Crônicas do Apocalipse: [2] O Banquete.

Meu nome é Jonah Hanstaden, e escrevo este depoimento como o último que deixo em vida. Por ter pouco tempo, serei o mais breve possível.
Após ser traído por meus aliados e condenado nas cidades subterrâneas, tive como pena o exílio na superfície, vagando sem rumo pelos destroços do mundo antigo, até ser capturado por uma gangue de motoqueiros conhecidos como os Anhangás, “espíritos que andam para atormentar os vivos” e que dominam o mundo de cima.
São verdadeiros demônios, pois tudo neles lembra morte. De cabeças raspadas, pele morena devido ao sol constante e cobertos com pinturas de guerra na forma de caveiras, andam ostentando os ossos e dentes de suas vítimas sobre suas armaduras rudimentares, porém apesar do poder bélico limitado, são excelentes caçadores, manuseando de forma quase perfeita seus malditos porretes.
Foi tudo muito confuso, mal tive tempo de me defender, pois foram incrivelmente rápidos com suas motocicletas. Os guerreiros logo cercaram meu bando e estraçalharam as cabeças dos mais fortes com apenas um golpe de porrete, dominando assim os restantes. Por sorte, ou azar, minha subnutrição fez com que eles me poupassem a vida por ora, a fim de me engordarem o suficiente para eu servir de banquete para a aldeia, destino de todos os outros sobreviventes do bando.
Agora me encontro preso em uma jaula feito um porco para o abate, apenas aguardando meus últimos momentos de vida, que serão dentro de alguns minutos. Já ouço estes selvagens da superfície gritando e cantando seus ritos abomináveis só esperando saborear minha carne.
Como não vejo nenhuma chance de escapar, escrevo por último os meus mais sinceros agradecimentos pela vida que tive, não me arrependendo de nada, nem mesmo dos negócios que fiz durante décadas na cidade baixa, pois assim como aqui neste mundo de cima, lá embaixo temos que fazer de tudo pela nossa sobrevivência, inclusive devorar os outros.