Enzo

Enzo era um garoto apenas. Quinze anos recém feitos, morava com a mãe. Seu pai havia se mudado para São Paulo e se viam pouco. Sua mãe era funcionária pública, meio namoradeira e não lhe dava muita atenção. Enzo vivia uma vida virtual, sempre conectado e com poucos amigos reais.

A data era 23 de outubro de 2018. Enzo estava desesperado. Em cinco dias, ao que tudo indicava, um fascista misógino chegaria ao poder. Enquanto arrumava seu coque samurai, Enzo postava furiosamente os conteúdos da Lacraia Livre e da Carta Capetal, as páginas preferidas da sua turminha. Não é que ele gostasse particularmente daquilo, é que ele seguia na onda, buscando uma aceitação que não sentia em casa mas cuja falta o machucava de verdade.

E o clima era de medo. Tudo indicava que seriam perseguidos pela rua e no meio de janeiro provavelmente estaria preso sendo torturado nos porões de outra ditadura sinistra como a de 64, que lhe enchia de horror como se estivesse estado lá.

No dia 29 de outubro, Enzo só ligou o computador para confirmar o que os gritos de “Brasil” e “É o Mito, porraaaa!” já haviam lhe informado. Era verdade. O mundo havia terminado. Só faltava a lâmina da guilhotina descer sobre o seu pescoço indefeso. Passou o dia enrolado no edredon chorando.

Meses depois chegava a hora da posse. Enzo havia passado aquelas semanas em protestos virtuais e lendo as notícias terríveis das agressões que as pessoas sofriam nas ruas. E o pior era que ninguém era preso, nunca havia um culpado e nem testemunhas. Apenas o lamúrio solitário das vítimas dos camisas-marrons brasileiros, os coisominions. Enzo era ateu mas agradecia a Deus por nenhum de seus amigos ter sido atacado. Era um grupo de sorte.

Ele assistiu à posse com uma esperança sórdida de que um atentado fosse acontecer. Lembrava-se do presidente estadunidense baleado na cabeça. Qual era o nome mesmo? Não lembrava. Conhecia Trotsky, Lênin, Marx, Ghandi e Mandela. Por que haveria de se lembrar de um imperialista? Imaginou aquilo acontecendo e salivava de prazer vingativo. E tinha medo. Aqueles fascistas o haviam feito sofrer por meses e agora iriam finalmente ter poder para persegui-lo e torturá-lo. Mas nada aconteceu e o capitão foi empossado tranquilamente.

Passaram-se mais alguns meses e a van do DOPS não chegava. Enzo tinha voltado a ir para a escola. Só se falava em sabotar o governo fascista. Enzo observava enquanto a lider feminista da escola, a Geraldona, organizava ações de libertação social. Nunca tinha pichado tanta suástica na vida. Mas Geraldona queria sempre mais. Ela nunca fazia nada, só descansava o corpanzil na sala do coletivo “Cabeleira no Suvaco” e distribuía moldes de suástica a preço de custo.

Mais alguns meses se passaram e os esforços de Enzo e seus amigos não logravam êxito. O capitão seguia no poder e apesar dos partidos democráticos terem entrado com cento e trinta pedidos de impeachment em oito meses de governo a escória fascista se agarrava ao poder que nem piolho no suvaco peludo da Geralda. Mas Enzo notou que seu amigo Gabriel não aparecia mais de tarde no chat do Messenger. Ia falar com ele na escola.

No dia seguinte, enquanto bebericava seu suco do bem (ele tomava açaí com graviola desidratada adoçada com canela-da-índia orgânica) teve um papo sério com o Gabriel.

  • “Tá sumido, Gabriel. Os fascistas tão te perseguindo?” – perguntou Enzo, sorrindo amarelo.

Gabriel respondeu – “Porra, Enzo, vou te falar a real aqui baixinho. Parei com essa caceta de fascista. Meu pai aumentou minha mesada e falou que abaixaram os impostos. Vamos para a Hungria no fim do ano passar o Natal por lá. Não tem essa de fascista. Você não sai na rua, lek? As ruas estão cheias de gente! Cheio de gatinha circulando, e cadê assalto? Fala, porra, qual foi a última vez que soube de algum assalto?”

“É, agora que ele falou isso, não me lembro de nenhum relato de assalto”, pensou Enzo.

E disse – “Cê tá falando igual a fascista, é? Que negócio é esse de porra o tempo todo?”

Gabriel retrucou – “Ah, garoto, gostei. Se imponha mesmo! Mas olha: parei com essa meleca de socialismo, Enzo. Sem sacanagem. Que se lasquem essas meninas de cabelo azul. Foda-se a doida da Geralda! Conheci uma menina linda na igreja e peguei o telefone dela. Uma loucura!”

E prosseguiu – “Vou trabalhar na loja do meu pai. Ele disse que vai abrir filiais, Enzo. Eu vou ser gerente ano que vem. Vou ganhar dinheiro à vera. Chega de mesadinha de baitola. Vou ganhar minha grana e arrebentar.”

Dito isso, se despediram. Enzo estava em estado de choque. Não havia dúvida. Gabriel havia virado fascista. Ou o que estaria acontecendo? Tudo estava ficando muito confuso, parecia um livro do Althusser.

Alguns meses se passaram, as férias vieram e se foram. Enzo agora tinha dezesseis anos e via pouco o Gabriel, cada vez mais ativo e diferente. Estava com o cabelo curto, andava vestido que nem um banqueiro e estava namorando uma menina que parecia um sonho. Lourinha, olhos azuis e um jeito tímido e suave sensacional. Devaneando enquanto andava pelo corredor da escola rumo ao banheiro, virou no corredor principal e deu de cara com a Geraldona.

“Cacilda!”

“Que isso, Enzo? Tá doidão? Quer uns moldes de suástica? A luta não pode parar.”

Enzo balbuciou alguma desculpa e correu dali. Que susto! Quase tinha infartado.

Naquele dia, na saída da escola, viu o Gabriel destravando sua bike elétrica novinha, iphone XR na mão e a delicinha na garupa. Sentiu uma dor profunda, quase como se o Alien estivesse nascendo da sua barriga. Que sortudo esse Gabriel. De uma hora para a outra estava vivendo um vidão. E ele, agora via claramente, estava na maior merda.

Se arrastou para casa. Foi se olhar no espelho e viu um moleque que nunca tinha feito nada a não ser dever de casa e mesmo assim mal e porcamente. Se sentiu um inútil. Quando a mãe chegou, jantou rápido e foi dormir mas rolou na cama a noite toda, agoniado e sem saber porque.

Mais uns meses se passaram e Enzo estava enfiado numa enorme depressão. Seu grupo na escola, que nunca foi grande, estava mínimo. A maioria das meninas tinha tirado o azul do cabelo. O coletivo praticamente só tinha a Geraldona que andava num mau humor assustador. No pátio a conversa girava sempre em torno de economia. Era redução de regulação para cá, startup para lá, dólar caindo, turistas por todo lado.

E ele se sentia deslocado, sem saber o que fazer. Sua mãe vivia uma vida profissional enfadonha e distante e seu pai estava trabalhando tanto em São Paulo que eles mal se falavam. Enzo não via seu pai há meses. A angústia era tremenda.

No dia seguinte resolveu falar com o Gabriel, que era o único amigo de quem se lembrava. Depois da aula pediu para ele acompanhá-lo num suco. Gabriel sugeriu tomarem um café rápido antes dele ir para o trabalho. Estava gerenciando a loja de Ipanema e tinha muito o que fazer.

Enzo desabafou suas angústias com seu amigo. Falou da mãe distante, do pai ausente. Falou da frustração da sua vida, da sensação de que sua luta pela liberdade não fazia mais sentido pois todos pareciam muito livres e felizes, menos ele. Disse tudo isso já chorando, havia perdido o controle e estava com vergonha pois Gabriel iria sacaneá-lo com certeza. Ia ser ainda mais humilhante.

Terminou de falar, assoou o nariz e olhou para o Gabriel. Nada o poderia preparar para o que se seguiu. Imaginou que veria escárnio e ridículo mas estava muito enganado. Tão enganado quanto possível. Seu amigo deu um passo a frente e lhe deu um abraço apertado, de amigo do peito. Foi então que Enzo chorou de verdade. Achava que estava chorando antes mas não. Deixou todas as barreiras de lado, e dores que ele nem sabia que existiam afloraram em seu peito.

Sua tristeza pela falta de amor de sua mãe, o abandono do pai, a impotência de se erguer como todos ao seu redor pareciam fazer, menos ele. E nenhuma menina gostava dele, na verdade, ninguém gostava dele, estava sozinho, no escuro. Chorou muito.

Gabriel o consolava com alguns tapinhas nas costas de vez em quando. Enzo estava se acalmando afinal. Largou o abraço do amigo, se arrumou, secou as lágrimas e o nariz. Respirou fundo e viu que o mundo estava diferente. Olhou ao redor e não entendeu. Como tudo estava tão colorido! As folhas das árvores na rua tão verdes. E que Sol, que céu azul lindo. Sentia vontade de gargalhar.

Virou-se para o Gabriel e viu que o amigo o olhava, rindo. E riu também. Riram juntos, gargalharam, parecendo dois malucos. Enzo se sentia como se tivesse nascido de novo.

Gabriel falou – “Enzo, você ainda fala Inglês bem como antigamente?”

Ele disse – “Sim, é uma coisa meio natural para mim.”

E Gabriel mandou-lhe a sapatada no peito:: – “O negócio do papai está crescendo muito. Vamos abrir mais três lojas ano que vem. Vou virar diretor administrativo. Preciso de um gerente de compras que possa conversar com nossos fornecedores americanos e europeus. Todo mundo fala inglês. Quer vir trabalhar conosco?”

Alguns meses se passaram. Não houve férias para Enzo nem Gabriel. Trabalharam como loucos. Enzo acabou frequentando a Igreja de Gabriel, na Paróquia Santa Mônica. Sentiu-se acolhido e apoiado. Percebeu que tinha ficado toda a vida sem um suporte que nem sabia que precisava, nem que existia.

No último ano da escola a vida tinha mudado. Cabelo cortado, Enzo agora malhava, estudava com afinco e trabalhava a tarde inteira. Ganhava um dinheirão e nem conseguia gastar.

Conheceu a Joana e começaram a namorar em seguida.

Na escola, o coletivo foi desativado. Soube que a Geralda tinha se transferido para um Colégio em Santa Teresa onde ainda tinham meninas de cabelo azul.

Não se passava uma semana sem que Enzo se ajoelhasse e agradecesse a Deus. A vida era boa. E estava apenas começando.