temos ao nosso alcance que só para parar para pensar, cansamos!

E com este sintoma em mãos, já prevejo uma porção de gurus oferecendo a receita pronta para o sucesso, testada em milhares de pessoas. Vejo isso e tenho a certeza de que não sou deste mundo.

Estamos tão presos nesta Matrix insana que damos aquilo que nos é mais precioso para os outros e de mão beijada. Entregamos o nosso poder de escolha ao primeiro que aparece. É mestre, é guru, é pajé, é guia.

Abrimos mãos de sermos quem somos para nos encaixar no quadrado que nos vendem. O que é ser bem sucedido para você? O que é sucesso? O que é felicidade? E quem é você neste turbilhão de perguntas?

Eu sou o cara chato que odeia respondê-las (qualquer uma delas) pela manhã. Mas que borbulha e perde o sono refletindo sobre elas nas madrugadas insones e insanas.

Eu sou aquele que se perde e se acha com uma frequência tal que nem mais me espanto. Eu me perco e me acho no reflexo do outro. Construo minhas ideias e as desconstruo quando interajo verdadeiramente.

Eu sou um pouco de todos aqueles que cruzaram o meu caminho. Aqueles que me proporcionaram momentos felizes, de conquistas e vitórias e aqueles que me derrubaram e me derrotaram.

Eu sou tudo isso. Sou amor e dor. Sou eu e sou você também. Sou parte e sou tudo. Sou fluxo. E sinto. Sinto muito. Sou coração. Sou mente. E minto. Minto dizendo que estou quando não.

Eu sinto dores que não são minhas. Que não são, mas são. Se sou um, eu vou sentir. Eu sinto dores que são minhas, marcas da vida. Tatuagens virtuais que caminham por nossos corpos sutis.

Me perdi e não sei se me achei. Mas é processo. É fluído. É vivido e visceral. É sentido. Não planejado. Acontece. Eu vivo, eu sinto e também observo. Assisto. Múltiplos lugares. Espectador. Expectador.

Eu estou assim e você?