Uma farsa universal

A Igreja Universal tem 6 mil templos, mais de 12 mil pastores, quase 2 milhões de fieis só no Brasil,uma emissora de TV, jornal próprio, muitos horários em outras emissoras de rádio e TV; no mundo, são cerca de 8 milhões de fieis e mais de 15 mil pastores, em mais de 105 países — mais, inclusive, que o Mc Donald’s.

É inegável que a Igreja Universal do “Reino de Deus” seja um fenômeno. E ganha do Mc Donald’s no número de “franquias” ao redor do mundo. É uma denominação neopentecostal de fast food, eu diria. Um fast food que vende como alimento a palavra de Deus de forma fácil e atrativa, enquanto oferece soluções rápidas e fáceis para todos os tipos de problemas. Tão prejudicial a quem consome quanto às guloseimas do Mc. A diferença é que a Igreja é mais desonesta em relação aos produtos que oferece.

Cultos de libertação, cultos para a família, para a vida financeira, para a vida sentimental… A cada dia da semana, um culto ou “produto” diferente, já que cada um é como se fosse um antídoto para determinada área da vida dos que recorrem. Promessas milagrosas são altamente procuradas por pessoas que têm suas vidas devastadas e acabam seduzidas pela fórmula oferecida pela instituição.

Após ter frequentado a igreja por 10 anos — obrigado por minha mãe — desde minha infância até à adolescência, um longo desabafo se fez necessário. No entanto, o faço com certo receio de que aquilo que eu venha escrever aqui seja lido com tom conspiratório em relação aos fatos e conclusões pessoais que tirei a respeito da igreja/empresa, seus líderes e suas ovelhas. O que escreverei aqui serão minhas impressões pessoais das coisas que observei durante todo este tempo em que fui obrigado a frequentar a igreja dos meus 7 aos quase 18 anos.

Durante a minha infância, eu vivi um drama familiar que levou minha mãe a recorrer a Igreja como uma solução. Meu pai era viciado em crack, e minha mãe, sofria muito com aquilo. Eu não tinha uma noção exata do que aquilo significava, mas ela me levava junto com ela para a igreja todos os dias, literalmente.

E os anos foram passando, até que eu chegasse à adolescência e comecei a sentir um desconforto crescente, à medida em que frequentava a igreja. Eu literalmente ficava enjoado e enojado com as coisas que via e ouvia, à medida em que eu expandia a minha consciência e passava a analisar a igreja de forma fria e racional, livre e isenta de qualquer apelo emocional ou religioso que a Igreja tanto reforça em seus seguidores.

De agora em diante, faço um desabafo sobre uma instituição religiosa capitalista, que institucionaliza a opressão sob diversas formas, e disfarça genialmente o seu discurso de ódio sob seus templos arrojados, cada vez maiores e suntuosos — que em nada se assemelham à simplicidade de Jesus — o líder que, supostamente, motiva o autointitulado bispo Edir Macedo e seus seguidores, que em nada se parecem com a figura humilde e inclusiva que Jesus, segundo a Bíblia, era.

A começar pelo ódio às religiões africanas, por exemplo. Não é novidade para ninguém que Edir Macedo e a IURD abominam as religiões afro enquanto impõem sua filosofia cristã capitalista e neopentecostal e legitimam seu discurso. Em 1997, Edir Macedo lançou um livro chamado “Orixás, cablocos e guias: deuses ou demônios?”, o qual, infelizmente, fui obrigado a ler devido à espécie de “doutrinação” pelos quais todos fieis certamente passam, sob diferentes formas.

O controverso livro em questão, supostamente, denuncia as manobras satânicas do espiritismo, umbanda, quimbanda, candomblé e outras vertentes destas religiões afro. Chegou a ter sua distribuição suspensa, pois contrariava os limiares da liberdade religiosa. Para a juíza Nair Cristina de Castro, a obra “extrapola os limites da liberdade religiosa, na medida em que não se restringe à explanação e divulgação das ideias próprias à religião que é adotada por quem o escreveu, mas sim se predispõe a tratar pejorativamente outra religião e seus adeptos, incitando à discriminação” [sic], mas no ano seguinte à decisão, o livro voltou a ser vendido, pois segundo a liminar, a decisão anterior feria o direito à liberdade de expressão conferido pela Constituição Federal.

O livro é um claro desserviço à religião e à espiritualidade em geral: incita o ódio, preconceito e desconhecimento sobre as religiões africanas, a fim de legitimar suas próprias manobras de manipulação. A igreja que outrora era perseguida pela Justiça e oprimida pela mídia, agora torna-se perseguidora e opressora de outros tipos de minoria.

E este é só apenas um episódio, dentre muitos outros que envolvem manipulação, exploração, subestimação e muitas mentiras. Há muito sobre o que falar. Há muito sobre o que apontar. Após uma década de doutrinação e lavagem cerebral, posso me considerar purificado daquele discurso perigoso travestido de honestidade e boas intenções. Mas como diz o ditado — é de boas intenções que o inferno está cheio. Mas deste inferno, eu posso dizer que estou livre. Não graças a Deus, mas graças ao dom do questionamento, que não é um dos 7 dons do Espírito Santo, mas que acabei adquirindo e através dele é que hoje posso me declarar liberto de uma farsa e orgulhosamente dizer que eu não sou a Universal. E dou graças a Deus por isso.

Amém.