Vatapá ou bolo de pote? Os dois e mais um.

Ouvi dizer mais de uma vez que devemos escolher algo de que gostamos e mergulhar de cabeça, com tudo, sem olhar para trás. Se você quer ser bom em algo, deve abandonar aquilo que pode te distrair e te afastar daquela produtividade ninja, letal, o corte preciso, a precisão temperada de Bach, o bisturi cartesiano. Confesso que há uma beleza austera nesse pensamento. Dedicar-se de corpo e alma a um único objetivo e persegui-lo sempre e cada vez mais, sem jamais alcançar a perfeição, mas melhorando sempre. Como em um balé. Certamente não faltam exemplos inspiradores de pessoas que alcançaram grandes coisas assim.

O problema, camarada, é que, pra mim, não dá. Nunca deu. Consigo me identificar muito mais com um Da Vinci a quem tudo interessava, da arte à medicina, ou com um Steve Jobs largando a faculdade depois de cursar as disciplinas mais díspares, que com o incrível, lindo, maravilhoso Jiro-san, aperfeiçoando seu sushi a níveis nunca antes vistos.

Assim me pego gostando de escrever e de ler, mas também de cozinhar e beber, de ouvir, de tocar, fotografar, dirigir, jogar. Não entra na minha cabeça a ideia de que as escolhas da vida são excludentes entre si (de repente minha cabeça é que não entra nessa ideia): de que compromisso exclui autonomia, responsabilidade exclui diversão, planejamento exclui espontaneidade, academia exclui happy hour.

Nesse mesmo riscado, não aceito que ser chef de cozinha me empeça de escrever.

Se você acha que estou exagerando, que é óbvio que uma coisa não impede a outra, você provavelmente não conhece nem a rotina de um escritor sério, nem tampouco a de um chef de cozinha.

Entretanto, aqui estamos.

Não tenho certeza de como se darão as coisas por aqui, se mais para a cozinha ou mais para as palavras, só sei que não vai ter receita. Sério. Nem mesmo umazinha. Vamos conversar sobre a vida, arte, amor, poesia, ficção científica e o que mais der na telha, mas conversaremos no lugar mais gostoso da casa: a cozinha. Tudo do ponto de vista cansado e torto de um amante das artes literárias e gastronômicas. Então puxe uma cadeira, pegue uma xícara que o café já tá saindo.

Vamos juntos tentar entender porquê, afinal de contas, comida de vó é tão boa, mesmo quando não é. E se não entendermos, tudo bem, a gente amassa e faz vatapá ou bolo de pote, dependendo do tom.

O importante é mexer, pra não queimar.

Seja bem vindo.