Por que Jesus cuspiu nos olhos do cego?

Sobre o evangelho de hoje (Mc 8,22–26), um amigo perguntou: “Por que Jesus cuspiu nos olhos do cego?”

Nem sempre os gestos de Jesus são tão claros. Nem sempre entendemos tudo à primeira vista. O meu pároco, o padre Jeferson, gosta de repetir que precisamos ‘ruminar’ a Palavra, demorar na meditação, rezar e estudar com ela.

Nas escrituras a água sempre é relacionada à purificação e ao Espírito Santo e, portanto, ao batismo. A saliva do Cristo é um sinal do batismo. É a água purificadora que sai da boca do Verbo Divino, o mesmo lugar misterioso de onde Jesus proclama a Sua Palavra. Esta água que sai do interior do Cristo é usada como um sinal da cura. É, com certeza, uma figura do sacramento.

Jesus, então, cura o cego. Evidentemente, quando opera uma cura física, Jesus não tem a intenção de ficar só no âmbito do corpo. O que ele deseja é a cura integral do homem, que envolve principalmente a alma, a esfera espiritual do homem.

O homem é levado para fora do povoado, tirado de sua ‘zona de conforto’, da sociedade em que estava inserido. Este homem cego precisou ser resgatado por Cristo deste meio para que começasse uma vida nova a partir do toque da graça. É provável que, de alguma maneira, aquela sociedade interferisse no estado doentio do homem. Jesus logo pede que ele não volte para a aldeia.

Dado o primeiro passo, é preciso ter a coragem de romper com o tipo de vida que vivíamos. Isso também faz parte da cura. Voltar para o mundo anterior pode significar manter-se prostrado ou escravo de uma situação. Assim foi com este homem. Assim é com muitos de nós. A outros, o Cristo vai pedir para que, mesmo rompendo com a vida antiga, voltem para o mesmo lugar e testemunhem a cura. Cada pessoa tem um chamado diferente. Deus conhece a cada um de nós.

***

É interessante notar que aqui a cura ocorre em etapas, é uma cura pedagógica. A visão é restaurada imediatamente. A cura física pode ocorrer em um instante, mas a cura espiritual é um processo, uma conversão. Depois do primeiro gesto de Cristo, a visão continua “turva”. Sem querer teorizar demais, mas uma das tarefas da filosofia é buscar a resposta sobre quem é o homem. Quem é o homem? O que é o homem? São João irá dizer brilhantemente:

Ele (Cristo) bem sabe o que há no Homem! (Jo 2,25)

São João Paulo II, na mesma linha, dirá que Cristo é quem revela o homem ao próprio homem: “Sem Cristo o homem se torna para si mesmo um enigma insondável.”

O cego do evangelho continua enxergando “homens como se fossem árvores”. Jesus precisava completar a obra começada. E então, impondo-lhe as mãos, devolve a visão completa: a física e a espiritual.

A partir de então, do encontro com Cristo, este homem (e nós, que recebemos a graça batismal), que já ‘sabe’ quem é Deus, pois se encontrou com o Verbo Encarnado, e tem a condição agora de enxergar o mundo e saber quem é o homem.

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