Recorde de indicações de negros ao Oscar esconde falta de protagonismo e herança racista de Hollywood
Nas melhores hipóteses, eles eram escravos fieis ou servos insubordinados. Nas piores, irresponsáveis, impulsivos, depravados ou violentos. As primeiras representações de pessoas negras na cinematografia norte-americana foram feitas de maneira extremamente negativa. Um dos exemplos mais emblemáticos é “O Nascimento de uma Nação”, longa de 1915 dirigido por D. W. Griffith que retratou escravos recém emancipados como figurais animais repugnantes, ininteligentes e estupradores. Aclamado pelos avanços técnicos, foi também fortemente criticado pelo conteúdo racista e pró-segregação racial.
Baseado no romance e na peça “The Clansman”, ambos de Thomas Dixon, o filme foi uma arma para a Ku Klux Klan, que o utilizou como ferramenta de recrutamento até aproximadamente os anos 1960. Não bastasse isso, para interpretar a comunidade afro-americana, atores brancos tiveram seus rostos pintados de preto. Apesar do crescimento do movimento pelos direitos civis nos anos 1950/60, não foi até o final dessa década que as imagens fortemente diminutivas em relação a essa população começaram a ser apagadas. A década de 1970 finalmente viu algumas sérias e importantes obras sobre a história e vida dessas pessoas, como o longa “A Autobiografia de Miss Jane Pittman”, de 1974, e a telessérie “Raízes”, de 1975.

Mais de cem anos se passaram desde “O Nascimento de uma Nação”, um longo caminho foi percorrido e espaços foram conquistados sob a liderança de nomes como James Earl Jones, Sammy Davis Jr., Hattie McDaniel, Danny Glover, Morgan Freeman, Cicely Tyson, Gregory Hines, Ossie Davis e Denzel Washignton. Mas o caminho para igualdade na indústria ainda é grande. Se os anos de 2005 e 2007 registraram cinco negros nomeados nas categorias de atuação ao Oscar, em 2015 e 2016 faltou melanina entre os concorrentes. A não-presença de representantes negros gerou boicotes e protestos, e ganhou uma enorme repercussão midiática. Eis que, neste ano…
O Oscar tem recorde de indicações de afro-americanos. Denzel e Viola Davis (“Um Limite Entre Nós”), Mahershala Ali e Naomie Harris (“Moonlight: Sob a Luz do Luar”), Ruth Negga (“Loving”) e Octavia Spencer (“Estrelas Além do Tempo): são os seis nomes que disputam a cobiçada estatueta dourada, em diferentes categorias. Lembrados por méritos em atuações precisas e emocionantes, eles se unem a cinco diretores que também vão disputar o prêmio, acrescentado diversidade à cerimônia. A participação deles é importantíssima porque permite que seus trabalhos sejam mais conhecidos ao redor do mundo e promove a valorização dos mesmos. Os resultados foram celebrados pela Associação Afro-Americana de Críticos de Cinema: “esperamos que o progresso da Academia continue para refletir a rica diversidade da América”, afirmou a instituição.






A nomeação desses atores é, antes de tudo, um avanço para a representatividade. A construção das identidades individuais está diretamente relacionada aos produtos com os quais temos contato. O que vemos é responsável por passar-nos informações e afeta diretamente o nosso conhecimento do público, ajudando na criação de pensamentos sociais, valores, crenças, imagens, estereótipo sobre determinado indivíduo ou classe. Simplificando o pensamento do sociólogo Stuart Hall, o significado que damos às coisas surge a partir da experiência com elas, do que é dito, visto, sentido, expressado. Jamais podemos menosprezar o poder de uma imagem. Ver uma pessoa negra reconhecida pelo seu talento é uma mensagem poderosa de que todos têm valor e qualidades e abre portas para maiores oportunidades à comunidade afro-americana. Uma maior circulação de títulos com esses personagens são uma chance de desconstruir estereótipos criados pela própria história.
Apesar de ser extramente positivo e simbólico, o recorde de indicações ao Oscar não significa que a indústria tenha aberto de vez as portas a profissionais não brancos. Negros, que representam 12.6% da população dos Estados Unidos, ainda tem baixos padrões de representatividade nas telonas. Há quem argumente que isso acontece porque existem mais brancos na composição racial no país e que o cinema é um reflexo disso. Contudo, Hollywood, ou pelo menos sua premiação mais glamourosa e importante, não é proporcionalmente branca quando comparada com os indicadores demográficos. É, de fato, 37.8% mais branca.
Entre 2006 e 2016, houve 220 relacionados nas principais categorias de performance no Oscar, dos quais 193 eram caucasianos, oito hispânicos, 18 negros e um asiático. Se esses dados refletissem os índices do censo populacional, teríamos 140 indicados brancos, 36 hispânicos, 28 negros e 11 de origem asiática. A análise simples dos números mostram que brancos obtiveram 37.8% mais nomeações do que a demografia indica. O valor não é de todo chocante, porque, de acordo com estudo da University of California, Los Angeles (UCLA), há três pessoas caucasianas para cada personagem da mesma etnia, enquanto há sete negros “reais” para cada um da ficção.

Além disso, a maioria dos agentes, diretores e produtores de são homens brancos de meia idade. Se analisarmos os perfis dos 10 diretores mais ricos de 2016, apenas um é negro, Tyler Perry. Cineastas tendem a fazer obras com as quais se identifiquem ou que façam parte de suas realidades e referências. E a história, de onde saem grande parte dos heróis e inspirações, sistematicamente oprimiu e marginalizou negros, cujas conquistas e importância para o desenvolvimento nunca foram celebrados como a de outras pessoas. Seus feitos e trajetórias foram ofuscados e, quando tocados, revelados em contextos fragmentados e, por vezes, falsos.
Quando há um grupo que “detém as chaves para o portão”, por assim dizer, não é surpreendente que aqueles que têm permissão para entrar (e atuar) têm mais em comum com os gatekeepers. Hollywood é uma indústria “familiar”. Muitos dos nomes de destaque construíram sua fama sob a égide de seus sobrenomes e parentes, sejam eles tios, irmãos, pais, avós — e a herança da história foi uma tremenda “vantagem social” de brancos sobre os negros. Por ser um negócio, visa o lucro. Há uma crença entre os executivos de que os brancos — a maioria no país — não assistirão a um filme sobre negros, assim como os homens terão uma tendência a não assistir a uma produção com uma mulher — “women” e “people of colour” seriam mercados de “nicho”.
Assim, produtores muitas vezes relutam em escalar mais do que alguns atores minoritários por medo de que o público geral evite em grande parte tais filmes. O pesquisador Andrew Weaver, do Departamento de Telecomunicação da Indiana University, realizou um estudo no qual descobriu que quanto maior a porcentagem de atores negros numa película, menos interessado em assisti-la o público branco ficava. Na pesquisa, foram usados filmes divididos em seis grupos: 1 — elenco totalmente caucasiano; 2 — elenco 70% branco com dois protagonistas brancos; 3 — elenco 70% branco com um protagonista branco e um negro; 4 — elenco 70% negro um protagonista branco e um negro; 5 — elenco 70% negro com dois protagonistas negros; 6 — elenco totalmente negro.
Quando os entrevistados foram perguntados se sentiam que eram a “audiência pretendida” do filme, a positividade das respostas diminuí significativamente nas categorias 4, 5 e 6. Para os participantes, a escalação de atores negros a papeis principais, especialmente se havia uma veia romântica no filme, significava que o filme que visava um público específico. Da mesma forma, se o casal líder era inter-racial, a opinião do público era de que era filme que tinha a questão de raça como um tema principal.
Essa conjuntura faz com que não-brancos assumam o posto de protagonistas sobretudo em produções realizadas por não-brancos ou em filmes que geralmente oferecem um recorte etnográfico sobre as comunidades afrodescendentes, em épocas e situação distintas. São trabalhos que retratam o período da escravidão, relações inter-raciais, segregação, o racismo, antigo ou pós-moderno. Tomemos os filmes pelos quais os negros indicados ao Oscar concorrem. “Moonlight: Sob a luz do luar” traz um elenco quase que exclusivamente negro, além de ser dirigido por um. O longa conta a história de Chiron, um menino homossexual que leva uma vida complicada em Liberty City, na Flórida. Na primeira parte da narrativa, que é dividida em três atos (infância, adolescência e vida adulta), é mostrada a relação do garoto com mãe alcoólatra e perturbada. Também é apresentada a amizade com Juan, um vendedor de drogas, e sua namorada, Teresa.
Por seus desempenhos, Mahershala Ali, que faz Juan, e Naomie Harris, a mãe Paula, concorrem nas categorias de atores coadjuvantes. Entre os temas centrais, a dificuldade de crescer sendo negro e a discriminação sexual. A crítica aclamou “Moonlight” por lançar luz sobre essas questões, sensibilizar e fazer um convite à empatia. Todavia, nas redes sociais, muitos dizem que não conseguiram se conectar com o enredo por não representar a sua realidade ou uma situação com a qual estão acostumados. Isso, combinado com o roteiro sutil, quase poético, rendeu classificações como “parado” e “entediante”.
Baseado no livro homônimo vencedor do Pullitzer de Drama em 1987, “Fences” onga conta a história de um ex-jogador de beisebol, Troy Maxson, que se torna um catador de lixo. A mudança afeta a relação com a família, inclusive a esposa, Rose, vivida por Viola Davis, que concorre como melhor atriz coadjuvante. Já o protagonista Denzel Washington luta pelo prêmio de melhor ator principal. Ele também é o diretor da trama, que, novamente, é ambientada num subúrbio, com maioria negra entre seus moradores. Há muito drama e situações que chocam o espectador.
É um erro grave dizer que ator negros não participam de filmes produzidos por atores. Ruth Negga, a protagonista de “Loving”, compete numa das categorias mais disputadas deste ano, a de melhor atriz principal. Ele é a estrela do título, que acompanha Mildred, uma mulher que se envolve com um homem branco no sul dos EUA nos anos 1960, quando relacionamentos inter-raciais eram considerados crime. O longa é dirigido por Jeff Nichols, um dos mais talentosos cineastas da sua geração, mas vemos novamente o peso do racismo e temporal. É evidente que estes temas não podem ser apagados ou deixados de fora das telas, mas também a produção cinematográfica protagonizada por afrodescendentes não pode ser estritamente atrelada da isso.
Ao longo da história, as principais conquistas e avanços nem sempre foram realizadas por brancos, que tradicionalmente estavam nos grandes círculos intelectuais e em famílias abastadas, consequentemente tendo mais oportunidades. “Estrelas além do tempo” é uma trama real que mostra ao espectador uma divisão da NASA formada exclusivamente por mulheres afro-americanas. No auge da Guerra Fria, o grupo provou ser o elemento crucial que faltava na equação para a vitória dos Estados Unidos na chamada corrida espacial, liderando algumas das maiores operações. Octavia Spencer, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2009 pela tragicomédia “Histórias Cruzadas”, interpreta uma das integrantes e concorre na mesma categoria que a laureou há oito anos.
Trata-se de uma ótima história, mas que não resulta num filme tão bom. O cineasta Theodore Melfi apela em alguns momentos para um dramaticismo em excesso e há também a infame cena em que um dos diretores da NASA é colocado como uma espécie de “salvador”. Em uma cena, a personagem de Taraji P. Henson (a física Katherine Johnson) não está na sala quando o diretor do seu departamento, Al Harrison, precisa falar com ela. Quando ela chega, encharcada da chuva, ele pergunta onde ela vai todo dia por cerca de 40 minutos. A resposta é simples: ao banheiro. Acontece que Johnson precisa percorrer todo o campus do Langley Research Center para usar o único toalete permitido a “mulheres de cor”.
Quando Al Harrison descobre a situação, ele é tomado por fúria e vai até local com um pé-de-cabra. Então destrói a placa que indica “Colored Ladies Room” e dá um discurso emocionante sobre como, naquela instituição, todos eram iguais. Mas nada isso realmente aconteceu. Em uma entrevista para a Vice, o diretor do longa defendeu que não havia nada de errado em colocar um salvador branco ficcional na trama. “É preciso haver pessoas brancas que façam a coisa certa”, disse. “É preciso haver pessoas negras que façam a coisa certa, alguém faça a coisa certa. Então quem se importa com quem fez, desde que a coisa certa tenha sido alcançada?”, indagou. O que é isso senão uma tentativa de amenizar as injustiças cometida? Isso sou eu quem questiono.
No passado, os personagens negros tendiam a ser estereotipados, como empregados, vilões, bad hombres, traficantes, drogados, mulheres barraqueiras, pessoas miseráveis que precisam de alguém para serem salvas. Isso ainda acontece, com menor incidência, é verdade, devido a um intenso movimento de várias personalidades. Nos último anos, negros assumiram papeis menos depravados e arquetípicos, mas falta serem protagonistas em produções com elencos mais miscigenados e com temáticas menos específicas. Faltam personagens que terminem de quebrar padrões e que se destaquem. Porque não basta estar no enquadramento final, é preciso ter atuações com falas, ficar tempo suficiente na tela para ser notado. Como disse Viola Davis no seu discurso ao se tornar a primeira negra a receber um Emmy na categoria de Melhor Atriz em drama, “a única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra é a oportunidade”. A assertiva é válida e pode ser amplificada. O que separa negros, em geral, dos brancos é a oportunidade.
Originally published at www.blogcafeicultura.com on February 25, 2017.
