Entrevista com Paulo Briguet

“Paulo Briguet é meu cronista favorito!” Quem acompanha O Camponês sabe que esse é um de meus ‘bordões’. Eu o leio como se conversasse com um amigo. Ele tem o dom de muitas vezes escrever o que preciso ouvir. Sou leitor assíduo de suas crônicas . As entrevistas que faço aqui nO Camponês são bate-papos com os autores sobre suas obras. Aquilo que perguntaria num café ou num bar…

Paulo Briguet parece ser o que revela em sua crônicas. Um homem simples e profundo. Seus textos são mergulhos no cotidiano. Política, religião, música, oração, família, a cidade de Londrinas… É um cronista que demonstra ter adquirido aquilo que Olavo de Carvalho chama de “a consciência da imortalidade”. Em tudo o que escreve encontramos um “fio de ouro” que remete ao infinito, ao além, ao transcendente. As orquídeas, o sol que nasce sobre Londrinas, os amigos, os encontros familiares, tudo tem um significado profundo em suas crônicas. Ao mesmo tempo, não é um ‘pregador’ (no mesmo sentido que, por exemplo, Bernanos, não era), é um homem das letras, fincado na realidade, observando com olhar arguto a condição humana e seus desdobramentos.

Briguet é um escritor que merece ser lido. Para minha surpresa, está escrevendo um romance. O que muito excitou minha curiosidade de leitor. Espero que não tenha, com esta minha intervenção, atrapalhado o silêncio tão necessário aos artífices da palavra.

Deixemos o homem falar:

- Você tem uma definição para crônica ou isso continua sendo um grande mistério?

Se fosse para arriscar uma definição, eu diria que cronista é o sujeito que nunca vai fazer greve. Jamais haverá um sindicato de cronistas, graças a Deus. Se os policiais ou motoristas de ônibus de uma cidade resolvem fazer uma paralisação, tudo vira um caos, como temos visto. Se todos os cronistas do mundo cruzassem os braços, não se perderia nada. Na verdade, não vejo nenhum grande enigma em torno da crônica. (Didi Mocó Sonrisal diria “eniga”.) É apenas um texto curto que antigamente se publicava em jornal. Existe uma lenda de que a crônica é um gênero brasileiro; Chesterton, Dostoiévski (do “Diário de um Escritor”) e Dino Buzatti teriam outra opinião. (Desculpe dizer isso a 20 dias da Copa, mas fatos são fatos.) Claro que temos ótimos autores do gênero, principalmente os meus queridos Quatro Cavaleiros — Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Carlos Oliveira e Nelson Rodrigues –, mas também há os ruins e os péssimos. Verissimo, coitado, é filho de um bom escritor e inicialmente mostrava algum talento, mas não escreve um texto voluntariamente engraçado desde os anos 80. De outros casos — Bosco, Brum, aquele japonês — prefiro nem falar. Felizmente, a internet nos fez conhecer jovens autores talentosos, tais como Felipe Moura Brasil, Flavio Morgenstern, Gustavo Nogy, André Simões, Yuri Vieira, Alexandre Soares Silva. Mas nenhum deles pode ser definido exatamente como cronista. São escritores, contistas, romancistas, articulistas, comentaristas culturais, analistas políticos. Fazem crônicas, mas não são cronistas. Porém (ah, porém…), como eu não quero andar na companhia dos citados anteriormente — Vrum, Tosco, Hashimoto –, vocês me deixam ficar aqui? Prometo que não mexo em nada.

- Jamais me esquecerei de um retiro para o qual levei o seu livro “Aos meus sete leitores”. Entre as meditações, lia suas crônicas. Algumas delas têm um forte teor católico tradicional. No que ser católico influencia sua escrita?

Sergio, meu querido Sergio, aproveito a chance para agradecer de coração o trabalho que você faz com O Camponês. É um dos pouquíssimos blogs que eu visito diariamente, sem exceção. Fico feliz por você ter lido meu livrinho, e espero não ter atrapalhado suas meditações. Acredito fortemente que a única esperança de salvação do homem é imitar Deus. E Deus é unidade. A Sua justiça é tão perfeita quanto o Seu amor, quanto a Sua bondade, quanto a Sua misericórdia, quanto a Sua inteligência, quanto a Sua beleza, quanto a Sua força, e assim por diante. Portanto, se temos duas qualidades, ainda que sejam pífias e imperfeitas, devemos nos esforçar por unificá-las. Eu sou cronista e sou católico. Não importa se eu sou um católico escritor ou um escritor católico; importa é imitar Jesus Cristo. Ademais, eu amo a Igreja. Ela não é só a maior mantenedora de hospitais, escolas, universidades e instituições de caridade no planeta. Ela inventou essas coisas. Tudo que é bom neste mundo — digo mais uma vez: tudo — tem a participação da Igreja. Liberdade individual; direito à vida; proteção às mulheres, aos velhos, às crianças; A Divina Comédia; o Padre Pio; até pela cerveja devemos agradecer aos monges. É o que eu já disse e escrevi inúmeras vezes: sem a Igreja, o mundo acaba.

- Como é o seu processo de escrita? Você escreve todos os dias? Carrega o famoso caderninho de anotações? Fica desesperado com prazos? É daqueles para os quais escrever é doloroso ou é uma atividade tranquila?

Escrevo todos os dias. Acordo à noite para escrever. Tenho, sim, vários caderninhos de anotações, e não me envergonho disso. Muitas ideias aparecem na hora do banho ou da aula de natação, e só nesses momentos é que perco ideias. Prazos? Aprendi a ter coragem de fazer coisas imperfeitas. Sempre dá certo. Desespero é uma palavra que não existe mais em minha vida. E espero que nunca mais exista.

- Quais são as suas principais influências como cronista?

Olha, não está escrito em lugar algum que cronistas precisam ser influenciados só por cronistas. Eu gosto de alguns autores do gênero — já citados lá em cima –, mas sou muito mais influenciado por aqueles autores que, sem exagero, me salvaram a vida: Bach, Caravaggio, Chagall, Santo Agostinho, Tolstói, Henry Miller, Eliot, Alexei Bueno, Olavo de Carvalho. Para fugir da eterna pecha de cronista, estou escrevendo um romance: “República Socialista do Brasil”. É um livro que conta a história de minha família e do país se os comunistas tivessem vencido em 1964. Bem, será que eles perderam mesmo?

Sabemos que você tem um carinho enorme pelo trabalho e pela pessoa do professor Monir Nasser. Passado um ano de sua morte, já se pode fazer uma análise de seu legado?

No futuro, José Monir Nasser e Olavo de Carvalho serão lembrados como os homens que salvaram o país. Serão reverenciados como aqueles que resgataram a vitalidade da cultura e da sabedoria quando tudo parecia perdido. Nem todo mundo sabe que eles foram muito amigos. Monir, que era um excelente economista, tornou-se professor e divulgador dos clássicos graças ao incentivo de Olavo. No dia 6 de maio, estive em Curitiba no lançamento do primeiro volume da série “Expedições pelo Mundo da Cultura”. Fiquei muito nervoso por ter de dizer algumas palavras em homenagem a um homem tão importante. Não cheguei a suar sangue, mas quase. Eu disse: “É possível sentir saudades de alguém que não se conheceu pessoalmente. Eu sinto saudades do professor Monir”. De fato, nunca me encontrei pessoalmente com José Monir Nasser. Ouvi suas palestras, assisti a seus vídeos, li seus livros, conversei com seus amigos, agora tive oportunidade de revisar e — suprema honra — prefaciar a série “Expedições”. Mas nunca o vi. Tenho um filho de 4 anos, o Pedro. E tenho a convicção de que ele já existia antes de ter nascido — só eu, na minha cegueira, é que não o percebia. Processo semelhante acontece com Monir. Sempre o amei, mesmo sem saber quem ele era.

Você é muitas vezes atacado pelas posições que assume como escritor. Você se considera um militante ou apenas um artista da palavra que observa a realidade e toma posições de acordo com sua consciência?

Fui militante de esquerda durante 14 anos, período que coincidiu com meu ateísmo. Na semana passada, uma vizinha me encontrou no elevador e disse: “Paulo, gosto quando você fala mal do PT e bem da sua família”. Ela pegou o espírito da coisa. Esses que me atacam gostariam que eu falasse bem do PT e mal da família. Ora, os petistas têm basicamente dois objetivos: destruir a inteligência do País e ficar no poder por 50 anos. Para conseguir isso, eles precisam atacar a instituição da família, que é naturalmente refratária ao controle social. Uma das palavras mais horríveis que existem na língua portuguesa atualmente é “empoderar”. O PT deseja “empoderar” todos que se opõem à família, último foco de resistência contra o Estado. Eles odeiam a família com todas as forças. Odeiam as mães — agora em São Paulo até querem acabar com o Dia das Mães! Se todos passassem a nascer de chocadeira, os petistas ficariam felizes, porque seria mais fácil controlar a consciência das pessoas. Eu não me entregarei em hipótese alguma — nem na morte, nem de parabelo na mão. Não nasci de chocadeira. Sou filho de Deus.

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