As angolanas brasileiras

A vida de três mulheres africanas que se cruzaram em SP

Colaboradora especial: Mariane Ussier
Mbudi Bervelina e Patrícia Pembele (Foto: Mariane Ussier)

“Eu vim aqui, porque tive muitos problemas na Angola”, desabafa Patrícia Pembele, angolana, 34 anos, mãe de três filhos e que está no Brasil há dois na condição de imigrante.

A angolana é uma das 260 milhões de pessoas que migraram de seus países de origem, segundo dados de 2015 da ONU. Esse contingente humano é caracterizado como o maior movimento migratório na história da humanidade.

No Brasil, os imigrantes somam 0,8% da população, segundo a Polícia Federal. Isso representa aproximadamente um milhão e meio de imigrantes e refugiados. Patrícia morava em Luanda, capital da Angola, e trabalhava com encomendas e organização de festas infantis.

Enquanto segura a caçula de dois anos no colo, que sofre de autismo, conta a estória da família. Antes, chama o filho mais velho para participar, Patrício, o menino herdou uma doença genética, o albinismo, e o terceiro filho ela não apresenta.

“Meu marido trabalhava na casa do General. O que me disseram não sei se é mentira ou verdade, você sabe como é, os homens são muito mentirosos”, começa a nos contar. Constrangida, expõe a traição do seu marido com uma das mulheres do General; “Ele negou, mas uma noite após uma ligação ele voltou atordoado, dizia. “Precisamos sair daqui agora!”.

Patrício, ao centro, com seus amigos na Casa do Imigrante. (Foto: Mariane Ussier)

A angolana justifica porque não saiu: não admitia ter que deixar sua casa sem ao menos um motivo. Naquela noite invadiram sua casa. Patrícia detalha a cena: “Estávamos a discutir quando tentaram arrombar a porta e entrar pelo telhado — que lá não é como aqui, é de chapa de alumínio — e meu marido negava, negava o que tinha feito”.

Os homens conseguiram finalmente entrar pelo telhado e, nesse momento, seu marido já tinha fugido pelas portas do fundo: “Ele pegou minha filha do meio que estava acordada e saiu”. No quarto dos filhos, Patrícia enfrentou os homens do General sozinha. Eles queriam saber onde estava seu marido e ela não disse por medo de o matarem.

“Bateram-me bastante, por três horas, até que perdi as forças e desmaiei. Quando desmaiei, só estava a ouvir de longe minhas crianças a chorar, a gritar, longe…”, conta serena a mãe, enquanto tenta acalmar Joice, a caçula, que berra em seu colo.

Garotada se divertindo. (Foto: Mariane Ussier)

Quando voltou à consciência, Patrícia, arrumou as coisas e foi embora de sua casa com os dois filhos. Comprou passagens para o Brasil e veio depois de uma semana. Não sabia o que ia lhes acontecer aqui, mas o medo de permanecer lá era maior. “Depois daquela noite nunca mais os vi. Eu tenho fé em Deus que minha menina está viva”, relata Patricia, emocionada.

Desembarcou no Rio de Janeiro, onde passou por muitas dificuldades, até conseguir chegar a ONG Missão da Paz por indicações. No fim de nossa conversa, termina com duas certezas: nunca mais voltar para Angola e não arranjar mais marido.

Patrícia em seu casamento em Luanda. (Reprodução: Facebook)

Assim como Patrícia, outros 110 imigrantes vivem na ONG. Vinculada à igreja católica, a organização é sustentada por quatro eixos principais, onde se dividem a parte social, jurídica, religiosa e educativa. Lá também está o Centro de Estudo Migratórios, mantido pela Arquidiocese da Liberdade.

Criada há 40 anos por um padre italiano, a instituição mudou de foco com o tempo. Primeiro visava ajudar imigrantes italianos; depois acolheu migrantes nacionais, como os nordestinos; e hoje foca, em sua maioria, os africanos.

Todas as quartas-feiras a ONG têm uma visita guiada para àqueles que se interessam em conhecer o trabalho. Durante a apresentação, Padre Paolo Parise, um dos quatro padres que administram o lugar, se dispõe a atender os visitantes.

Segundo o religioso, o abrigo incentiva os imigrantes a se inserirem no país por meio de algumas regras e iniciativas da instituição. Lá, com a ajuda de muitos voluntários, eles dão os primeiros procedimentos de documentos legais, recebem palestras sobre a cultura brasileira e oferecem oportunidades de emprego.

Foi na ONG que Patrícia Pembele conheceu Mbudi Bervelina e Donateia, também mulheres, negras, refugiadas, africanas e mães. As três moravam na Angola, um país governado pelo mesmo presidente há 33 anos, e há 27 anos em Guerra Civil.

Angola, nação com mais de 21 milhões de habitantes e uma das maiores economias do continente africano.

No pátio da ONG, elas conversam entre si e, ao serem questionadas sobre as desvantagens de sua cidade, consentem: violência e o preço alto por qualquer serviço (escola, saúde, transporte).

Luanda é conhecida por ser a cidade mais cara para se viver no mundo. Porém, a maioria da população luandese é pobre, segundo um estudo recente da AfrAsia Bank New World Wealth Report. As fortunas dos milionários luandenses valem 3% do total do continente africano. De qualquer forma, as vidas delas não se cruzaram por causa da pobreza, mas pelas questões femininas como a maternidade, e principalmente pela violência contra à mulher, ainda alarmante no continente Africano.

Segundo dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), as mulheres representam 30% das pessoas que migraram para o Brasil. A primavera das mulheres, movimento social que reivindica as condições de gênero, vive seu auge, e as questões femininas englobam todas as nacionalidades.

As mulheres sempre estiveram presentes entre os migrantes, mas os problemas associados ao gênero só se tornaram parte das discussões acadêmicas e midiáticas recentemente. E por isso surgiu o termo “feminização da migração”. O termo surgiu das implicações geradas pelo sexo feminino nesse contexto, ou seja, quais são as dificuldades dessas mulheres, suas relações de trabalho, autonomia.

Mbudi Bervelina, está há dez dias no Brasil. É angolana, tem 28 anos, é mãe de três filhos e tinha uma vida estável com seu marido na capital. “Fugi da Angola porque entraram na minha casa. O bandido entrou na quinta, sexta, sábado, levaram tudo e no terceiro dia me violentaram”, conta abaixando o tom de voz, ficando quase imperceptível. Ao contrário do Brasil, na Angola não existe nenhuma lei, nem política pública, que especifique violência de gênero.

Mbudi Bervelina. (Foto: Mariane Ussier)

A violência contra as mulheres africanas envolve todos os âmbitos: doméstica, sexual, práticas tradicionais nocivas — como a mutilação genital, casamento forçado e, em períodos de conflitos armados, a violência sexual é ainda usada como arma de guerra.

Depois de dois meses da série de assaltos e do estupro, Mbudi descobriu a gravidez. Com o apoio do marido, que assistiu ao estupro coletivo dos quatro homens, pagaram por um aborto.

Em Angola, o aborto é ilegal até em caso de estupro. Mbudi teve complicações no procedimento clandestino, o que a deixou 15 dias internada. “Quando sai do hospital, não consegui viver mais lá. Muito medo, tensão. Vivia dentro na igreja, não saia de lá, até dormia lá”, conta.

A angolana pediu ao marido que lhe enviasse para outro país. VEnderam então um terreno que tinham, mas o dinheiro não foi suficiente para todos. Resultado: seu marido não conseguiu vir.

A angolana, que era cabelereira no seu país , hoje vive na Missão Paz com seus três filhos, um casal de gêmeos de sete anos e um menino quatro anos, e aguarda vagas na creche e na escola para voltar a atuar. “No Brasil nunca mais senti medo. To a andar à vontade na rua”, Mbudi fala aliviada.

Pela condição financeira da família, tiveram que vir para o Brasil, porque as passagens são mais acessíveis, mas conclui: “Gosto daqui, gosto mesmo. Voltar para Angola não vou conseguir, não consigo mais”. Mbudi diz sentir muita falta de seu marido. Por fim, tem esperanças sobre seu marido. “Vou esperar até quando ele conseguir dinheiro, vou esperar”.

Os maridos estão presentes em todas as três estórias e a última não seria diferente. Mas, ao contrário das outras, o motivo de partida de Donoteia foi o amor: fugiu para viver com seu marido e achar um tratamento para sua filha.

Por questões religiosas, as famílias dos noivos não aceitaram o casamento e as brigas eram constantes. Donoteia, mesmo assim, casou-se aos 22 anos e logo tiveram a primeira filha, Delmira.

A menininha toda vestida de rosa, e com os cabelos trançados, escuta Michael Jackson no colo do pai, enquanto a mãe conversa conosco. “Eu vim para tratar Delmira, ela é um bebê especial, e lá não tem dinheiro para tratar”, conta a mãe com a voz cansada.

Marcia Ribeiro, assistente social, é especialista em psicopatologia da família, e coordenadora do período da tarde e noite da Casa do Imigrante. Ela explica o caso da família de Donoteia: “Toda gestação existe um histórico. Ela passou nove meses aflita com os problemas e ameaças da família do esposo, e começou a rejeitar esse filho”.

Sua gestação durou cinco dias a mais do que era previsto e isso resultou em uma falta de oxigenação no cérebro da bebê. Donateia conta que a filha não faz nada sem ela: não anda, não fala, não come e, por isso, espera ansiosamente a vaga na creche para poder trabalhar.

A menina está recebendo tratamento no Hospital das Clínicas e os pais se dizem gratos por isso, mas pretendem voltar para Angola um dia. Eles creem que a doença da filha é uma maldição dos deuses por terem se casado e sorriem toda vez que alguém a elogia.

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