Nathália Rocha

23 anos, jornalista e criadora do site feminista Frida Diria

Eu tive o meu despertar para o feminismo na faculdade. Eu estava meio desanimada em relação ao curso e pensando no que eu queria fazer da vida quando algumas meninas começaram a fazer reuniões dentro da Unesp para discutir feminismo. Era uma época em que eu já vinha lendo muita coisa sobre isso, mas me engajei mesmo com o surgimento do Coletivo Abre Alas. Participando, comecei a enxergar o feminismo de uma forma mais ampla e a entender um pouco mais sobre a minha própria identidade; foi nesse momento que eu me identifiquei de fato como mulher negra. As reuniões do coletivo culminaram em uma descoberta pessoal. Até então, eu já tinha consciência de uma série de coisas que me incomodavam, mas não tinha tido contato com o conceito em si.

Dentro da Unesp, mesmo nos cursos de Humanas, onde existe um pessoal mais desconstruído, existem muitos problemas. Nas festas o cara chega te puxando, tem professor que é machista… Inclusive, teve um episódio na graduação que me fez despertar muito para isso. Durante uma aula de Sociologia, nós estávamos falando sobre a origem da Marcha das Vadias, que teve a ver com um policial canadense que afirmou que se as mulheres não queriam ser assediadas, então “que elas não se vestissem como putas”. E o professor concordou com essa afirmação, o que deixou todo mundo revoltado. Em geral, as pessoas eram muito apáticas na aula dele porque ele não estimulava o debate, mas nessa aula todo mundo discutiu muito. Acho que foi aí que eu comecei a perceber essas problemáticas dentro do ambiente universitário, e consequentemente fora dele, porque ele nada mais é do que uma reprodução da sociedade lá fora.

O nosso coletivo teve os seus momentos de ápice sob demanda, porque às vezes ele enfraquecia, mas quando surgia alguma coisa muito problemática, a gente começava a se mobilizar de novo. Ele se fortaleceu mesmo em virtude de uma festa da Faculdade de Engenharia: a “Vírgula” [festa universitária em que o valor do convite para mulheres era de R$ 2,50 e para homens R$ 25]. A gente começou a colar cartazes na universidade e a postar críticas na página do Facebook, o que provocou uma repercussão muito grande; tanto de gente nos xingando como de pessoas percebendo que aquilo era realmente problemático.

Foi nessa situação que o coletivo ganhou nome e as pessoas passaram a saber que ele existia. Agora, todo problema que acontece em torno das mulheres na universidade elas sabem que têm o coletivo para contar. Não que a gente resolva todos os problemas, já que a Unesp é muito burocrática, mas pelo menos funciona como um centro de acolhimento.

Eu peguei uma época na universidade que, até por causa das redes sociais, o pessoal começou a se organizar bastante em torno de causas e de movimentos. Eu diria que a discussão política saiu um pouco do centro e do diretório acadêmico e começou a ir para as rodas de conversa, e a se organizar não só em torno da política macro, mas de recortes como a questão racial, LGBT e de gênero. E a Unesp mudou muito a partir disso.

Mas mesmo dentro dos cursos de Humanas, que deveriam ser ambientes de problematização das coisas, ainda tem muitos obstáculos. E nos cursos de Exatas também se vê muita ignorância porque essas questões não são discutidas. A gente tem cobrado que os professores levem o debate sobre racismo e gênero para dentro da sala de aula e até ponderem melhor a linguagem que eles usam. Em qualquer disciplina você pode abordar isso; sempre há uma abertura.

Nós percebemos essa necessidade depois das pichações no banheiro. Primeiro, teve contra o professor Juarez, depois contra as meninas do coletivo. Eu, inclusive, fui uma das citadas [em 2015, o único professor negro do curso de Jornalismo da Unesp em Bauru, Juarez Xavier, e alunas do coletivo feminista, receberam ofensas racistas e homofóbicas em pichações nos banheiros da universidade].

Isso só acontece porque o ambiente universitário é conivente, em parte porque os professores universitários não são treinados para lidar com a diversidade. Agora tem mais alunos negros, as mulheres que estão entrando na universidade são mais questionadoras, mas os professores não estão preparados para lidar com eles mesmo sabendo que o ambiente universitário é para ser plural. Por isso, o que cobramos é que a universidade seja um ambiente de formação para além da educação técnica e dialogue sobre esses assuntos.

Não dá mais para tolerar um professor de Sociologia, por exemplo, falando absurdos para as alunas. A universidade precisa começar a se adaptar ao momento de transformação que vivemos — e as pessoas também. Até hoje as pessoas encaram esses assuntos com resistência.

Quando rolou nas redes a #meuamigosecreto, muitas meninas da Unesp denunciaram pessoas que estavam dentro do círculo delas, era claro: professores, colegas que super pagam de esquerda — do tipo “me identifico com o feminismo”, mas que chegam na rodinha dos amigos e falam absurdos, que estão num relacionamento e são abusivos, entre outras coisas. Então a gente pensa que está em uma bolha universitária onde há consciência, mas dentro dela há diversos problemas.

As pichações foram um sinal de que as pessoas estão incomodadas com os questionamentos que vêm surgindo dentro da estrutura de privilégios que a universidade pública carrega. Não sei, mas sinto que ainda haverá muita resistência. É ruim que aconteça, mas ao mesmo tempo encaro como positivo, pois as pessoas só estão incomodadas porque algo está mudando.

Racismo

No meu caso, eu recebi agressão racista e lesbofóbica. E foi muito estranho, porque foram citados nomes aleatórios, inclusive de gente que não estava tão envolvida com o coletivo. Foi um choque… me abalou um pouco. É sempre pior quando a agressão é direta. Quando foi com o professor Juarez já me abalou, porque é alguém por quem eu tenho muito carinho, e, embora tenha sido direcionada a ele, afeta os negros de um modo geral na Unesp. Para mim, por exemplo, enquanto mulher negra, é muito agressivo que os únicos negros no ambiente universitário sejam as funcionárias da limpeza, obviamente não desmerecendo o trabalho delas. Mas não é um ambiente acolhedor para mim. Não é um ambiente em que eu me sinta totalmente a vontade, pela falta de diversidade que existe.

Essa foi a primeira vez que eu fui agredida por causa do ativismo. E provavelmente eu só fui citada porque de algum modo estava envolvida dentro da militância na universidade. Mas teve uma vez — eu morava em uma região universitária de Bauru e costumava frequentar o mercado de uma região nobre — muitos meses antes, que eu estava pegando café e um homem atrás de mim falou assim: “não vai roubar o café”. Eu não cheguei a olhar para a cara dele porque eu entrei em choque na hora, não soube responder. Eu simplesmente saí dali. É horrível porque nessas horas você não está preparada para lidar com a agressão. De modo geral, a gente houve algum tipo de agressão e isso nos paralisa. Só depois eu pensei em formas que eu poderia ter respondido.

Foi a partir disso que eu comecei a pensar sobre como ser negra me afetou ao longo da vida. Nessa época, por exemplo, eu ainda alisava o cabelo. E percebi que eu alisava em uma tentativa de me adaptar à estética branca, mas, ainda assim, isso não me blindava de sofrer com o racismo. Com o tempo, eu passei a deixá-lo natural e a encarar a estética como uma forma de empoderamento pessoal. Outra coisa que me fez refletir é que sempre frequentei escolas particulares de classe média, mas nunca tinha parado pra pensar que eu era a única menina negra naquele espaço.

O cabelo é algo forte pois dentro do movimento negro a estética não é puramente estética, mas está carregada de uma simbologia de resistência. A estética está vinculada à ética. Tem muito a ver com o empoderamento pessoal, ao mesmo tempo em que é um movimento coletivo, e de uma afirmação social de que não há nada de errado em ter um black. Aceitem! E isso é interessante, inclusive, por ter pressionado uma mudança externa: cada dia mais tem surgido produtos para cabelo crespo (lógico que a gente pode problematizar isso, porque é o capitalismo tentando se apropriar de um movimento, mas ao mesmo tempo é positivo). Há alguns anos, eu não teria ideia de como cuidar do meu cabelo. Para mim, essa questão de aceitá-lo e de me aceitar como eu sou foi muito empoderadora mesmo.

Enfim, passei a rever essas e outras questões. E os meus próprios privilégios também. Por um lado, sofro toda essa carga de opressão de machismo, racismo e lesbofobia, mas por outro, eu pertenço à classe média e tive a oportunidade de me formar em uma universidade pública. Portanto, eu tenho uma série de privilégios que mulheres periféricas, por exemplo, não têm. O feminismo me fez pensar sobre o conceito de empatia, sobre olhar pra dor do outro.

É muito pouco falar sobre feminismo pensando sob uma ótica burguesa, branca e liberal. Ele tem que nos encaminhar para outras dicussões além. Não adianta falar sobre igualdade salarial sem considerar que a mulher negra está na base da pirâmide social; não adianta falar sobre assédio desconsiderando que as mulheres negras são as que mais sofrem com a violência. Por isso, acho que discutir só gênero ainda é muito pouco, porque existem mulheres dentro de diferentes recortes de opressão.

Frida Diria: (re)vendo o mundo pela perspectiva feminina

O Frida Diria foi consequência desse meu processo de amadurecimento pessoal. Eu tinha uma pesquisa sobre modelo de negócio dentro da graduação que coincidiu com a época que eu me envolvi com o feminismo. Aí tive a ideia de criar um site que abordasse o tema com uma linguagem mais fácil, não tão teórica, falando desde questões políticas, falta de representatividade até alguma coisa problemática em um novo hit pop. Eu queria que a página tivesse essa amplitude.

Então, na realidade, eu usei o TCC [trabalho de conclusão de curso] como desculpa para me envolver mais com isso. Mas é lógico que durante esse processo de criação eu me mergulhei mais fundo: me forcei a ler mais, a estudar e a me embasar. Daí cheguei a outras questões, como o transativismo e a questão das mulheres com deficiência, por exemplo, coisas que raramente se falam sobre.

A principal ideia do Frida é tratar de assuntos atuais dentro da perspectiva de gênero. Eu me lembro que uma vez estava pensando em uma pauta dentro de gastronomia e questionei: por que o trabalho de cozinha doméstico é atribuído à mulher, mas quando falamos de chefes de cozinha renomados a maioria é homem? Tudo dá para ter uma perspectiva de gênero.

Mas as nossas referências são muito pautadas pelo viés masculino, desde os conteúdos dentro do Facebook até os livros que você tem nas bibliografias ao longo da graduação. Querendo ou não, isso molda muito a forma como a gente enxerga as coisas. E o problema é que fomos ensinados a enxergar isso como o melhor viés. Precisamos começar a dar uma perspectiva feminina e feminista para as coisas.

A discussão dentro dos espaços de privilégio

Eu acho que cada um abraça o feminismo ao seu modo e dentro das suas capacidades. Tem gente que tem menos paciência e eu não tiro a razão dessas pessoas, porque cansa muito você ficar discutindo — mesmo com o “esquerdo-macho”, aquele que se propõe a discutir, mas te silencia o tempo todo e acha que entende mais de feminismo do que você. Mas eu tento ser didática porque a minha formação também foi pautada por um viés machista.

Eu digo assim: privilégio é você não ter que pensar sobre um assunto. Se você não tem que pensar nisso é porque você nunca passou por isso, não tem vivências disso. E faz parte. Agora, a escolha é sua continuar se posicionando assim ou não.

Por isso, quando um homem vem me perguntar “o que eu posso fazer para ajudar?” eu respondo: 1) não seja babaca. Parta do princípio que você é um machista em potencial. Encare isso como uma realidade, porque você foi formado assim e em algum momento da sua vida você já fez alguma bosta. 2) Use os seus espaços de privilégio para desconstruir os seus amigos! A gente se identifica muito mais com os nossos pares. Uma mulher falando de feminismo para um homem, às vezes, ele não vai ter paciência para ouvir e não vai querer entender. Mas, quando é outro homem falando com ele (e isso é péssimo, lógico), ele se identifica mais porque nós tendemos a ouvir mais os nossos pares. Então, vocês esquerdo-machos que se propõem a ajudar, que ajudem discutindo isso nos seus espaços de privilégio.

Há lugares que são naturalmente mais difíceis de fazer isso, como dentro da nossa família. Por exemplo, eu não vou travar uma discussão sobre feminismo com os meus avós porque eles são de outra época, tiveram outra formação. Prefiro pegar batalhas possíveis [risos]. É muito desgastante você ficar discutindo com alguém que não vai mudar em nada. Porém, quando você tem algum tipo de abertura, precisa ser um trabalho de formiguinha. Você apontou o problema uma vez, não deu certo… “ah, vou reformular isso e tentar de novo”.

Dentro das nossas relações cotidianas é sempre uma ação de persistência mesmo, mas são esses os espaços onde temos que discutir. Com o meu pai, por exemplo, eu comecei cortando piadas machistas. Não sei se ele mudou o pensamento, mas no dia a dia e nas nossas conversas ele sabe que eu não gosto e não faz mais.”