A esquerda perde com a liderança de Lula

Muitos setores ligados à esquerda tem comemorado a liderança do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva nas intenções de voto para 2018. É bem verdade que as maiores comemorações provém de setores ligados ao PT, mas há também os “apartidários” do campo ideológico que consideram positiva a boa aceitação do “Sapo Barbudo”, como denominou Brizola, perante a população.

Em meio ao cenário desenhado na eleição municipal, é até natural se agarrar a mínima esperança de vencer a onda conservadora que tomou conta do país durante o último pleito. Entretanto, a esquerda é justamente quem mais tem a perder com a liderança de Lula, e o próprio já reconheceu isso em tempos mais remotos. Se por um lado ele desponta como única figura capaz de angariar apoio entre diversos segmentos ideológicos e uni-los com os anseios da população, também é verdade que nos últimos 15 anos nenhuma liderança ou partido conseguiu ocupar o vácuo criado pelo ex-sindicalista na política brasileira.

Nessa década e meia os partidos de esquerda, incluindo até mesmo o PT mesmo com suas incontáveis incoerências, foi incapaz de sedimentar uma liderança com capacidade de tirar os discursos de pequenos círculos e ir muito além dos memes de internet. Enquanto isso, nessa guerra virtual nomes com discursos rasos, ultraconservadores e carregados de preconceito foram ganhando espaço e conseguiram conquistar apoio junto a população.

O fenômeno não é uma exclusividade brasileira, vide a eleição de Donald Trump nos EUA e a liderança de Marine Le Pen nas intenções de voto dos franceses. A dificuldade da esquerda para dialogar com aqueles que defende é uma constante mundial. Porém no Brasil é diferente. Tínhamos Lula, um homem capaz de aglutinar massas em torno de seus projetos por saber traduzir eles de forma clara e direta a todos setores sociais.

O petista lapidou como ninguém uma retórica capaz de convencer desde o presidente do Itaú até o office boy. Essa capacidade pareceu deixar tranquilo até mesmo quem reconhecia todas as limitações do lulismo no comandando do país e, de certa forma, permitiu às demais lideranças de esquerda manterem-se alheias a necessidade de sair de seus casulos protegidos e descer de verdade às periferias e descampados do país.

“Não precisamos ganhar a eleição, temos de marcar nossa posição”, parece ter sido o pensamento predominante na esquerda com um projeto mais radical do que o lulopetista. E assim as eleições foram se acumulando e a direita ganhando espaços cada vez mais maiores dentro de legislativos, até o dia de serem eleitos com ampla maioria nas prefeituras do país. Enquanto isso, a esquerda se contentava com migalhas. “Mas não há temor, na hora H temos Lula para impedir um avanço mais profundo da direita”, pareciam dizer, mesmo que fosse no mais íntimo do seu ser e sem admitir nem mesmo para o espelho os líderes do espectro político, enquanto assistiam os espaços irem minguando.

Ledo engano, primeiro de tudo porque o crescimento dos conservadores só foi possível graças a conivência dos governos petistas. Durante todos os mandatos do partido a frente do Palácio do Planalto, grupos pouco afeitos a ideologia de esquerda foram ganhando cada vez mais espaço. Para ficarmos apenas em um exemplo: o atual prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, reconhecido por suas posturas conservadoras e pelo apoio de igrejas evangélicas, ganhou espaço em 2012 quando recebeu de presente o inócuo Ministério da Pesca. Na época, o fanfarrão admitiu não saber nada sobre o tema e declarou que iria “pescar homens”, uma linguagem muito mais apropriada a um pastor ou padre do que de ministro de estado. Concomitante ao crescimento dos conservadores dentro dos governos Lula e Dilma, os petistas mais agarrados às bandeiras de fundação do partido perdiam cada vez mais espaço.

Agora Lula se coloca mais uma vez como o aglutinador e inicia a campanha eleitoral para voltar à cadeira presidencial. O discurso iniciado de forma radical, que denunciava o golpe e atacava adversários políticos, começa a dar espaço ao Lulinha Paz e Amor. Sinais de perdão a Michel Temer, o articulador do golpe, começam a ser dados. E mais uma vez a esquerda se perde em debates pouco frutíferos sobre conjuntura sem querer sujar os pés no barro da tal conjuntura. Ao invés de apresentar uma alternativa para vencer as eleições, ganhar vagas no Congresso e frear de verdade o avanço da direita, os representantes da esquerda preferem se digladiar, em público ou em esferas privadas, para saber quem é mais ou menos esquerdista.

Enquanto isso, Lula dá claros sinais da intenção em fazer mais um governo carregado de concessões, sem qualquer intenção de romper de forma abrupta e verdadeira com os especuladores financeiros e os campeões de sempre do nosso país. A liderança de Lula nas intenções voto mostra a falência da esquerda de se reinventar e a perspectiva de, mais uma vez, entregarmos os anéis para ficar com os dedos carcomidos.

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