Anamnese

O dia lúgubre, gênesis de um jornalista


Era uma manhã monótona e relativamente quente de setembro, e eu, vestindo uma camisa com imagens de personagens do Pokémon, meu desenho na época favorito, encontrava-me sentado ao sofá em tweed bege com estampa de flores na cor verde, cujo encosto pressionava a parede branca, já desbotada devido ao tempo de construção da casa. Sui generis, por certo exagero, entre as crianças de seis anos, não assistia aos desenhos fantasiosos da TV Globinho; não naquele dia e naquela ocasião: no momento em que uma voz locutora anunciara o início de Dragon Ball, mudei o canal do antigo aparelho de televisão Philips que iluminava a sala de tons nude, pois julgava o desenho extremamente sacal.

Eu estava na fase de desenvolvimento da leitura, então as palavras pareciam — o passar do tempo provou-me real a teoria — ter um encanto especial. Isso instigou-me a assistir telejornais, porquanto tentava ler, com dificuldades, as manchetes que corriam na parte inferior da televisão; era um dos meus hobbies preferidos. A cada frase inteiramente compreendida, eu celebrava como se estivesse em um estádio de futebol, tamanho valor atribuído às palavras. O canal no qual a televisão estava era a Globo News, e uma especialista, adornada com brincos verde brilhante, que atraiam a atenção do telespectador, debatia sobre a conjuntura econômica do Brasil. Repentinamente, a imagem deu lugar a um fundo amarelo com grandes letras garrafais em azul, as quais formavam a palavra plantão. Uma mulher, de cabelos curtos e vestida de vermelho (quem muito tempo depois descobri ser Leila Sterenber), pediu desculpas por interromper a programação e informou que o World Trade Center, em Nova York, estava pegando fogo após ser atingido por um avião.

Em questão de segundos, sem uma exata noção do significado de tal fato, percorri o curto trajeto até a simples cozinha, onde minha mãe, posta em frente ao fogão e vestindo seu tradicional vestido vermelho e florido, com um coque na cabeça, preparava o almoço. Disse-lhe, com um inglês totalmente enrolado que o World Trade Center estava em chamas. Com uma expressão de espanto e horror, devido ao fato de meus olhos brilharem ao dar a notícia da tragédia, ela me perguntou o que estava pegando fogo, pois minha pronúncia do nome do local fora praticamente impossível de ser compreendida. Respondi, então que não entendi o que era, que era algo em inglês; puxei-a pela mão, guiando-a até a sala. Apavorada, xingou-me por não estar vendo os desenhos que supostamente passavam na Globo, enquanto imagens de um prédio em chamas aparecia na televisão.

Sua vontade certamente era de assistir ao noticiário, manter-se informada sobre os acontecimentos, contudo, prezando meu conforto, desligou a pequena tela de 21 polegadas e mandou-me brincar com os Letronix colecionáveis da revista Recreio, a qual éramos assinantes. Como um soldado obedece às ordens de seu general, fui até meu quarto e sentei-me no carpete originalmente branco, mas no momento sujo. Não obstante o afastamento físico da fonte de notícias, minha mente estava em estado de alerta e parecia precípuo, a mim, ter conhecimento sobre os atentados do 11 de setembro. Era domingo e o dia aparentava seguir normalmente, exceto pelo fato de meus pais tentarem driblar-me e assistir às notícias sem minha companhia, e porque eu não conseguia parar de pensar nas cenas vistas durante a manhã.

Nos dias que se passaram, ia à escola, sempre vestindo o uniforme, composto por uma camisa amarela e uma bermuda azul royal. Lá, questionava as professoras, na época meigamente chamadas de tias, sobre aquela data memorável, cujas “imagens de aviões voando contra edifícios, o fogo queimando, grandes estruturas em colapso, encheram-nos com a descrença, a tristeza terrível e um silêncio, inflexível de raiva*.” Perplexas, davam respostas perfunctórias, breves explicações acerca do ataque ideado como o início de uma revolução, pioneira entre uma nova geração de homens dispostos a promover a guerra santa contra os Estados Unidos. Perante a falta de informações à qual eu era submetido, meu fascínio pelo caso intensificou-se e, vendo repórteres diretamente de Nova York, com seus grandes microfones, cujo som emitido é seiva para a informação, brotou, no âmago de meu ser, ainda que abstrata e quase imperceptível, a aspiração de ser um jornalista.

*Excerto do discurso de George W. Bush sobre o 11 de setembro.

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