Jogo da différA/Ence

Ernest Bowes
Jul 10, 2017 · 5 min read

“Uma vez que há o Um, há o assassinato, a ferida, o traumatismo” (DERRIDA, Jaques. Gramatologia, p. 100, 1991). Nessa perspectiva, o um e o uno, isto é, o unitário, implica sempre o outro. Em seus deslocamentos infinitos operantes no campo dos signos, de modo que a crítica sobre o dito se impõe leitura do arquivo que nos é proposto. “O um se resguarda no outro”. Todas as coisas são diferentes de uma mesma coisa e são a coisa mesma, por que todas elas nascem através de diferenciação, ao sugerir uma noção de identidade enquanto diferença. Assim, a questão da leitura enquanto arquivo não é uma questão simplesmente de passado: trata-se do futuro, de uma promessa. O que desdobra numa questão de tempo, operante no próprio processo literário. É nesse momento em que a diferenciação se apresenta como item fundamental para o reconhecimento do “Um”, no artigo intitulado de A diferença.

Derrida introduz seu artigo problematizando a letra a com o objetivo de debater o mundo da linguagem para conceituar algo. A palavra diferença, à qual Derrida se refere, significa diferença, na língua portuguesa. Mas ele aponta que a complexidade do jogo que ele propõe na conferência só é possível através do neologismo em francês. É nesse momento que surge a différance, agora com a letra a, sem modificar a pronuncia no francês. Contudo, o argumento do filósofo é que essa palavra ganha outros significados, em um processo de consignação.

Ao seguir a estrutura adotada em diferença e différance, em uma mudança puramente gráfica, a palavra différance, com ‘a’ seria o modo de traduzir a diferença, em seu movimento de aparecimento e desaparecimento, afirmando no sentido de diferir, mas negando no estado gráfico. Enquanto diferença, com ‘e’, só aborda o primeiro sentido, o do verbo diferir.

Para Derrida, o ‘a’ deve dizer mais do que o ‘e’ no sentido de trazer a diferença a seu devido lugar na linguagem, a proximidade com o seu sentido. Isso porque a différance depende sempre de uma determinação da linguagem, da instância do signo, da impressão que violenta. Assim, a différance extrapola a différence — com ‘e’ — ao fazer uso do seu inaudito ‘a’. Produz-se no sentido de diferir, tratada como alteridade, de dessemelhança, de antipatia e de polêmica, com persistência na repetição, intervalo, distância, espaçamento. Différance deve significar diferencialidade anterior a toda diferença determinada, a toda presença, e deve se caracterizar não como uma palavra, muito menos como um conceito, mas como uma marca muda, que se revela pela sua grafia. Um movimento. Para o filósofo, a palavra différance engloba ainda dois sentidos de origem do verbo diferir, latino, espaçamento e temporização. O verbo, em sua origem, arquiva o sentido de desvio, retardamento e reserva que estariam associadas à temporização.

A linguagem, enquanto escrita, não cabe mais no conceito de linguagem e Derrida aponta para um transbordamento da escrita, uma abertura para a disseminação de interpretações e uma não fixação de sentido. Existe uma impossibilidade para os sistemas fechados do discurso. Questiona, também, as fragilidades teóricas de toda hierarquia, de isto ou aquilo, do eu e do outro, de todos os binarismos existentes, e tenta mostrar-nos que a qualquer momento o centro se desconstrói. No sentindo que não há centro, mas centros.

A différance, assim, através da lógica reconstrução da escrita, do Phamakón, do suplemento, vai bagunçar esse jogo da dicotomia do bem e o do mal, da aparência e da essência, da representação e do real. A escrita foi concebida numa dimensão não fonética, constituída por traços, configurando a sua materialidade. Assim, o processo de desconstrução se materializa, paradoxalmente, no interior da própria tradição da metafísica ocidental e funciona como uma crítica da prevalência atribuída aos registros da voz e da fala na metafísica ocidental, desde Platão.“Uma vez que há o Um, há o assassinato, a ferida, o traumatismo” (DERRIDA, Jaques. Gramatologia, p. 100, 1991). Nessa perspectiva, o um e o uno, isto é, o unitário, implica sempre o outro. Em seus deslocamentos infinitos operantes no campo dos signos, de modo que a crítica sobre o dito se impõe leitura do arquivo que nos é proposto. “O um se resguarda no outro”. Todas as coisas são diferentes de uma mesma coisa e são a coisa mesma, por que todas elas nascem através de diferenciação, ao sugerir uma noção de identidade enquanto diferença. Assim, a questão da leitura enquanto arquivo não é uma questão simplesmente de passado: trata-se do futuro, de uma promessa. O que desdobra numa questão de tempo, operante no próprio processo literário. É nesse momento em que a diferenciação se apresenta como item fundamental para o reconhecimento do “Um”, no artigo intitulado de A diferença.

Derrida introduz seu artigo problematizando a letra a com o objetivo de debater o mundo da linguagem para conceituar algo. A palavra diferença, à qual Derrida se refere, significa diferença, na língua portuguesa. Mas ele aponta que a complexidade do jogo que ele propõe na conferência só é possível através do neologismo em francês. É nesse momento que surge a différance, agora com a letra a, sem modificar a pronuncia no francês. Contudo, o argumento do filósofo é que essa palavra ganha outros significados, em um processo de consignação.

Ao seguir a estrutura adotada em diferença e différance, em uma mudançapuramente gráfica, a palavra différance, com ‘a’ seria o modo de traduzir a diferença, em seu movimento de aparecimento e desaparecimento, afirmando no sentido de diferir, mas negando no estado gráfico. Enquanto diferença, com ‘e’, só aborda o primeiro sentido, o do verbo diferir.

Para Derrida, o ‘a’ deve dizer mais do que o ‘e’ no sentido de trazer a diferença a seu devido lugar na linguagem, a proximidade com o seu sentido. Isso porque a différance depende sempre de uma determinação da linguagem, da instância do signo, da impressão que violenta. Assim, a différance extrapola a différence — com ‘e’ — ao fazer uso do seu inaudito ‘a’. Produz-se no sentido de diferir, tratada como alteridade, de dessemelhança, de antipatia e de polêmica, com persistência na repetição, intervalo, distância, espaçamento. Différance deve significar diferencialidade anterior a toda diferença determinada, a toda presença, e deve se caracterizar não como uma palavra, muito menos como um conceito, mas como uma marca muda, que se revela pela sua grafia. Um movimento. Para o filósofo, a palavra différance engloba ainda dois sentidos de origem do verbo diferir, latino, espaçamento e temporização. O verbo, em sua origem, arquiva o sentido de desvio, retardamento e reserva que estariam associadas à temporização.

A linguagem, enquanto escrita, não cabe mais no conceito de linguagem e Derrida aponta para um transbordamento da escrita, uma abertura para a disseminação de interpretações e uma não fixação de sentido. Existe uma impossibilidade para os sistemas fechados do discurso. Questiona, também, as fragilidades teóricas de toda hierarquia, de isto ou aquilo, do eu e do outro, de todos os binarismos existentes, e tenta mostrar-nos que a qualquer momento o centro se desconstrói. No sentindo que não há centro, mas centros.

A différance, assim, através da lógica reconstrução da escrita, do Phamakón, do suplemento, vai bagunçar esse jogo da dicotomia do bem e o do mal, da aparência e da essência, da representação e do real. A escrita foi concebida numa dimensão não fonética, constituída por traços, configurando a sua materialidade. Assim, o processo de desconstrução se materializa, paradoxalmente, no interior da própria tradição da metafísica ocidental e funciona como uma crítica da prevalência atribuída aos registros da voz e da fala na metafísica ocidental, desde Platão.

Ernest Bowes

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Specialist in degenerate rituals. P.h.D Fellow in Literature and Arts

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