O mogiano não foi para a rua. Apenas 3.

Texto e fotografias: Pedro Chavedar
Domingo de sol, com poucas nuvens e uma temperatura agradável. O centro de Mogi das Cruzes ainda acordava quando as primeiras bandeiras verde e amarela começaram a ser penduradas em uma espécie de palco na praça Oswaldo Cruz, o marco zero da cidade. Estava começando ali uma manifestação convocada pelo movimento Vem Pra Rua, famoso por mobilizar milhares de pessoas contra a ex-presidente Dilma Rousseff. Mas na cidade, as pessoas não foram para a rua.

Ao contrário dos protestos anteriores, não se via barulho, apitos, gritos de ordem ou discursos. O número máximo de manifestantes chegou em oito pessoas. Entre eles, uma família: pai, mãe e dois filhos. As crianças vestiam as tradicionais camisetas amarela da seleção brasileira de futebol, assim como a mãe. O pai estava com as cores do país, porém, mais comedido. Todos se sentaram numa pequena mureta do jardim, observaram a pequena movimentação e logo partiram.
Restaram então três pessoas. Zélia, Jean e Sílvio. Os dois primeiros não quiseram comentar sobre a manifestação. "O Sílvio já disse tudo" me respondeu a mulher de meia idade que trajava uma camiseta amarela do movimento, um boné claro e mantinha longa trança no cabelo.
Ela se referia a recente conversa que eu acabara de ter com Sílvio, mogiano de 52 anos, líder comunitário no bairro do Itapety e líder do Vem Pra Rua na cidade. Seu rosto é já conhecido. Sílvio é aquele ativista que navega na onda da política pela internet com dezenas de vídeos em seus perfis. Ele se movimenta como uma camaleão: está em manifestações de estudantes secundaristas com um viés de esquerda; participou de um recente protesto na Prefeitura da cidade a favor dos comerciantes do centro; e milita num movimento dito de direita. Isso lhe rende algumas críticas e um certo esvaziamento de sua credibilidade.


No protesto de hoje, Silvio disse que estava ali "em apoio total a Lava Jato, pela renovação política para mudar esses atuais políticos que não estão representando de nada a sociedade brasileira, contra essas maracutaias ai que tão tendo na política, contra o distritão, contra o fundo partidário que eles estão querendo aprovar".
Houve críticas ao atual presidente Michel Temer, chamado de "bandido". "Tiramos um grupo de bandidos, que foi tirado através do impeachment da Dilma e entrou um outro bandido, ladrão, que já tá provado". E completou: "Infelizmente o país tem que seguir legislação e não se tira assim no tapa" completa Silvio.
O líder ainda criticou o Judiciário e o ex-presidente Lula, elogiou o juiz Sérgio Moro ("ele acabou pegando pesado, investigando e apurando e pegando pesado em cima desses políticos poderosos, ladrão, corruptos. Nós temos que dar todo o crédito e os parabéns ao juiz Sérgio Moro") e disse ser contra "qualquer político que seja ladrão".
Os três manifestantes conversavam timidamente e esperavam para que mais pessoas chegassem. Um senhor com uma camiseta do Che Guevara se aproximou e subiu no palco. Todos se cumprimentaram como velhos amigos e o papo se estendeu. "Não vim me manifestar não. Gosto de andar" disse o senhor.

Ninguém mais chegou. A manifestação se resumiu nas três pessoas. "O povo infelizmente está adormecido" disse o líder. "O povo reclama, reclama, mas fica em casa". E os mogianos realmente ficaram.
A manifestação não contou com mais nenhuma pessoa além das que já estavam por lá. Dois policiais chegaram quando tudo já estava acabado. No mais, nada. Sílvio lembrou dos 35 mil manifestantes na época do movimento Passe Livre, em 2013, das milhares pessoas em atos a favor do impeachment da ex-presidente Dilma, mas agora eram três. Por quê? "É a cabeça de cada pessoa. Você não consegue fazer uma avaliação do que tá dentro do cérebro de uma pessoa".
"Às vezes a pessoa não veio, mas ela tá lá se remoendo de raiva por causa da situação do país. O povo brasileiro é acomodado e espera que o outro faz (sic)".
Ao redor do palco, a vida continuava do mesmo jeito. Senhores sentados conversando sobre assuntos aleatórios; homens e mulheres bebendo e falando alto; lojas ao redor funcionando normalmente.
Os manifestantes talvez perceberam que o ato não sairia e começaram a se mobilizar para o grand finale: a queima de uma bandeira do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Você pode não entender nada o motivo para se queimar uma bandeira do PSDB. Mas te explico: Silvio foi um dos militantes da campanha do tucano em Mogi das Cruzes nas últimas eleições presidenciais. "Eu nunca apoiei o Aécio" me cochichou Zélia.
"Vou começar a queimar. A TV ainda tá ali?" disse Silvio, alto, como se dando uma explicação, e esticando os olhos para ver se o cinegrafista da televisão regional ainda estava pela praça. Não, ele já tinha ido embora.
Com certo ar de decepção, os três manifestantes se posicionaram em frente às bandeiras do movimento e desenrolaram duas outras bandeiras da campanha eleitoral do tucano. Um senhor foi pego totalmente desprevenido ao ser colocado como o responsável por segurar um dos mastros; a outra coube ao senhor com a camiseta do Che Guevara.

A manifestação seria passada ao vivo pelo Facebook. O clima estava montado: Jean segurou o celular, Sílvio se movimentou para ver a melhor luz e começou então a falar para seus seguidores (os virtuais, não os presentes).


Um isqueiro surgiu e o fogo começava a crescer. Silvio fazia críticas aos políticos, aos acordos no Congresso e, claro, a ex-presidente Dilma e ao ex-presidente Lula (que tiveram pixulecos jogados ao fogo). Sobrou até para o deputado federal e ex-prefeito de Guararema, Marcio Alvino (PR-SP).
Depois de alguns minutos, muita fumaça e o fim do live, o ato estava terminado.





