A parábola de Lázaro e do rico: um choque de realidade

“Lázaro e o rico opulão”, Louis Reau, Sec XVII

No evangelho de hoje (Lc 16,19–31), Nosso Senhor conta a parábola do pobre Lázaro e do rico opulento (para os nossos dias, “ostentação”). Enquanto Lázaro, provavelmente um leproso, passava fome e tinha o corpo cheio de feridas, o rico era pura ostentação:

“se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias.”

Mortos os dois (“a vida é um sopro”, é uma frase que tenho ouvido muito nesta quaresma), Lázaro vai para o “seio de Abraão” e o rico para a “região dos mortos”.

Nesta situação, o rico clama por alívio:

‘Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’.

Abraão responde que isso não é possível pois a situação que se estabeleceu é fruto da forma como os dois viveram na terra:

‘Filho, lembra-te de que recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado”.

Além disso, há entre eles um “abismo”. O rico insiste para que, então, o céu mande Lázaro avisar à sua família, para que também não caiam no inferno. Mas, de novo, Abraão responde que os vivos têm “Moisés e os profetas: que escutem!”

Mas o rico ainda insiste que, se um “morto” aparecer para eles, escutarão. Mas Abraão encerra:

“Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”’.

***

Estamos na Quaresma. O que a Igreja indica como exercícios quaresmais? Jejum, oração e esmola. Esta parábola nos leva direto ao coração do que significa “esmola”.

Encontramos muitos Lázaros caídos em nossas cidades? Nas instituições? Nos asilos? Muita gente precisando de nossa ajuda? Como agimos? Com indiferença? Fechando os olhos? Nos alienando nas telinhas de nossos celulares?

Você conhece algum Lázaro?

***

Qual a sua riqueza? Tem dinheiro? Bens? Empresas? Dons? Talentos? Possibilidades? O que Deus te deu? O que tem feito com isso? Qual a sua vocação? Fala bem? Escreve? Pode ajudar? Consegue escutar alguém angustiado? Quer ser padre? Quer rezar pelo mundo? Quer casar e ser pai? É médico, psicólogo, advogado, professor, vereador, deputado?

Quantos Lázaros dependem de sua profissão? Da habilidade de suas mãos? Da sua inteligência? Do seu abraço? Do seu tempo, da sua atenção?

Qual o sentido da sua vida? Pra quê Deus te colocou aqui?

***

“A vida é um sopro”. São Paulo vai dizer: “A figura deste mundo passa”. (1 Cor 7, 31). O rico achava que o dinheiro podia “salvar” a sua vida porque não enxergava nada além deste mundo. No fundo, era um mundano, um hedonista (“foge da dor, busca o prazer”). O pior é que o Papa Francisco disse, numa homilia, que este rico era provavelmente, um religioso (ao menos na casca):

“talvez fosse um homem religioso, a seu modo. Rezava, ia ao templo, oferecia sacrifícios e ofertas aos sacerdotes, que lhe davam um lugar de honra para se sentar”

O Papa também disse que a mundanidade é uma doença que impede, mesmo aos religiosos, de ver a realidade:

“Quando saía de casa, eh não … talvez o carro com o qual saia tinha os vidros escuros para não ver o lado de fora… talvez, mas não sei… Mas certamente, os olhos de sua alma estavam ofuscados para não ver. Somente via dentro de sua vida, e não percebia o que tinha acontecido a este homem, que não era mau: estava doente! Doente de mundanidade.
E a mundanidade transforma as almas, faz perder a consciência da realidade: vivem num mundo artificial, feito por eles… A mundanidade anestesia a alma. E por isso, este homem mundano não era capaz de ver a realidade”.

***

A realidade é muito mais do que podemos ver com os olhos físicos. Quando nos apegamos demais a este mundo, perdemos a perspectiva da eternidade. Deixamos de pensar em tudo que nos projeta para o mundo que fica além deste aqui: pecado, salvação, vida eterna, céu, inferno, julgamento, purgatório… Na verdade, até fugimos destes assuntos. Mas não adianta. Tudo isso faz parte da realidade. E também nós um dia vamos penetrar este mundo, queiramos ou não. O rico só foi pensar nisso depois da morte…

***

A parábola de hoje é um evangelho duro. Mas assim há de ser. Também nós precisamos de um choque de realidade.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Sérgio de Souza’s story.