A amizade e o matrimônio

Falando de liturgia diária, mais uma vez chama-nos a atenção a complementariedade entre a primeira leitura (Eclo 6,5–17) e o evangelho (Mt 10,1–12).

Diante do trecho do Eclesiástico não há como não perceber o que salta aos olhos: antes de escolher seu cônjuge, você precisar encontrar seu tesouro, seu amigo, aquele que teme ao Senhor e o conduz em Seu caminho. Todos estamos carecas de saber que amigo é amigo e cônjuge é cônjuge (quando o casamento vira somente uma relação “entre amigos”, algo vai mal). “Amizade colorida” não existe, é só mais uma dessas “ficâncias” inventadas por quem não quer compromisso e responsabilidade. O cônjuge que é muito mais que um amigo, sem nunca deixar de ser amigo. Certo?

Então, se você quer um casamento que “dê certo”, eis o caminho (passeando pela primeira leitura):

Os teus conselheiros (e há algum maior que teu cônjuge, que Deus criou para ser justamente isso: teu apoio, tua ajudante?) devem ser escolhidos não na multidão, mas entre os íntimos, “um entre mil” — teu esposo, tua esposa — o único.

O amigo que persevera na provação é teu cônjuge. Nada une mais dois corações do que haverem chorado juntos as mazelas deste vida. Ele não vai embora, te abraça nas dificuldades, enxuga tuas lágrimas. É isto o que te dá mais segurança: ele está sempre ali, nos dias maus e bons. Isso se chama estabilidade (“bálsamo de vida”). É isto o que faz a confiança ir aumentado a cada dia, por isso o autor vai dizer: não te apresses em confiar nele. Não é um incentivo à desconfiança. É que, à medida que ele permanece, os dias vão mostrando que o que foi prometido (ah! as promessas!) é verdade, não foi da boca para fora, ele é digno do teu apreço, você pode entregar toda a sua vida em suas mãos. Sem confiança não há relacionamento autêntico e sem relacionamento, o casamento vai por água abaixo…

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Há um versículo revelador do drama e das dores do divórcio e da separação (e da “dureza de coração” dita por Jesus no evangelho):

Há amigo que passa para a inimizade, e que revela as desavenças para te envergonhar.

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O cônjuge é o “companheiro de mesa”, de cama, de roupa lavada, de banho nos filhos, da louça, dos estudos, dos passeios, da oração, da missa, das doenças, das mortes na família. É o companheiro da vida inteira. O cônjuge é aquele que nunca parte, mas permanece. A fidelidade é feita destas permanências. Ainda que esteja longe (e muitos podem testemunhar isso), o cônjuge é aquele que permanece e dá sentido até mesmo às longas esperas.

Por isso o cônjuge é uma poderosa proteção, é um tesouro. Um esposo fiel é um amigo fiel e ao amigo fiel não há nada que se compare, é um bem inestimável.

E este amigo fiel, o cônjuge, tem que ser buscado no Senhor, na oração:

os que temem o Senhor vão encontrá-lo.

O matrimônio feliz, realizado, também é no Senhor que deve ser buscado:

Quem teme o Senhor, conduz bem a sua amizade: como ele é, tal será o seu amigo.

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Tudo isso nos leva ao evangelho. Os fariseus querem por Jesus à prova e perguntam sobre o divórcio, apelando para a Lei Moisés:

“Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”

Mas Jesus sabe que no início ( e este início evoca uma enorme nostalgia no coração de Jesus) não era assim. No coração eterno de Deus não era assim. A vontade de Deus não era esta. O divórcio foi permitido por causa da dureza do vosso coração.

Por isso o Cristo, remetendo-se ao Gênesis, às origens do homem, pronuncia as definitivas palavras:

Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!

O homem e a mulher, no Novo Testamento, estão unidos por algo maior que a amizade. É uma coroação da amizade, mas é mais, é uma transfiguração da do amor humano em algo superior: um Sacramento. Os cônjuges estão unidos por um Sacramento, que é o Matrimônio. Já não são dois, mas uma só carne. Quem pode realizar esta união, a não ser Deus (“o que Deus uniu”)?

Portanto ao homem de coração duro não é permitido separar o que Deus uniu. O Sacramento do Matrimônio é indissolúvel, é uma aliança firmada entre os homens, com a Graça de Deus.

Por isso o Cristo, na intimidade, dirá estas palavras gravíssimas aos seus discípulos:

“Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar de seu marido e casar com outro, cometerá adultério”.

O matrimônio é uma aliança firmada em Deus. E com o amor divino não se brinca.