Imersão no centro

Andar no centro de Alvorada, Rio Grande do Sul, significa estar sempre atento, desviar de cachorros, driblar pessoas cheias de sacolas e escutar discursos de pedintes nas paradas. Em menos de meia hora vagando pelo centro, dificilmente escapamos de pelo menos três destes quatro itens.

A avenida Presidente Getúlio Vargas — conhecida apenas como “a faixa” ou, para a parte do centro, “a 48” — atravessa toda a Alvorada: de Porto Alegre até o centro de Alvorada e depois Viamão. Em um asfalto com mais buracos do que asfalto, carros competem com pessoas quem vai mais rápido. Uns correm atrás do ônibus, outros contra o relógio.

Ainda que o centro da cidade conte com um bom número de lojas, finais de semana e feriados os lugares mais lotado são sempre as paradas de ônibus. Não importa se o parque de diversão chegou, se tem acampamento farroupilha ou feira do livro: o alvoradense, conhecido por acordar cedo para ir trabalhar em outras cidades, também sai da cidade para se divertir e, portanto, gastar.

Os moradores, principalmente os mais antigos que falam com propriedade “quando cheguei aqui tudo era mato”, sentem um pertencimento pelo município. É comum ver crianças empurrando mães e avós para dentro de lojas e do camelódromo.

Porém os mais jovens preferem Porto Alegre e os motivos são variados: diversidade de atividades e produtos, preços, necessidade de sair etc. Um movimento da comunidade promove alguns eventos na Praça João Goulart e chegam a ter uma aderência relevante do público jovem, entretanto a praça se torna uma extensão dos pátios das escolas nos dias de semana, uma vez que as escolas Salgado Filho e Castro Alves ficam em torno dela e boa parte dos alunos precisam cruzá-la para retornarem até as suas casas. As pessoas estão sempre indo a algum lugar.

Nos finais de semana, o público escolar dá lugar à famílias montando piqueniques e casais andando de mãos-dadas ou sentados em bancos. Uma pequena fila se estende nas sorveterias ou nas carrocinhas de lanches.

Assim o dia segue, as pessoas com os estilos mais diferentes compartilhando a mesma praça ou a mesma parada de ônibus: tradicionalistas, rockeiros, funkeiros, pagodeiros e alternativos. As coisas só começam a mudar quando o sol adormece à direita da Prefeitura Municipal. Logo carros rebaixados com som alto começam a aparecer, faróis e postes iluminam a avenida, a praça fica encoberta pela penumbra e a cidade experimenta um pouco mais de um estilo ostentação. Nesta troca de cenário, apenas as pessoas que correm em volta da praça são alheias.

Não podemos dizer que o centro de Alvorada é mais ou menos perigoso durante a noite ou o dia. Praticamente todos aqui crescem escutando o conselho: “há cada dez passos, olhe para trás”. O perigo sempre está à espreita e é comum a vítima se culpar por ter sida assaltada com frases como: “eu deveria ter prestado mais atenção”. Porém toda a prevenção do mundo e mesmo o posto da Brigada Militar ao lado da praça não são mais capazes de passar o sentimento de segurança para os cidadãos.

Alvorada recebeu este nome pelo alvorecer de seus cidadãos, mas o passar do tempo atribuiu novas virtudes aos moradores: eles são capazes de sorrir até mesmo diante da própria tragédia. As pessoas desenvolveram uma paciência para o bem mesmo quando embaladas pela pressa contemporânea e isto resultou num sentimento de esperança, uma esperança que faz um alvoradense não sair de Alvorada.

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