O que é assexualidade?

Matéria por Thaís Malaquias

Vivemos em uma sociedade em que, uma hora ou outra, devemos corresponder a uma expectativa sexual e afetiva em termos de relacionamentos amorosos. Por um lado, temos a expectativa que esses relacionamentos sejam heterossexuais, por outro, há a expectativa que todos os relacionamentos amorosos envolvam sexo e “amor” necessariamente.

Por causa disso, uma relação que não envolva os dois (principalmente o sexo) não é considerada legítima. Essa deslegitimação acontece devido à superestimação e supervalorização de tudo que gira em torno do sexo. Ser sexual é o normal, ser sexual é o correto. E é nas discussões e no meio da comunidade assexual que essas percepções são desmistificadas e discutidas a partir da vivencia de ser um assexual.

Os ases do baralho são amplamente usados para mostrar a diversidade dentro da comunidade assexual

Definindo assexualidade

Assexualidade não é fácil de definir, pois dentro do espectro assexual existem diversas definições e cada assexual experimenta sua assexualidade de forma diferente. Uma definição que costumo usar é que uma pessoa assexual é aquela que não tem interesse, ou o mesmo tipo de interesse, por sexo e comportamentos sexuais que uma pessoa sexual.

Isso não significa que pessoas assexuais são celibatárias ou condenam as manifestações sexuais alheias, sobretudo quando falamos de sexualidades não-hetero, mas sim que temos outras formas de nos relacionar com o mundo e as pessoas que não giram em torno desse polo sexual e queremos ser respeitados por nossa (a)sexualidade.

Então, em termos de sexualidade, de forma simples temos as sexualidades sexuais: heterossexual, bissexual, homossexual, pansexual, etc.; e temos a assexualidade e suas orientações românticas que serão explicadas melhor ao longo do texto.

Reprodução / Fórum Assexual

Assexualidade x Romanticidade

Dentro da discussão assexual, temos a diferenciação entre orientação romântica (afetividade) e da sexualidade. Como assim?
Como já foi dito, o mundo entende que toda relação envolve sexo e afetividade romântica necessariamente, e que nos relacionamentos, esses dois pontos devem estar juntos para existir uma relação legítima entre as pessoas.
Além disso, é inconcebível para a sociedade que possa existir pessoas que tenham interesse apenas em um desses aspectos — ou só sexo ou só romanticidade — mesmo que seja mais aceito sexo sem amor, espera-se que essa pessoa algum dia “tome jeito” e entre numa relação amorosa estável. Porém, na comunidade sexual, essa forma de se relacionar não nos contempla.

Formas e tipos de atração que uma pessoa assexual pode experimentar:
A romaticidade não é a única forma de atração que pessoas assexuais podem experimentar e despertar o interesse por outra pessoa. Alguma delas são: atração estética — baseada na apreciação de características físicas — e sensual: baseada no desejo de tocar alguém sem necessariamente haver uma interação sexual.

Dúvidas frequentes sobre assexuais e assexualidade

• Assexual é outra palavra para celibatário? Assexualidade é celibato?

Pessoas celibatárias — independente de sexualidade — são pessoas que por vontade própria escolhem não ter relações sexuais. Pessoas assexuais são assexuais porque essa é sua sexualidade. Não é uma escolha. Além disso, existem assexuais que podem escolher fazer sexo por diversas razões e isso não anula a assexualidade dessas pessoas.

• Assexualidade é causada por algum trauma ou doença mental/ transtornos mentais e psíquicos?

Traumas acontecem com qualquer pessoa fora da comunidade assexual e aparecimento de desordens mentais, transtornos psíquicos ou qualquer condição neuroatípica* aparece em qualquer pessoa, independentemente de sua sexualidade. Não somos assexuais por trauma e nem toda pessoa assexual é neuroátipica. Não existe uma conexão entre assexualidade e esses dois fatores, bem como nenhum estudo que conecte neuroatipicidades com sexualidades.

(* termo usado para se referir a pessoas com doenças, desordens e transtornos mentais, pessoas que não tem funcionamento cerebral igual a de pessoas neurotipicas por conta de doenças cognitivas de nascença ou outras doenças como depressão, bordeline, transtorno de ansiedade generalizada, etc.)

• Pessoas assexuais são contra outras pessoas fazerem sexo?

Não. Pessoas assexuais apenas não se interessam por sexo e têm uma relação diferente com o universo sexual, seja ela de repulsa pelo sexo em si ou indiferença. Isso não significa que somos anti-sexualidade e queremos impedir as pessoas a fazerem sexo. Posturas negativas e moralistas sobre sexo não é uma postura especifica da comunidade assexual, assim essas posturas negativas não se relacionam diretamente com a assexualidade em si.

• Assexuais não têm relacionamentos?

Assim como qualquer pessoa sexual, alguns assexuais têm vontade de se relacionar amorosamente com outras, mas sem a presença da dimensão sexual. Ou então se sentem completos com outros relacionamentos que não sejam românticos, como relações de amizade, familiares, etc. A única diferença é que nos relacionamos com o mundo de forma diferente das pessoas sexuais e românticas.

• Como você pode ser assexual se você nunca fez sexo? Mas você fez sexo, como você pode ser assexual?

Nossas experiências sexuais ou a ausência delas não determina e alteram nossa assexualidade. Assim como nenhuma pessoa heterossexual, homossexual precisa ter experiências diferentes para ter certeza de sua sexualidade, nós também não. E um assexual que faz sexo em algum momento da vida não é menos assexual por isso, já que existem vários tipos de assexualidade.

A importância da visibilidade assexual, da consciência assexual e o ser assexual no contexto brasileiro

Inserir nos debates de sexualidade a questão da assexualidade é fundamental para quebrar tabus e nos tirar da invisibilidade, além de desconstruir a percepção clínica patologizadora sobre nossa sexualidade — nas áreas de saúde, assexualidade é uma patologia (Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo). Fora isso, quanto mais pessoas tiverem conhecimento sobre a comunidade assexual, mais pessoas se sentirão à vontade para se assumirem seja para familiares e amigos como para seus parceiros de relação, já que muitos assexuais por medo, vergonha e incompreensão, se forçam a corresponder de forma sexual nas relações mesmo se sentido “quebrados”.
Outro benefício de se discutir abertamente assexualidade é permitir que pessoas que sempre se sentiram estranhos e confusos sobre a própria sexualidade tenham outra referência que não gire em torno das sexualidades sexuais. Há muitos relatos de assexuais que se descobriram ace que, antes de conhecerem a comunidade, tinham dúvidas se eram bissexuais, homossexuais, e, numa tentativa de firmar uma sexualidade logo e não ser estigmatizado por ser “estranho”.
Em termos de compreensão da diversidade sexual, a comunidade assexual oferece um novo olhar sobre o que entendemos como relações afetivas amorosas saudáveis, resignifica e discute o papel do sexo e da afetividade romântica nessas relações como base fundamental para um relacionamento dar certo e coloca em cheque a necessidade de envolvimento amoroso e sexual para se relacionar com o mundo e o outro e alcançar uma vida social de sucesso.

Recadinho de ace pra ace
Se você leu isso e se identificou de alguma forma: bem vinde, temos bolo! Lembre-se que você não deve e nem precisa a corresponder a nenhuma expectativa sexual se ela não faz sentido pra você. Sua assexualidade é válida, você não está só e você não é “estranho” e nem “quebrado”.
Se você leu isso e é assexual: estamos juntos, você não está só. Você não precisa se identificar com todas as definições do espectro assexual para validar sua assexualidade. Você é assexual independente de qualquer coisa. Não procure se encaixar numa definição fixa existente. Cada um de nós experimenta a própria assexualidade de formas diferentes e todas elas são válidas.

Beijos e muitos bolos pra nós!