Review — NieR: Automata
Com pouca visibilidade em seu título anterior, Nier: Automata consagra de vez a franquia
Introdução
Nier é uma série spin-off da franquia Drakengard, dirigida pelo bizarro diretor japonês Yoko Taro. Seu primeiro título chamado apenas de “NieR” foi lançado para PS3 e Xbox 360 em abril de 2010. Produzido pela Cavia e distribuído pela Square Enix, o jogo recebeu reviews medianas, e não foi um sucesso de vendas, permanecendo como um título obscuro da geração passada. No entanto, acabou criando fãs que gostariam de ver uma sequência.
Em 2014 foi anunciado o desenvolvimento de NieR: Automata, pela Platinum Games. O jogo permaneceria com seu estilo action-rpg, mas desta vez contaria uma história distante do seu primeiro título. Por se tratar do mesmo universo, a temática seguiria parecida, e muitos elementos iriam continuar dando as caras. Com seu anúncio, a popularidade e expectativa começaram a aumentar. Também graças a polêmica gerada pela android protagonista, a 2B.
NieR: Automata foi lançado para PC e PS4 em Março de 2017, e encantou muitos jogadores através de sua jogabilidade fluida, e também pela simpatia de seus protagonistas, 2B e 9S. Assim, sua popularidade cresceu, alcançando um número maior de apreciadores que seu primeiro título. Se mantendo em evidência, o jogo já ganhou seu espaço como uma das grandes surpresas da geração.
História
No ano de 11945, décadas após os acontecimentos do primeiro NieR, vivenciamos uma guerra entre os androids e as máquinas. Agora num universo pós-apocalíptico, somos encarregados de batalhar em nome da YohRa, uma organização instalada no espaço. Seu principal objetivo é destruir as máquinas com seus próprios androids, a fim de repassar o legado da extinta humanidade. Nessas circunstâncias controlamos dois personagens com os quais vivenciamos essa jornada, eles são 2B e 9S. Ambos androids, somos designados para uma cidade em ruínas com a missão de proteger das máquinas a resistência habitante. Até que somos submetidos a estranhos acontecimentos nos quais a história se desenrola — no futuro nos permitindo compreender melhor seu interior.

O primeiro ponto a se destacar é o casal de androids 2B e 9S. Como vivenciamos a narrativa em suas peles, acabamos nos tornando próximos aos personagens. É o caso de 2B, uma android sem muito senso de humor e vontade de interação. Muito obediente às condutas da YohRa, vemos 2B sendo aos poucos cativada pelo carismático 9S, um simpático android, que gosta de conversar e de expor seus sentimentos. Suas complexas personalidades são muito abordadas na história, que acarreta a relação de ambos como um elemento importantíssimo da trama. Certamente uma relação que acabamos nos envolvendo muito durante nossa trajetória.

O enredo de NieR é explicado de forma introspectiva e reflexiva. Apesar de ter fatos concretos que complementam seu background sombrio, durante seu decorrer vivemos isso de forma intimista, convidados a pensar sobre os acontecimentos abordados. Muito disso se da por conta do alto teor filosófico da narrativa e sua temática de ficção científica. Somos desafiados muitas vezes a refletir sobre os ocorridos e nos adaptar ao tipo de pensamento implícito no próprio jogo. Porém para viver a experiência completa somos obrigados a terminar o jogo mais de uma vez, sendo submetidos a diferentes campanhas. Este é um dos diferenciais, pois apesar da curta duração (mínimo de 10 horas para o primeiro final), temos que reviver e redescobrir o jogo, para pegarmos diferentes encerramentos e elementos exclusivos de seu universo. Esta é sem dúvida uma forma única de contar uma história, fazendo com que o jogador se sinta cada vez mais parte daquilo. E também pela sutileza com que seu teor vazio e desafiador combina com a jogabilidade.
Nier nos surpreende múltiplas vezes trazendo uma narrativa que de início parece pouco plausível, mas que aos poucos nos conquista por meios não convencionais. Não pela sua gama cinematográfica, mas sim pela reflexão gerada através de seus pequenos aspectos, que aos poucos vão se tornando mirabolantes e complexos ao entendimento do jogador. Tudo isso controlando dois personagens que traçam em sua companhia um caminho emotivo e marcante. Com certeza o fator replay, utilizado para obter novas informações e diferentes finais, é um ótimo contorno para essa geração, que tem cada vez mais enfoque nas narrativas.
NOTA: 9,0
Jogabilidade

A jogabilidade de Nier em sua essência é action-rpg, com elementos de “hack and slash” e “shoot ’em up”. São fatores que enriquecem seu gameplay, visto que temos velocidade e fluidez no seu sistema de combate. Contando com as partes em que somos obrigados a utilizar nossa flight unit, quando se torna um verdadeiro “jogo de navinha”. Apesar de extremamente divertida essa dinâmica, somos obrigados a ter habilidade, pois sua dificuldade é bem alta. Os comandos não são de fácil domínio. É o caso da esquiva que tem de ser utilizada com bastante precisão e é um comando fundamental durante o jogo inteiro — sistema muito similar ao visto em Final Fantasy XV. No entanto, em seu decorrer aprendemos em quais momentos utilizar cada um dos diversos estilos de batalha apresentados, para assim evoluirmos nosso desempenho de forma customizada.

O mapa de Nier tem uma boa quantidade de conteúdo, porém não é muito grande. Todos os locais serão visitados em alguma parte do jogo. E durante teremos que revisita-los. Apesar disto, não é nada que nos faça ter falta da exploração. Todas as áreas são redescobertas a cada momento, graças às frequentes mudanças ocorridas. Também devido às sidequests e ao curto tempo no qual finalizamos, fazendo com que cada diferencial seja uma breve novidade. Os cenários ainda nos possibilitam batalhas em áreas abertas, proporcionando uma grande imersão durante os momentos decisivos e também nos forçando a elaborar estratégias para aproveitar o espaço. O jogo ainda conta com customizações em nossos personagens, tanto nas vestes quanto para armas ou pods. E pra finalizar, temos um simples sistema de pesca, divertido para os momentos que apenas viajamos pelo ambiente.

Mesmo tendo boa parte de seu tempo baseado na premissa de caminhar e batalhar, o sistema utilizado nos permite se viciar cada vez mais nisso. Graças ao seu modo de batalha dinâmico e caótico, aproveitamos boa parte de forma automática. É gratificante desfrutar de uma fluidez que parecia ter se perdido nas gerações passadas. Além disso admiramos detalhes até mesmo na jogabilidade, como os movimentos distintos que nossos personagens apresentam durante as lutas. O ponto fraco vai para os distantes save points, que são poucos, fazendo com que percamos um bom progresso muitas vezes por conta disso. A parte boa é que cada jornada é agradável e compensadora.
NOTA: 8,5
Áudio e Visual
Nier se passa em um universo pós-apocalíptico, portanto seus cenários contam com ruínas e vegetações, apenas cercados de robôs e animais. Os ambientes chaves da narrativa são diferenciados, e normalmente cada um tem um tema e uma história para contar. Mesmo sempre percorrendo os lugares, eles sofrem algumas mudanças com o decorrer da história. Nisso está incluído a mudança de ângulos que as câmeras costumam adaptar para respectivas situações. O ambiente tem uma coloração cinza, e sua atmosfera é bem solitária e introspectiva, fazendo com que muito da história tire proveito disso para transmitir sensações ao jogador. O design dos personagens também é bem característico e marcante, tanto aos protagonistas quanto aos antagonistas, fazendo com que tenhamos elementos que dialogam esteticamente, moldando seu universo. Seus gráficos são regulares para a atual geração, sem surpresas.

As músicas apresentadas nos deixam bem ambientados, sendo grande parte com vocais e instrumentais grandiosos e barrocos. A aura marcante das canções fazem com que cada canto do mapa provoque uma nostalgia pós-jogo. Além do mais, nesse preenchimento até o uso do silêncio se destaca, realçando parte da melancolia de seus momentos. Seu ambiente futurista e reflexivo se encaixa perfeitamente com a trilha, nos deixando satisfeitos com o trabalho feito nesse conjunto. O compromisso com sua identidade sonora se manteve imbatível, tanto nos momentos emocionantes quanto nos de ação. A dublagem contém versão americana e japonesa, sendo escolhidas de acordo com a preferência do jogador.
Um dos pontos mais importantes para a experiência de Nier mostra ter cumprido bem o seu dever. Seu som, que é de muita qualidade, foi recorrentemente comparado a trilha de Ghost in the Shell. E destinado a complementar o vazio bem posicionado dos ambientes, todas músicas ganham notoriedade dentro do sentimento que floresce. O mesmo vale pro cenário cinzento e tímido pelo qual passamos. Com seu teor obscuro, se torna propício para desafiar os questionamentos do jogador. E o encaixe desses elementos é delicado e essencial para a experiência.
NOTA: 9.0
Custo-benefício
O valor da versão física de Nier: Automata custa em torno de 200 reais. Enquanto a versão digital está custando R$229,90 na PSN e R$159,90 na Steam. Uma compra que vale a pena no PC visando recorrentes promoções, mas que tem um alto custo para consoles. Para fãs de action-rpg e ficção cientifica a compra é extremamente recomendada. Já para os que não tem tanta intimidade com o gênero, a compra pode valer a pena devido a dinâmica da jogabilidade. Na dúvida foi lançada uma demo para PS4, que vale a pena ser jogada.
As primeiras cópias de Nier: Automata vieram com um problema para instalar atualizações. Muitos lotes tiveram que ser recolhidos, além dos jogos devolvidos para troca. Por isso é sempre bom ressaltar este fato, e fazer boa checagem antes de sua compra.
NOTA: 8,0
Considerações Finais
NieR: Automata não é um simples jogo, onde podemos classificá-lo como bom ou ruim. Todas as camadas que formam seu resultado final nos passa uma impressão diferente da maioria dos títulos que estão hoje em dia no mercado. É notável que desde o início a proposta que estamos aceitando é flexível, e como uma montanha russa, molda um fluxo com nossos sentimentos durante esse percurso. Este lado que Nier tenta nos trazer não é novo, mas é raro no meio dessa disputa reciclada e genérica recorrente nos jogos. Inseridos nesse universo como um ser observador e pensante, reavaliamos nosso pensamento para os jogos como uma forma de arte.

Introspecção e peculiaridade são as duas características que permitem Nier ser um dos maiores títulos lançados esse ano. Embora sua comparação seja limitada, por se manter reservado no imaginário como uma obra única. Cada ponto no qual apresenta suas falhas é compensando dentro da vivência proporcionada. Além de mostrar que um trabalho não precisa ter perfeição em todos os detalhes, desde que sua essência seja projetada de forma autêntica. No final das contas o que vale é a originalidade com a qual Nier vai imergir na nossa existência, nos lembrando assim os níveis profundos onde um jogo pode chegar.
