Recebendo o Diagnóstico

Tenho certeza de que a recepção do diagnóstico não foi igual para qualquer um. E não estou falando apenas do processo, mas decomo essa notícia chegou até nós. Eu me lembro de como eu fiquei quando soube meu diagnóstico e me lembro de que não sabia o que fazer com isso. Lembro também de que não conseguia parar de me perguntar: “Como eu não notei antes?”

Cá entre nós, minha instabilidade já era óbvia até pra mim, e quando recebi um laudo da minha psicóloga que logo no começo tinha um “…a paciente se mostra muito instável”, eu realmente não botei muita atenção nisso. Eu pessoalmente achava que isso apenas era eu conseguindo lutar com o quadro depressivo: ahava que meu dias melhores eram meus momentos de vitória, e quando ele voltava era porque ele estava vencendo. Todas as minhas “maratonas” pareciam ser algo que fosse natural meu, a velha Carine de volta por um tempo — afinal, eu sempre fui uma pessoa agitada, “ou oito, ou oitenta”, intensa e meio exagerada, right?

Eu me lembro também de ter lido algo sobre “sintomas dissociativos”, que não me chamou nem um pouco a atenção, porque eu nem fazia ideia do que era. Até meu irmão apontar que isso era algo ruim. Me lembro de ter pesquisado a respeito, e ter visto coisas que me preocuparam, mas… havia perda de memória no meio. Eu tive episódios de perda de memória. Pra mim foi case closed e não me preocupei mais com isso.

Deve ser por isso que fiquei tão chocada quando descobri o que realmente tava rolando.

Na real, eu nem deveria ter ficado sabendo do meu diagnóstico, foi algo que aconteceu por acaso: já estava quase impossível sobreviver e fui então encaminhada a um psiquiatra, que me ouviu, fez milhões de perguntas, passou uma série de exames e me receitou minha medicação.

Foi então o que eu fiz o que quase ninguém faz — e eu mesma não deveria fazer: eu li minha bula.

Quando eu entendi o que a aplicação conjunta daqueles remédios significava, foi como se eu tivesse levado um tapa na cara. Na minha cabeça, não fazia sentido nenhum — eu já havia pesquisado uma ou duas coisas sobre o transtorno por causa de uma amiga minha, e eu não tinha episódios maníacos. Eu tinha certeza de que nunca tive nenhum. Eu até considerei a possibilidade, mas decidi não considerar nada até confrontar minha psicóloga — e mesmo assim fiquei com isso martelando na cabeça.

Quando tive a confirmação dela — que pessoalmente não gostava de trabalhar direto com o diagnóstico por questões do método e talz — eu senti meu mundo desabar. Acho que foi quando perdi de vez o chão, e não tinha mais aonde segurar. Eu fiquei apavorada, eu fiquei morrendo de medo mesmo. E parecia que ninguém com quem eu falasse a respeito conseguia entender isso. Mas, apesar de tudo isso, senti um alívio enorme.

Era engraçado como, no meio de tanto medo e até de autopiedade eu tivesse conseguido achar um espaço pra sentir alívio — dar um nome pro que estava acontecendo comigo, bem ou mal, tornava as coisas menos aliens. O que eu sentia, o que estava acontecendo comigo, era algo que acontecia com outras pessoas, tinha um tratamento definido e — olha só — tinha até mesmo um nome. Eu me sentia menos estranha. Mas estava começando a me sentir meio louca. E o medo continuava lá.

Meu primeiro medo foi com a parte do não tem cura. Tudo o que eu conseguia me perguntar era: “Eu vou ficar assim pra sempre?”. Porra, já tava ruim o bastante sendo algo provisório! Então eu teria que ficar tendo crises depressivas direto?

Então notei algo que me preocupava ainda mais: a parte da psicose. Na verdade, acho que o medo da psicose ficou palpável mesmo quando eu a reconheci pela primeira vez. Foi como se toda a minha noção de realidade tivesse se estilhaçado, e por um bom tempo eu me recusava a chegar a qualquer conclusão sobrre qualquer coisa, duvidava o tempo todo da minha percepção de realidade e estava disposta a acreditar em qualquer coisa que alguém me dissesse, mesmo que muitas vezes eu não quisesse acreditar, pq eu enfiei na minha cabeça que não havia nada mais mentiroso que minha mente. Eu me taxei de louca, e repeti isso pra mim mesma e pra pessoas importantes pra mim mais de uma vez. Depois de um tempo, essa paranóia passou, e acabei fazendo de novo. Mais de uma vez. Mas eu preferia correr esse risco a nunca mais acreditar em mim mesma de novo.

Minha aceitação começou a tomar força quando eu falava com uma amiga minha — estudante de psicologia — sobre o assunto na escola de música. Eu estava preocupada com a questão de tomar remédios pra sempre, afinal, pra sempre é muito tempo! Ela conversou comigo, com toda a calma do mundo, disse que isso não me definia e que muitas outras pessoas precisavam de medicação constante, como diabédicos ou hipertensos. Alguns minutos após nossa conversa, eu a vi pegar um aplicador e injetar insulina no braço. Tapa na cara número dois.

A questão é: depois de altos e baixos, finalmente consegui encontrar a aceitação. Eu decidi que não iria negar e nem esconder mais o que estava acontecendo comigo. Não adianta tampar os ouvidos, fechar os olhos e gritar que não é real. Ignorar essa condição não vai fazer ela sumir — isso só piora a situação, na verdade.

Então, hoje em dia, eu aceito: Aceito que o transtorno não tem cura. Aceito que é um tratamento constante. Aceito que, mesmo com tratamento, ainda terei algumas crises. Aceito que, agora, reciso aprender a me conhecer e a reconhecer os padrões da crise, pra poder ter uma ideia do que está acontecendo comigo. Mas eu tenho certeza de que, se eu me tratar direito, me manter ativa sempre e estiver cercada por pessoas que me amam e se importam, eu posso sim viver uma vida normal e — porque não? — ser feliz.

Meu nome é Carine e, como vocês, vou me sair bem dessa.

Fun fact: enquanto eu fazia essa postagem, meu irmão me champou justamente pra ver uma matéria sobre uma mulher com transtorno bipolar que hoje em dia consegue viver bem de boas. Viu? É possível :3

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