Àqueles que nos amam

Amar dói. Amar alguém com transtorno bipolar parece estar um passinho à frente na escala de dor. E não falo só de namoro/casamento: falo de pais, irmãos, amigos… As coisas ganham camadas extras de complicação quando se conhece a pessoa antes do diagnóstico, ou antes de a doença se manifestar: é bem difícil pra todo mundo aprender a lidar com a nova realidade da pessoa próxima.

É possível quase fazer um quadro de antes e depois. Todo mundo acaba esperando ver, de uma forma ou de outra, ver o seu “antigo eu” aparecendo, e eu sinceramente nem sei se meu “antigo eu” poderia voltar além de uma visita breve de algumas horas. Sei que muitos que se importam conosco acabam perdendo o sono, preocupados, se perguntando muitas vezes se conseguiremos sobreviver às piores fases. Sei que muitos entram em desespero a cada recaída, e eu ainda me lembro do pavor da minha mãe quando presenciou um surto — sim, um surto de verdade, não aquela mania que todo mundo tem de chamar todo mundo de surtado — particularmente ruim.

Também sei que é fácil ter vergonha da gente. Ter vergonha de termos afundado, e de, de repente, termos perdido toda a vida que tínhamos. Já vi gente falando que eu tinha “problemas de depressão” mesmo após meu diagnóstico pelo simples medo do peso da palavra “bipolar”, e medo de pensarem que estou “louca”. Por outro lado, outras pessoas preferem a discrição e, ao falarem de mim, preferem apenas dizer que eu “não estou bem”. Eu sei que isso é, em partes, uma forma de “me preservar”, já tive o bastante de gracinha de gente que soube de minha situação, e tenho certeza que muitas pessoas como eu sabem exatamente o que é isso. A gente sabe o que é alguém chamar a gente de louca ou falar que temos “problemas mentais” só pra nos machucar (mas dar dinheiro pros remédios ninguém quer). Já passamos por isso, provavelmente bem mais de uma vez. E sabermos que isso aconteceu conosco machuca vocês tbm.

A gente sabe da preocupação de vocês. A gente vê. E, mesmo assim, inexplicavelmente, às vezes a gente se sente sozinho. Às vezes a gente acredita — e acredita de verdade — que ninguém se importa, mesmo conscientemente termos visto vocês mostrarem que se importam. E às vezes a gente simplesmente é babaca sem nenhum motivo lógico. Perdi a conta de quantas vezes coisas bizarras só aconteciam na minha cabeça, e mesmo assim já estava certa o bastante sobre isso pra ficar furiosa — e descontar em alguém que, na maior parte das vezes, era inocente. Não eram hipóteses: eram fatos, ainda que só fizessem sentido na minha cabeça.

Uma vez, pouco depois de receber meu diagnóstico, chamei meu namorado para uma conversa, expliquei o que sabia sobre o transtorno. Em seguida, fiz a seguinte proposta: “Agora que você sabe, você ainda quer passar por isso? Você pode ir embora agora se quiser.” O que mais eu poderia fazer? Estava perdida, chocada com o que teria que passar e chocada com o que muita gente passou. E isso tornou tudo mais fácil? Óbvio que não. Eu não consegui tornar nada mais fácil, nem pra ele, nem pra minha família, nem pra ninguém. Eu não consigo facilitar a convivência. Eu ainda falo coisas — às vezes séries de coisas — que são dolorosas, que machucam bem no lugar certo, motivada por coisas que só conseguem fazer sentido na minha cabeça e naquela hora. Coisas que depois, em momentos de clareza, não fazem sentido nem pra mim, e outras coisas que, quando a lucidez chega, só resta o pavor de saber que fomos capazes de ter criado aquilo tudo, e passado tanto tempo coletando “evidências” que nunca existiram, e no fim só sobra a falta de confiança em qualquer coisa que a gente possa pensar. Nunca agredi a ninguém fisicamente, mas sei que, não raras as vezes, minhas palavras feriam mais do que um tapa. Qualquer pesquisa rápida na internet a respeito mostra o quanto esse transtorno destrói casamentos, famílias… Enfim, relações.

Isso dá muito medo.

Por isso, àqueles que me amam, eu peço perdão. Perdão pelas vezes em que fiquei com raiva. Perdão pelas vezes em que os acusei de algo sem sentido. Perdão pelas vezes em que agi com raiva, com medo, e enfiei os pés pelas mãos. Perdão por tê-los deixado falando sozinhos quando vocês só queriam me animar. Perdão pelas vezes em que não quis sair com vocês, ou, se me forcei a isso, por ter sido uma péssima companhia e também pelas vezes em que não pude sair com vocês à noite por causa dos meus remédios, e que eu sei que vocês acharam ser desculpa. Perdão por, no lado oposto, ter ficado no seu pé implorando migalhas de atenção e te sugando mais do que deveria. Perdão pelas vezes em que os envergonhei. Perdão por ter bagunçado tanto as coisas. Perdão por ter ficado desse jeito.

E muito obrigada por não terem desistido de mim ainda.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.