O muro

Quando chego em casa à noite e meu farol ilumina o imponente muro que tomou o lugar do verde, vejo pequenos bichinhos silvestres desorientados tentando encontrar passagem onde antes o vento fluía. Nem pequenas aberturas foram deixadas no cimento. Isto diz algo. Isso diz muito.

Não entendo a função desse muro sendo outra a não ser impedir o fluxo da vida. É assim que o leio. Não é um muro para proteger os iluminados de dentro dos perigos do submundo de fora.

Este muro não circunscreve o que se quer guardar lá dentro. Ele é só uma linha. Divisória. Muito bem marcada. Que faz imperioso contraste com a paisagem em redor, como a afirmar: ‘Este é um arco do triunfo. É o começo de uma nova era. Esta é uma linha divisória. A vida que fluía por aqui terá que buscar novos caminhos. ’

E de fato, novos caminhos e mudança são todas as certezas que o mundo nos dá diariamente.

Quando eu era criança, aprendi que todo bosque é sagrado. Lá moram entes da natureza, visíveis e invisíveis. Estes últimos não podemos ver por causa do nosso materialismo grosseiro. Mas não é por isso que devemos esquecê-los. É justamente, por causa do nosso materialismo grosseiro, que não podemos esquece-los. Ou então deixaremos de ver até os que estão aparentes.

É uma pena que as verdades da infância se tornam inconvenientes na vida adulta. E aí você é forçado a esquecê-las quando convém. Quando é preciso construir um muro pela segurança, sendo que toda a retaguarda está vulnerável e aberta.

Ninguém viu essa contradição. Ninguém a discutiu. Seria como afirmar que o rei está nu. E ninguém quer arriscar ter olho em terra de cego. É subversivo e perigoso.

Mas eu, não vejo outro papel para mim neste momento. Mesmo que tarde.

Preciso arriscar isso por minha vida, minha alegria, alegria dos meus. Pelo sagrado que habitou minha infância, e que quero que permaneça.

Na fase adulta, a vida nos engole com prazos, demandas, dinheiro pra ganhar, dinheiro pra gastar. O reino dos céus na terra é muito estranho.

Mas hoje, esse fluxo mecânico e alucinado foi interrompido por algo corriqueiro.

A internet foi cortada.

Bem no momento em que subia o upload de um arquivo cujo prazo de entrega é agora.

Merda! É isso que sentimos quando nos cortam a internet no meio de um upload com prazo.

Fui investigar o que acontecia.

Os reis nus do reino vizinho estavam reunidos em festival! Um sacrifício sem aviso prévio.

A grande árvore que emoldurava a entrada do lugar — que por tanto tempo considerei sagrado — estava sendo deposta. A lei da gravidade, fez com que seus pesados galhos se espatifassem por sobre os cabos e fios. E por isso a internet foi cortada.

Então eu fui até lá. Briguei com os reis nus que são muito bons em discursos evasivos de controle de danos. Muito corporativo! Nada resolvem, mas a voz se mantem monocórdia para te fazerem acreditar que quem tem sangue que ferve é anormal. O mundo não é para pessoas com sangue que ferve (Se duvidam podem assistir Frozen, que é ótima ilustração).

Enfim, o jeito é esperar.

Mas a grande árvore não se espatifou no fio em vão. Começo a achar que foi um pedido de socorro: Ei, acorde desse mundo virtual. Nós aqui no mundo real estamos caindo. Caímos para dar lugar a muros, paredes, fortalezas. Lembra de nós? Da sua infância? A cada dia o mundo oferece menos lugar para nós…

Cortou meu coração, que fervia.

E me pôs a escrever.

Essa carta não há de resolver muito por vocês, grande árvore.

E eu sinto muito!

A marcha do progresso é uma máquina difícil de parar. Seja o progresso do mundo, de um país, de uma cidade, de um pequeno reino vizinho…

Uma vez que ela ganha velocidade, nada a detém. Você pode tentar contorna-la, mas ela mói quem está em seu caminho: seres da natureza, seres humanos, a vida parece que não tem vez diante do progresso… e o progresso me parece, cada vez mais, um grande cemitério onde zumbis dançam em volta de reis nus.

Fim do primeiro ato.

2º ato.

Esta é a melhor parte.

A melhor parte é que a vida brota de novo. Transformada. Nova. Viva.

E mesmo que demore eras, eu viverei nos bosques sagrados da minha infância para ver o cemitério de zumbis e reis nus ser não mais que arqueologia, fossilizada nas raízes de um mundo verde, forte e livre.