Mogi contra a redução da maioridade penal e a violência na periferia

Fotos e texto: Pedro Chavedar

Foto: Pedro Chavedar

Sábado de manhã, 15 de agosto, num sol de rachar, algumas dezenas de mogianos se encontraram na Praça do Rosário — popularmente conhecida como Praça da Marisa — com três objetivos: bradar pela não redução da maioridade penal, pelo não esquecimento das recentes chacinas ocorridas em Mogi das Cruzes e se mostrarem contrários a violência contra os jovens negros da periferia.

Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi

Segundo o manifesto distribuído no local, assinado por vários grupos locais, de 21 de novembro de 2014 a oito de julho de 2015, foram registradas seis chacinas na cidade com 21 jovens mortos e 12 feridos. Os ataques aconteceram nos bairros da Vila Natal, Vila Brasileira, Jundiapeba, Caputera, Jardim Universo, Vila Nova União e Conjunto do Bosque.

“O que os nossos jovens precisam, tanto de Mogi das Cruzes quanto do país, é de mais investimento, precisam de uma educação de qualidade, precisam de lazer nos bairros distantes da periferia” disse Inês Paz, presidente municipal do PSOL.

Inês Paz, presidente municipal do PSOL (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

“A sociedade organizada ela tem que estar presente, ela não pode se omitir porque hoje é o filho de uma mãe do Caputera. Amanhã pode ser o filho de qualquer trabalhadora” alertou a ex-vereadora.

Inês Paz, presidente municipal do PSOL (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

O atual vereador e presidente da Comissão Permanente de Direitos Humanos da Câmara, Iduigues, do Partido dos Trabalhadores (PT), é totalmente contrário a redução da maioridade penal. “Nós vamos colocar no sistema prisional brasileiro jovens com 16 anos que irão entrar para a escola de pós-graduação do crime” profetizou o político, olhando para o horizonte junto com uma oratória clássica de seu cargo.

Sobre as chacinas, o petista pediu esclarecimento dos fatos e a punição dos responsáveis. “Quem tem que fazer justiça é o Estado, não o poder paralelo” clamou, sem alterar o tom.

Vereador Iduigues (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

Uma professora, com o punho em riste, disse que seus alunos estavam morrendo sem sabermos o que iria acontecer daqui para frente.

Dois jovens da Pastoral da Juventude, ligada à Igreja Católica, se colocaram contrários a redução pois seguem um “Deus que prioriza sempre a vida”.

Um homem com seus 50 e poucos anos lembrou que vivemos uma “naturalização do extermínio”.

Houve falas de que a “política militar faz uma limpeza étnica” e que “todos falam no impostômetro, mas poucos falam do sonegômetro”, lembrando do fato que os ricos sonegam muito.

Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi
Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi

Gustavo Don, coordenador do Fórum Mogiano LGBT, lembrou dos casos de violência por parte da polícia contra, principalmente as travestis, e fez coro contrário a redução da maioridade penal.

O jovem de 25 anos lembrou das dificuldades que têm para aprovar o Conselho da Diversidade Sexual junto ao poder Executivo: “A Prefeitura não tem nenhum diálogo com a gente”, relatou o coordenador. Segundo ele, há em Mogi casos de violência contra os LGBTs. Ele lembrou de um jovem que foi xingado e espancado depois de sacar dinheiro nas imediações do Parque Botyra. De acordo com Gustavo, a imprensa da cidade acobertou o caso.

Gustavo Don, coordenador do Fórum Mogiano LGBT (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

Jorge Paz, representante da Intersindical e candidato à vice-presidência na chapa de Luciana Genro pelo PSOL no ano passado, disse que há um “plano liderado pela elite branca par uma limpeza étnica”.

Um outro homem cravou que policiais militares estavam envolvidos na chacina ocorrida em Osasco.

Jorge Paz (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

envolvidos na chacina ocorrida em Osasco.

O sol ia esquentando e os oradores iam se revezando tanto no alto do caminhão quanto no chão.

“No lugar em que deveria estar sendo investindo em educação, cultura, políticas públicas para dar vida a essa juventude, está se matando e se prendendo ela. Que futuro que a gente quer para nossa juventude, pra juventude brasileira?” refletiu Mariana Fontoura, de 21 anos, gaúcha e ativista do Levante Popular da Juventude.

A jovem lembrou de uma “direita raivosa que saiu do armário” e que “sai para as ruas e vai bater panela”. Sobre a violência policial, foi taxativa: “As políticas militares são estaduais, mas a pauta é a mesma: é o extermínio, é entrar na favela, é matar, é prender”.

Mariana Fontoura, Levante Popular da Juventude (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

Com a tradicional camiseta do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), Thais Paz, também do Levante Popular da Juventude, subiu no palanque e já começou chutando tudo: “A política da redução da maioridade penal ela é uma grande falácia. Ela é uma política que busca legitimar essa política que a gente já vem acompanhando de extermínio da juventude negra e periférica”.

Para ela, quem organiza uma violência contra o jovem é o Estado. Defensora da desmilitarização da Polícia Militar, a jovem desconfia do que vem junto com o desejo da redução: “Quando aparece a política de redução da maioridade penal, vem junto um argumento que fala da privatização das instituições penitenciárias”.

Ela lembrou ainda do corte de 10 bilhões no Ministério da Educação: “A gente corta na Educação e quer reduzir a maioridade penal?”.

Esse questionamento também foi feito por Mariana: “O momento de um avanço conservador da nossa sociedade é que ao mesmo tempo que apresenta a pauta da redução, tira 10 bilhões de reais do ministério da educação, propõe a privatização das cadeias”.

Thais Paz, MST (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

Um dos pontos auges e emocionantes foi o depoimento de uma mãe. Lucimara perdeu seu filho Cristian de 17 anos em uma das chacinas. Seu filho estava com dois amigos sentados numa esquina enquanto comiam esfihas.

De óculos escuros e uma fala embargada pela emoção, Lucimara reiterou, diversas vezes, que seu filho não era envolvido com drogas nem com o crime. Ela já tentou se encontrar com a polícia para tentar entender a quantas anda o processo; disse também que estava recebendo um forte apoio da Apeoesp; e que, no momento, não tinha nenhum advogado.

Lucimara. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

Pouco antes do meio dia, a manifestação saiu da Praça da Marisa e partiu rumo ao Largo do Bom Jesus. Caminhando ao som de batuques da Pastoral da Juventude, os mogianos clamavam por justiça e pelo não encarceramento de jovens — principalmente negros, pobres e da periferia.

Rabicho Luiz, um dos gestores do Casarão da Mariquinha e um dos principais agentes culturais da cidade, faz um alerta: “ A gente não pode entrar num processo de retrocesso. Quem viveu a ditadura militar como eu sabe o quanto que isso dói e as pessoas tem que ter essa clareza”.

O ativista cultural acredita que vivemos um momento muito complicado na sociedade brasileira e que a juventude nacional está sendo exterminada.

Foto: Pedro Chavedar/EverydyaMogi
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Foto: Pedro Chavedar/EverydyaMogi

“A solução para tantos problemas está na atenção integral à criança e ao adolescente para acolhê-lo e educa-lo, através de políticas públicas que possam dar uma perspectiva de futuro a esses jovens” diz um dos parágrafos do manifesto distribuídos durante o ato.

Foto: Pedro Chavedar/EverydyaMogi
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