Novo Hamburgo celebra conquista gaúcha na festa oficial (foto — Facebook Novo Hamburgo)

Novo Hamburgo, nova história: como o anilado quebrou a hegemonia da dupla Gre-Nal

Com planejamento, seriedade e aplicação tática, NH liderou de ponta a ponta o Gauchão, derrubou a dupla Gre-Nal e devolveu a taça ao interior depois de 17 anos.

Eduardo Caspary

Vinte e cinco minutos do primeiro tempo. Victor Cuesta, 1,90m, domina com tranquilidade uma bola na intermediária de defesa e não percebe a chegada do franzino Juninho em seu encalço. O meia do Novo Hamburgo rouba-lhe a bola, retoma o controle do jogo e mantém a posse ainda que o placar de 1x0, àquela altura, já fosse mais que suficiente. O lance, aparentemente comum, retrata de forma fiel a final do Campeonato Gaúcho de 2017, porque mostra que o pequeno tem, sim, condições de derrubar o gigante.

Minutos antes, Ernando, de forma incrível, se atrapalhou em um cruzamento simples e testou contra a meta do baleado Danilo Fernandes. Com o 1x0 em vantagem no duelo do estádio Centenário, em Caxias do Sul, o Novo Hamburgo se aproximava da inédita taça respaldado pelo que fizera uma semana antes, no Beira-Rio, quando deu de ombros para mais de 43 mil animados colorados e buscou um importante empate em 2x2.

Torcida colorada encheu o Beira-Rio durante o primeiro jogo (foto — Eduardo Caspary)

E se teve um time que sentiu o peso de disputar uma final de campeonato dentro do Beira-Rio, este não vestia azul. Fiel ao seu estilo, o NH manteve sua estratégia de marcação forte a partir da intermediária defensiva, com rápidas saídas nos contra-ataques e a eficiência na bola aérea — foi assim, aliás, que marcou duas vezes em Porto Alegre. Sereno, tranquilo e determinado, o anilado só reforçou na partida de ida da final aquilo que vinha mostrando ao longo do certame: se era pequeno, que isso ficasse apenas no rótulo, porque em campo as apresentações eram de time grande.

Cutucado pela apresentação serena e eficaz do Novo Hamburgo no Beira-Rio, como se estivesse jogando um amistoso de pré-temporada, não uma final inédita para mais de 40 mil pessoas, o autor desta reportagem indagou João Paulo, atacante do NH e autor do primeiro gol do empate em 2x2, sobre a capacidade de concentração da equipe — levando em conta que, na semifinal, quem havia ficado pelo caminho era o também gigante Grêmio.

“A gente sabe que o futebol é o dia a dia. Teremos uma semana igual a gente vem tendo sempre. De trabalho, de suor, de determinação dentro dos treinamentos. Temos uma equipe qualificada, madura, e esse tipo de pressão a gente não bota além do que já temos. Vamos jogar contra uma grande equipe, em uma final, e vamos tentar fazer uma grande partida igual fizemos aqui no Beira-Rio”, disse João Paulo, como você pode ouvir a seguir:

A ilha de serenidade do Novo Hamburgo sofreu turbulências, no jogo de ida, a partir da entrada do colorado Roberson, no segundo tempo. Assim como já ocorrera no Gre-Nal, o atacante entrou no decorrer da partida para modificar seu rumo. Em uma jogada que começou por ele mesmo, recebeu passe milimétrico de Edenílson e ainda contou com a “ajuda” do goleiro Matheus antes da bola entrar.

Pilar da reação colorada e autor do primeiro gol do Inter no 2x2, Roberson conhece bem o interior gaúcho. Se foi formado nas categorias de base do Grêmio, no Juventude é que brilhou a ponto de despertar o interesse da equipe do Beira-Rio. Por já ter vivido o outro lado da moeda, e ter tido que enfrentar a força da dupla Gre-Nal estando no rol dos “pequenos”, Roberson valorizou o trabalho do Novo Hamburgo e não se disse “surpreso” com a campanha anilada.

Se de um lado o Inter tinha a tradição, a camisa e jogadores badalados, do outro o Novo Hamburgo respondia com união, garra e seriedade — isso sem contar a monstruosa diferença de folhas salariais, já que o time do interior gasta por mês cerca de R$ 150 mil, valor que não bancaria nenhum jogador titular colorado.

Com esse choque de estilos, e a dualidade de essências, o último capítulo do Davi x Golias versão futebol gaúcho chegava em aberto. Como o regulamento não mais estipulava o gol qualificado na final, Novo Hamburgo e Inter pisavam no Estádio Centenário, em Caxias do Sul, igualados. Quem vencesse, levava. Um novo empate, forçaria a decisão por pênaltis — exatamente o que aconteceu.

Isso porque depois que Ernando cometeu a trapalhada, que inclusive pode ter custado sua trajetória no Inter, os colorados reagiram e empataram a finalíssima com Rodrigo Dourado, logo no início da etapa complementar. Naquele que foi o único instante das finais, e de todo o campeonato, que o NH “sentiu”, o time treinado por Antônio Carlos Zago não conseguiu chegar ao segundo gol e empilhou chances perdidas, com destaque às de dentro da área erradas por D’Alessandro e Carlos.

Nos pênaltis, pesou o sangue frio do Novo Hamburgo e o estranho desperdício dos melhores cobradores colorados — D’Alessandro, Cuesta e Nico López, de aproveitamentos irretocáveis nas decisões nestas mesmas condições contra Corinthians, na Copa do Brasil, e Caxias, na semifinal gaúcha. Com a conquista, o NH quebrou uma hegemonia de 17 anos de dupla Gre-Nal no Rio Grande do Sul e venceu pela primeira vez o Gauchão, entrando, de fato e de direito, na história.

Receitas irrisórias, estádios vazios, gramados esburacados e pouco, para não dizer nenhum, poderio de compra no mercado. Com uma realidade absolutamente oposta à dupla Gre-Nal, o Novo Hamburgo se preparou como foi possível para disputar o Campeonato Gaúcho de 2017. Com um orçamento mensal estimado em R$ 150 mil por mês, o clube teve de usar da fama de “bom pagador” para angariar reforços.

Foi o que revelou o grande mentor da montagem do grupo campeão gaúcho de 2017. Everton Cury, vice-presidente de futebol do Novo Hamburgo, conversou com este autor e detalhou as dificuldades em se gerir um clube do interior do Rio Grande do Sul.

“Para montar um elenco com essas dificuldades que temos, só pesquisando muito, consultando contatos e indo atrás. No entanto, o mais importante é ter claramente definidas as características que tu desejas que os jogadores do teu time tenham. Importante, também, é ter muitos contatos confiáveis em todo o país”, revelou, para, depois, acrescentar a importância da “seriedade”:

“Uma vantagem que temos é a imagem de seriedade que conquistamos. Isto conta muito para o jogador. Muitos até vem por menos em função da garantia de que vão receber em dia”, acrescentou Cury, que, acreditem ou não, garantiu ser colorado.

Só que os problemas do Novo Hamburgo até galgar o lugar mais alto do pódio não se resumiam às próprias estruturas reduzidas, seja por investimento ou por condições de trabalho. No que diz respeito à prestígio e, por que não, reconhecimento, o anilado teve dificuldades em lidar com o Inter na final.

Por telefone, por volta das 14h da terça-feira seguinte ao título, o zagueiro Júlio Santos, com o que sobrou da voz depois de tanta comemoração, conversou com o autor e revelou uma passagem no mínimo curiosa na véspera da finalíssima em Caxias do Sul.

“Na final, o mando de campo era nosso, porque fizemos a melhor campanha. Tiraram o jogo de Novo Hamburgo por conta dos problemas com as autoridades, mas, o mando seguia nosso mesmo em Caxias do Sul. Mas sábado em Caxias, um dia antes da decisão, o Inter resolveu ir treinar de manhã, primeiro que a gente, e para nós sobrou a tarde. Sendo que a preferência deveria ser nossa para escolher. Éramos nós os donos da casa naquele momento. Esse é um exemplo de situação que acontece com um clube de menor expressão”, lamentou Júlio.

Clicando AQUI, você acompanha a entrevista exclusiva feita com Júlio Santos para o site Torcedores.com.

Com passagens por grandes clubes do futebol brasileiro do porte de São Paulo e Vasco da Gama, Júlio Santos foi uma das referências ao lado de Preto, este capitão, na caminhada rumo ao título. Outros nomes como o goleiro Matheus, o zagueiro Pablo, o meia Juninho e o artilheiro do time João Paulo também merecem a citação ao lado do brilhante treinador Beto Campos, o grande maestro da orquestra que deixou surda a dupla Gre-Nal.

No somatório de todas as fases, o time da região metropolitana fez seis jogos diante da dupla. Não perdeu nenhum. Mostrou a seriedade citada por Cury. A tranquilidade dita por João Paulo. A união nos momentos difíceis indicada por Júlio Santos. Mostrou, por fim, uma face nova do futebol gaúcho, capaz de tirar, do interior, pequenos-gigantes em desfavor dos enormes da capital. Veio de Novo Hamburgo, uma nova -e linda- história.