Tudo que eu queria hoje era você me ligando pra dizer “desce em cinco minutos”. Simples assim, sem perguntar se eu posso, se consigo ficar pronta, sem me deixar perguntar pra onde a gente vai.
Eu sei pra onde a gente vai sempre. Eu pelo menos vou pro céu que você me leva. Em silêncio, olhando nos olhos, sem papo-furado mas com uma intimidade que me faz tremer o corpo e as estruturas. E que faz uma falta maior do que eu gosto de admitir. Especialmente quando você some por muito tempo.
Queria a gente ouvindo o barulho da chuva, estirados na cama depois de uma noite regada a orgasmos, blues e vinho tinto. Queria passar horas distraída na sua tatuagem das costas, tão cheia de detalhes que dá vontade de lamber pra ver se eu descubro um pouco mais de você por osmose.
Você brincando distraído com meu piercing como se fosse seu brinquedo, tendo certeza de que é. Porque é mesmo.
Sinto falta até desse frio na barriga que eu tenho constantemente por nunca saber se você vai me ligar de novo, não importa quantas vezes você já tenha ligado antes.
Você é tão seu que fica impossível saber. O problema é que eu também sou tão sua que beira a covardia.
Eu sei, eu sei, a gente não daria certo como um casal de verdade. A gente é parecido no que não importa, e diferente demais em todo o resto. Mas quem disse que eu consigo evitar esse desejo de “vem pra minha casa hoje”?
Meu corpo acostumou com o teu cheiro, teu tamanho, teu peso jogado em cima de mim depois do gozo. Eu até tento me divertir com outros tamanhos e outros documentos, mas quando o corpo cisma é foda, você sabe.
Será que se eu mandar um nude você entende o recado? Que bobeira! Você deve ter um nude ao vivo bem na sua frente nesse exato momento, lambendo todas as partes do seu corpo onde eu queria improvisar. Me resta o vibrador e o finalzinho do vinho que ficou na geladeira desde sábado. Tiro a roupa e fico na penumbra do quarto olhando a rua. Nunca tinha visto tesao se misturar com melancolia desse jeito até você aparecer.
Toca o interfone, meu coração pula até a garganta. O porteiro avisa que é entrega de pizza. Eu murcho como uma flor de papel de seda embaixo de chuva. Nem lembro de avisar que não tinha pedido pizza nenhuma. Já basta ficar sozinha, gorda também eu não preciso.
Abro a porta e tá você com a pizza na mão, sério, dizendo:
⁃ Deu R$47,30, a senhora quer troco pra R$50?
Te puxo pra dentro e o resto é história.
Desligo o vibrador e volto à realidade. Você me serve até quando eu tenho que fazer tudo sozinha. Quarta-feira ordinária. Acho que vou dormir.