É engraçado como nossas memórias existem em nós.

Se me perguntarem da Débora eu terei que fazer um esforço para me lembrar dela. Me lembrar do rosto, do jeito, me lembrar de algum acontecimento em específico e de como ela reagiu, me lembrar dela sem que minha mente tenha que preencher algumas lacunas que ficaram perdidas, me lembrar dela sem ter a certeza de que aquela é a Débora real e não a Débora idealizada por mim.

E, no entanto, basta um simples chinelo virado e eu me lembro da voz dela me chamando atenção, me lembro da expressão dela e de como ela tinha essa mania de querer me ensinar tudo, de como ela sempre agiu como uma irmã mais velha e nunca deixou de compartilhar suas histórias comigo, de tentar me fazer entender coisas que nem ela entendia, mas que achava que devia passar pra frente.

Quando ela se foi eu tive que aprender a ser irmã mais velha. Tive que aprender a contar minha vida pra outras pessoas. Tive que aprender a escutar as outras pessoas. Quando ela se foi eu entendi que o caos não perdoa ninguém.

Se ela tivesse vivido mais um ano ela teria sido a primeira a saber sobre as meninas. Se ela tivesse vivido mais 5 anos teria sido a primeira a puxar minha orelha por eu largar a faculdade. Se ela tivesse vivido mais 8 anos teria sido a primeira a achar bizarro eu fazer contábeis. Se ela tivesse vivido mais 12 anos eu não me lembraria que foi ela que me explicou pela primeira vez que deixar o chinelo virado era desejar a morte da própria mãe.

Ou talvez, se ela tivesse vivido todos esses anos, talvez eu não os tivesse vivido como vivi.

É engraçado como nossas memórias existem em nós.
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