Da Criatividade

Em muitos aspectos escrever e cozinhar são semelhantes: ambos são processos criativos; ambos partem de um vazio rumo a um objetivo mais ou menos delineado; ambos consistem, em grande parte, em transmitir a outrem uma ideia, gestada em nosso interior e composta com aquilo que temos à mão e com a técnica mais correta de que dispomos, adaptando-se ao público e à ocasião.

Sento e encaro a tela com o mesmo propósito com que encaro a luz amarelada do interior da minha geladeira todos os dias por volta das 11 da manhã: o propósito de alimentar a mim mesmo e aos outros, e a esperança de que o que quer que saia na outra ponta do processo seja agradável e alimente.

Não me engano fingindo que algum desses atos é puramente altruísta (quase nada nessa vida é). Cozinho o que quero cozinhar, com o que tenho, e, se faço concessões, quando as faço é porque o prazer e a saciedade do outro também me alimentam. Saber que minha irmã gosta que se refogue o repolho ou que minha mãe prefere a quina do bolo me permite agradá-las, claro, mas agradando a elas eu também agrado a mim mesmo.

Todo cozinheiro se deleita quando gostam da sua comida.

No entanto, isso é fácil. Cozinhar para aqueles cujo gosto você já conhece de cor, é como inventar um conto de fadas de supetão para uma criança: você já viu aquela história mil vezes (obrigado, Disney), só precisa mudar alguns nomes. O verdadeiro tesão está em criar. Porque qualquer um pode pegar Hamlet e recontar um milhão de vezes, ele não vai perder o impacto (obrigado, Disney), da mesma forma que qualquer um pode comprar um T-Bone de angus e colocar numa frigideira quente com manteiga e, ao menos que você faça algo absurdamente estúpido, ele vai ficar delicioso. Mas acredito que foi o grande Marco Pierre White quem disse que isso não é cozinhar, é apenas aquecer. Da mesma forma, contar Rei Leão pro seu sobrinho pequeno mudando os nomes dos personagens não é criar, é só requentar Shakespeare.

E é por isso que nos sentimos tão atraídos pelo novo livro do nosso autor favorito, por músicos de jazz ou por restaurantes que servem menu du jour, indo à feira todos os dias e montando algo novo antes do serviço do almoço — porque eles são criativos. Não, mais que isso: porque eles submetem a criatividade à sua vontade. Ligam um botão, viram uma chave, e é como se tivessem uma musa inspiradora domesticada em casa.

Por mais que o domínio da técnica seja em si algo de extremo valor, perseguido por artistas de todos os tipos por toda sua vida, intuímos que a criatividade vai além. Não importa que o souschef do Atala seja um cozinheiro muito melhor que ele (afinal a cozinha é um esporte de alta performance e, como tal, valoriza a repetição e a boa forma), ou que haja milhares de instrumentistas de técnica impecável em estúdios do mundo inteiro: eles não criaram algo sublime. Permaneceram na curva ascendente rumo à perfeição técnica, mas não foram capazes do salto quântico da genialidade.

Não me leve a mal, eu admiro e respeito cada um deles. Salieri não deixou de ser um gênio só por não ser Mozart, e a cozinha do D.O.M não seria nada se largássemos Alex Atala lá dentro e gritássemos “te vira!”.

Mas é só diante da arte criativa que ficamos pasmados, em transe, como os selvagens que já fomos ao redor de um fogo na noite da História, e talvez ainda o sejamos, admirando com alegria e medo esse mistério.

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