Isolamento
Sobre olhar do lado de quem é linchado (fisicamente) ou excluído (socialmente).

Fazia nem trinta segundos e pá. Pesadelo. Dos grandes. Quando os sonhos eram normais demais, ele reclamava muito. Podia reclamar por dias. Achava sem sentido a equação. Viver de segunda a segunda sendo legal e acabar com mais uma história de merda. Essas de elevação, conquista, horário nobre. Ele nem curtia droga pesada, droga com nome de rua em São Paulo, mas namorava um pesadelo eletrizante. Ele achava que as noites passavam melhor assim, talvez até mais rápidas. Mais quentes. Escuridão apenas para descanso era um desses desperdícios inventados pela comunicação de massa, ele pensava. E justo naquele dia, com seu expediente encerrado, o choque veio rápido. Aconteceu mais ou menos assim.
Ele e uns amigos sem rosto nem cheiro nem vontade estavam em um parque sem vento, sem chuva e sem frio, ainda que à noite. O chão era de areia, meio misturada a pequenos galhos de uma madeira bastante fedida. Não tinha um barulho. O primeiro som veio de uma roupa amassada. O segundo foi de reclamação. Mais seis sons seguiram intercalando reclamação, calça rangendo na areia; palavrão; bota pisando no cadarço. As palavras vinham de alguns cantos e eram dirigidas a ele. Tinha feito algo grave. Nesse instante não havia movimento visível. Quando ouviu mais alto, os sons entraram por seu ouvido como se fossem recados deixados na caixa de mensagem ao mesmo tempo por amigos conhecidos. Não eram dizeres afáveis. Ele tinha matado uma pessoa. Não por gosto. Não por mérito. Mas tinha matado e estava na mira de todos. Era Brasil? Seria levado? A culpa cairia na sua cara ali mesmo? O som passaria dos dentes dos outros para as sirenes daqueles carros blindados? Ao que tudo indicava, ele tinha matado mesmo, mas não se lembrava. E logo refutou a acusação qual um supremo. Não tinha entendido nada. Entre as doze ou treze pessoas, havia ao menos oito rostos bem próximos a ele. Reconheceu uma menina que lhe fez disparar o coração na virada da adolescência. Um era ex-colega do fundamental. Outros seis apareceriam em suas fotos se ele tivesse redes sociais. Coadjuvantes, mas importantes. Os outros ele ainda tentava adivinhar. Conhecidos; mas quem? Bradou um daqueles seis que a morte tinha acontecido por acidente. Foi quando ele ficou mais sereno. Ufa. Mas quando? Qual o lide? De quem, afinal? Em quais circunstâncias? Continuaram contando-lhe. O quiproquó deu-se numa instalação artística dessas que você esbarra num talher torto pendurado por um fio minúsculo. Ele visitava o lugar sozinho, como fizera em outras oportunidades. Até que encontrou lá os doze ou treze. Sacou uma peixeira, cortou um dos fios da farra — que segurava um peão de prata que devia valer um jantar daqueles — e saiu correndo como se não houvesse fronteira. Deu de cara com o que se convencionou chamar de autoridade, mas ele enxergou cães. Nítidos. Jurava que eram animais. Na confusão empurrou um deles, que caiu logo numa instalação com vidros que o perfuraram até o último respingo. A correria deve ter durado do segundo 11’ ao 15’ do pesadelo de 30’. Fugiu, subiu, correu, desviou, acabou na praça com aquela mesma gente. Já estava para despertar, mas os doze ou treze estavam enfileirados nos avisos de ‘você errou’. Julgaram iguais e por um baile a zero determinaram ele culpado. A pena? Deveria sair do grupo. Era a condenação final. Não teve opção a não ser fugir, subir, correr, desviar mais um pouco. Ao menos não tinha sido chicoteado. Lembrou-se da fome e dos olhares dos outros. Isso o perfurou até o último respingo. Cachorro berrou, ele acordou.
Tinha sido um pesadelo com P grande. Tanto surreal quanto banal. Ele se permitia vivê-los intensamente, o que pode incomodar muito quem só lê revista embrulhada. Ele gostava quando pesadelo parecia durar. Era o seu desenho infantil com cores um pouco parecidas e os mesmos dubladores. Era terrível, mas mais sangrento era viver. O seu objetivo de vida era conseguir um pesadelo que fosse um pouco mágico. Pudesse escolher, marcar com X. Um que envolvesse, sei lá, a história de uma Copa do Mundo de Futebol em Macondo em que todos são ladrões, não há impedimento e o gol vale seis no placar. Envolvia a bola que sonhava chutar e a mágica que ousava pensar. O sonho acompanhado de cenas de morte-matar-morrer-maltratar lhe era fácil. Ainda que as vezes um bom pesadelo. Como esse último. Isso que ele nem queria muito na vida. Apenas escolher entre sonhar bem e sonhar mal. E o que comer.