Seu Celso e o Sítio Maravilha

O seu Celso. Foto: Renata Ribeiro.

Todo mundo deveria conhecer o seu Celso. To-do-mun-do. O grande empresário, o pequeno empresário, o professor de ensino médio, a Dilma, o dono do restaurante por quilo, sua mãe. Sim, até a sua mãe.

A história começa em Araçuaí, O LUGAR MAIS QUENTE DO MUNDO. Tá, provavelmente isso não é verdade, mas foi o que senti por lá. E olha que já faz mais de uma semana que saí de Minas e só fiz subir: Bahia, Sergipe e agora Alagoas. E nenhum lugar pareceu tão quente. Às 7h da manhã já batia os 30ºC e ninguém lembra a última vez que choveu. Bravo, né?

Lá, em tempos remotos, havia pedaços de mata atlântica, casa pras araras que deram nome à cidade. Hoje, a vegetação tá mais pra caatinga. A falta de chuvas, as altas temperaturas e o desmatamento constroem um cenário mais ou menos assim:

Mas e o seu Celso? O post não era sobre esse tal de Celso? Bom, isso aqui é obra dele:

Foto: Renata Ribeiro

Sim, meus caros. É o mesmo lugar. A “mesma” terra. Esse é o Sítio Maravilha, espaço com 12 hectares no Vale do Jequitinhonha, em que são aplicados os princípios da permacultura, uma das iniciativas do CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento) em Araçuaí. Lá são produzidos diversos tipos de alimentos, como hortaliças, frutas, grãos e ervas. Bicho também, como galinhas, codornas, porcos e coelhos. Tudo pra consumo.

Mas que raio é permacultura? Claro que há definições mais precisas e complexas (aqui), mas eu prefiro ficar com a do seu Celso, que resumiu assim os princípios da ‘perma’: 1) respeito ao solo; 2) respeito à vida; 3) partilha consciente da produção excedente.

***Pausa: agora para e pensa. Pensa com carinho. Se a gente (a gente mundo, ser humano, a patota toda) levasse esses três princípios a sério, onde estaríamos hoje? Pois é, não consigo nem imaginar, mas chuto que não seria comprando SUVs nem tendo que brigar pra fechar uma avenida aos domingos.
Foto: Renata Ribeiro.

No Sítio Maravilha, tudo é feito combinando essas três diretrizes. Do armazenamento de água da chuva à distribuição de alimentos. Do formato das hortas ao tipo de material usado nas construções. Do banheiro seco ao trator vivo. (se não sabe o que são esses últimos, explico jájá). Como alguém bem disse ao final da visita, dá pra definir o trabalho realizado no sítio em uma palavra: coerência.

Talvez seja isso que nos impressione mais, porque estamos acostumados demais a comprar coisas que não precisamos e carregá-las em sacolas de pano. Ou produzir milhares dessas “ecobags” para divulgar marcas. Ou a relativizar tudo pra justificar nossos impulsos consumistas (likes, posts, selfies, tá tudo incluso).

A coerência te mandou um beijo. Disse que passa bem.

Mas voltemos ao Sítio. Onde está a coerência? Seu Celso disse que o segundo princípio da permacultura é o respeito à vida. Mas aí é que está a magia. Que vida é essa? É dos animaizinhos que a gente tem dó de matar? Ou é a do cara que trabalha na olaria, num trabalho pesado, queimando as mãos, pra fazer o tijolo bonito e resistente da sua casa? Coerência é pensar em todos.

Nos bichos — que sim, podem ser usados como alimento, desde que tenham vida e morte dignas — , nos trabalhadores que atuam dentro da propriedade rural — e têm seu esforço poupado por meio de tecnologias agrícolas — , nas pessoas que produziram coisas usadas no sítio — e aqui entra o exemplo do tijolo comum, substituído por um ecológico — , nas outras espécies que fazem parte desse ambiente — até aquele mato que “todo mundo” insiste em arrancar das hortas — e, por fim, naqueles que vão consumir os alimentos produzidos ali.

  • Hortas em formato de mandala. Há vários motivos pra fazê-las nesse formato, mas o que mais me marcou foi o de facilitar o trabalho de irrigação. Nesse sistema, basta o trabalhador dar uma “rodadinha” que ele rega tudo de uma vez. Não é massa?
  • Banheiro seco. Seco porque não tem água. Putz, mas aí como é que as coisas “vão embora”? Pois é, não vão. E não vão porque elas podem ser muito úteis (como adubo) e porque ao misturar nosso xixi e cocô com água a gente tá fazendo o quê? Sim, sujando essa coisa preciosíssima que é a água. Mas não fede, Silvio? Não, não fede, é só jogar serragem em cima e ser feliz.
imagem: CPCD.
  • As propriedades são divididas em zonas. E cada uma delas tem uma função específica. Exemplos: na zona 1, mais próxima da casa do agricultor (ou coisa que o valha) ficam as plantações que precisam de cuidados diários, mais uma vez para poupar seus esforços; a zona 4 é de proteção ambiental, uma área que o agricultor se compromete a cuidar para que mantenha ou desenvolva espécies nativas, protegendo também o solo e os bichos que moram lá.
ó que jaca bonita
  • Nem todo matinho é inimigo. Eu não sei vocês, mas sempre aprendi que “mato” tem que tirar, carpir, sei lá. Mato é sujeito. E no meio de plantação, então? Mas aí vem seu Celso e fala: “tem o tempo certo de tirar, que é só quando o mato compete mesmo com a planta, e isso não é o tempo todo. Além disso, o mato pode servir de proteção, porque quando algum bicho vem se alimentar, ele tem mais ‘opção’ e não come só as espécies cultivadas”. Não é fofo?
  • Trator vivo. Um dos que achei mais geniais. Consiste em uma “mini” casinha para galinhas, que saem do viveiro e vão ciscar em um terreno específico, que o agricultor escolhe. Faz bem pro solo, que é revirado e recebe nutrientes, e pra galinha, que faz uma refeição diferenciada.

E pra quem acha que seu Celso é uma “cria” da permacultura, que sempre fez isso, não. Ele é da roça, mas cresceu fazendo várias coisas que hoje sabe serem danosas pro meio, como as queimadas. Foi há apenas 10 anos, logo depois de fazer um curso de permacultura, que ele foi chamado pelo CPCD para conduzir a experiência no Sítio Maravilha no Vale do Jequitinhonha. E hoje faz isso em outros lugares do Brasil, sempre compartilhando o que aprendeu naquele pedaço de terra.

“A experiência com a natureza é todo dia, todo dia ela reage, todo dia você aprende. Não tem essa de diploma.”

Isso é outra coisa linda do Sítio e do seu Celso. Aleḿ de aprender com a natureza — que, como diria ele, “é todo dia, não tem essa de diploma” (risos), o objetivo é compartilhar essas experiências. O Sítio Maravilha é um laboratório que também tem o papel de inspirar outros produtores da região e mesmo do Brasil a seguirem o modelo da permacultura como uma alternativa viável economicamente e que faz bem pra todo mundo.

E é mais ou menos por isso que todo mundo deveria conhecer o Seu Celso.

O dia terminou no Sítio Maravilha com canto — do grupo Emcantar — e choro. Porque, te contar, foi difícil, depois de tanta coisa, de plantar árvore e nadar no Jequitinhonha, comer a comida da Dona Jana e conversar tanto com seu Celso, ainda ouvi-lo dizer: “Que dia bom, animador. Tô ansioso pro dia amanhecer, pra poder continuar o trabalho”.

Foto: Renata Ribeiro

***Segunda pausa do texto. Responda rápido: quantas vezes na vida você já disse isso? “Quero que o dia amanheça logo pra eu continuar o trabalho?” Quando a gente trabalha ou quer trabalhar com o que acredita, conhecer uma figura como o seu Celso e ouvir isso é uma injeção de ânimo que, além de tudo, emociona. Balança.

***Segunda pausa do texto. Responda rápido: quantas vezes na vida você já disse isso? “Quero que o dia amanheça logo pra eu continuar o trabalho?” Quando a gente trabalha ou quer trabalhar com o que acredita, conhecer uma figura como o seu Celso e ouvir isso é uma injeção de ânimo que, além de tudo, emociona. Balança.

Nova meta de vida: poder dizer o mesmo que seu Celso com o Sítio Maravilha (que agora, ainda bem, já são muitos!).

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.