A obra atemporal de Angela Davis
O livro Mulheres, raça e classe, de Angela Davis foi originalmente lançado em 1981, mas foi apenas em 2016 que sua obra chegou ao Brasil, nos mostrando que a realidade das mulheres negras não mudou tanto assim. Além disso, apesar do livro nos mostrar o contexto vivido nos EUA, vemos que no Brasil, onde 54% da população é negra, a vivência é bem parecida. Hoje vou falar um pouco da minha experiência ao ler e os pontos que achei mais interessantes nessa obra maravilhosa.

Como o título já nos diz, Angela nos mostra as conexões entre raça, classe e gênero, como as nuances e formas de opressão de cada uma está ligada, e que uma luta nunca deve se sobrepor a outra. A vivência acadêmica e ativista de Davis, faz os 13 capítulos do livro serem muito bem embasados, cada um mais intenso e revelador que outro. É impossível não sentir um incômodo ao ler. Para mim, o mais forte foi a sensação de que nunca me contaram a história toda sobre toda a origem e corroboração do racismo. Os livros de história não nos dizem nem a metade do que toda a pesquisa de Angela reunida neste livro diz. Logo no primeiro capitulo, Davis nos mostra a implementação da escravidão e o legado (nada positivo) deixado principalmente as mulheres negras, desde a hiper sexualização e promiscuidade tida como inerente a raça (usada para justificar abusos sexuais), a exploração do trabalho doméstico.
Como mulheres, as escravas eram inerentemente vulnerareis a todas as formas de coerção sexual. Enquanto as punições mais violentas impostas aos homens consistiam em açoitamentos e mutilações, as mulheres eram açoitadas, mutiladas e também estupradas. O estupro, na verdade, era uma expressão ostensiva do domínio econômico do proprietário e do controle do feitor sobre as mulheres negras na condição de trabalhadoras.
Nos capítulos 3, 4, 7 e 9, Davis nos mostra a diferença das lutas entre mulheres negras e brancas e o racismo existente no sufrágio. Muitas mulheres brancas de classe média se tornaram abolicionistas, enxergando na luta antiescravagista uma chance de ter voz (já que a revolução industrial aumentou a inferioridade feminina e modificou a funções da mulher na sociedade), porém, a exclusão de mulheres negras nas lutas pelos direitos fica evidente na obra de Davis (e isso já tinha me incomodado muito quando assisti ao filme As Sufragistas). Em convenções e sindicatos importantes, várias mulheres negras com anos de história e ativismo foram excluídas, por suas próprias irmãs brancas. Relatos mostram como o sufrágio feminino serviu de base para que homens racistas e defensores da supremacia branca usassem sua influência para que os negros tivessem cada vez menos direitos, oferecendo apoio as ativistas, desde que as mesmas defendessem o direito ao voto da mulheres brancas como prioridade ao voto dos homens negros (que apesar de alguns já estarem livres, não tinham direitos e nenhuma condição digna de vida).
Com o homem negro, não teremos nenhum elemento novo no governo, mas, com a educação e a distinção das mulheres, teremos um poder que consiste em conduzir a raça anglo-saxã rumo a uma vida superior e mais nobre(…)
Vários outros pontos são minuciosamente trabalhados na obra de Davis, como a extrema violência, encarceramento e extermínio da população negra (ps: a explicação sobre a origem do linchamento contido no livro é um ponto importante a ser lido, dado aos casos de justiça com as próprias mãos que vivenciamos atualmente), que não tinham as leis ao seu favor, nada diferente do que ainda vivemos, infelizmente.
Vi quando eles mataram meu marido, ele levou um tiro na cabeça enquanto estava de cama, doente, eram uns vinte ou trinta homens que entraram em casa, fizeram ele se levantar e sair pela porta (…) Então um deles deu um passo para trás, colocou a arma na cabeça dele e disparou três vezes(…)
A obra de Davis é tão rica, que eu não seria capaz de escrever sobre tudo (nem é meu objetivo aqui, afinal cabe a quem se interessar procurar ler o livro completo, e não vai se arrepender claro), como a segregação racial, a educação como forma de libertação, a relação do capitalismo e a desigualdade de gênero, o mito do estuprador negro, o controle da natalidade e a violência através da esterilização, e muito mais. É um livro para ser lido e relido quantas vezes for necessário, e servir de consulta sempre para entender as opressões vivenciadas pelas mulheres negras e continuar a lutar.
Ah, lembrando que já tem mais uma obra da deusa Angela traduzida pela Editora Boitempo, que eu já estou louca para ler e quem sabe fazer outra resenha. O livro chama-se Mulheres, cultura e política, e já está a venda.

