Fotografia Digital: Bonitinha, mas Ordinária?

por Ricardo Macêdo

Inicio este texto com a seguinte questão: o que é a estrutura da imagem e qual sua importância para a fotografia digital?

O biólogo chileno Humberto Maturana fez o seguinte paralelo para explicar a diferença entre estrutura e organização: reconhecemos uma cadeira, pois sua organização é composta por um encosto, um assento e quatro pernas, toda cadeira tem mais ou menos essa ordem. Contudo, a sua estrutura varia muito, pode ser de madeira ou de plástico, pode conter parafusos ou pregos, tem uma certa distância do assento para o chão, etc. Quem sabe algo sobre as estruturas das cadeiras são aqueles que aprofundam conhecimento sobre Design, Ergonomia, resistência dos materiais, etc. Com isso, Maturana quis dizer que dificilmente confundiríamos uma cadeira com um bule de chá, pois reconheceríamos sua organização, mas pouco sabemos sobre as estruturas das cadeiras.

Esse paralelo serve para nos perguntarmos se dedicamos algum tempo para compreender a estrutura das fotografias, ou seja: sua história, os aspectos compositivos das imagens, as teorias da imagem que atravessam o ato fotográfico, as inovações no campo digital e possibilidades de experimentações, por exemplo. Pois, às vezes, temos uma imagem inelutavelmente bela em sua organização, mas pobre em sua estrutura, já que a maior parte dos fotógrafos não aprofundam estudos sobre a estrutura da câmera e a estrutura da imagem, não estudam o universo da fotografia digital. Geram imagens belas sem dúvida, porém vazias de significado que dialoguem com seu presente contexto. Sem pesquisa, produzem imagens esvaziadas, com rótulos interessantes, atrativos e fascinantes, porém desqualificadas contextualmente falando.

Se formos ampliar mais a discussão, sabemos que bons fotógrafos e artistas visuais sempre buscaram como representar ou apresentar seus contextos históricos. Contudo, negando esse viés, a imagem respaldada pela beleza parece ser hoje a finalidade maior para muitos(as) fotógrafos(as). A beleza dessas imagens é, de certa forma, como as políticas de eventos em praças públicas: são auto promocionais, pois, servindo para erguer quem as executou, engorda o currículo viabilizando o status social.

Não estou querendo demonizar a relação entre imagens e dinheiro, nem entre imagem e ego do fotógrafo. O que quero problematizar é o lugar da imagem hoje, suas possibilidades experimentais, que atravessam a prática fotográfica e imprimem outras necessidades, como a de atualização do imaginário do fotógrafo por meio da pesquisa e da desprogramação dos paradigmas que tradicionalmente regem a prática fotográfica.

A busca pela beleza, visando fisgar o público através da fascinação pela imagem, gera procedimentos técnicos que nos prendem à programação da câmera e à necessidade de consumo constante de equipamentos de ponta — caríssimos, diga-se de passagem -, resultando em um deslumbramento com o aparato tecnológico e uma submissão às suas novidades.

É necessário problematizar esses aspectos, a ver: uma foto da lua, quando bem executada, por exemplo, é como outras milhões de fotos realizadas ao redor do mundo. Nesse sentido, uma questão deve ser levada em conta: houve processo de criação ou apenas conhecimento técnico do aparelho? Se o envolvimento com a lua, por exemplo, foi somente técnico e ocular, então não houve criação, apenas reprodução de um fragmento da realidade por meio de um filtro bem ajustado (configurações da câmera), que resultou numa imagem adequada mediante o desejo do fotógrafo.

Somente o conhecimento aprofundado do aparelho nos instiga a ir para além da programação da câmera. Segundo o filósofo Vilem Flusser, que também se debruçou sobre o tema, “as fotografias são realizações de algumas das potencialidades inscritas no aparelho. O número de potencialidades é grande, mas limitado: é a soma de todas as fotografias fotografáveis por este aparelho.” (FLUSSER, 2002). Logo, temos um problema: possuímos consciência dos limites técnicos e experimentais de nossas câmeras antes de fazer o disparo ou antes de substituí-las por outras mais avançadas? O Iphone é um exemplo claro disso, mal nos acostumamos a ele e logo o deixamos de lado quando lançada uma nova versão na qual a Aple eventualmente se concentra e acaba por colocar a geração anterior no ostracismo.

Flusser nos convoca a conhecer o aparelho para além de suas funcionalidades estampadas em seu programa, nos estimula a buscar “virtualidades ocultas no programa” (FLUSSER, 2002). Fotógrafos que sabem da técnica, contudo, “dominam o aparelho, sem, no entanto, saber o que acontece no interior da caixa preta” (FLUSSER, 2002), produzem que tipo de imagens? Temos as mesmas fotos da lua, as mesmas fotos do Cristo Redentor, com as mesmas configurações nas câmeras, mesmos ângulos, mesmo enquadramento… mesmo tudo. Somos nesse sentido, programados pelos programas da câmera, sem nem ao menos desconfiar disso, pois, qual nosso critério? Somente que as fotos fiquem bonitas e atraentes. Vejam as fotos abaixo de autores diversos, que coletei na internet:

Fotos do Cristo Redentor e da Lua (Créditos | Internet)

Assim sendo, a prática da fotografia, pede mais do que uma bela foto. Pede intervenção criativa no sistema conhecível e para que conheçamos um sistema, temos de estudar não só sua técnica, mas sobremaneira, a estrutura de sua linguagem. Ou mesmo, explorar novas possibilidades técnicas ofertadas pelo meio digital mais suportes digitais (lap tops, tablets, programas como o Photoshop, etc.). A esperança é de que das novas gerações que já nascem com o tablet na mão, venham fotógrafos mais experimentais e menos submissos à técnica tradicional do ato fotográfico. Uma geração que já nasce questionando os limites do aparelho e se diverte distorcendo e subvertendo a ordem nele inscrita.

Este texto é uma provocação para que repensemos nossa relação com a máquina fotográfica digital.

Referências:
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

Ricardo Macêdo é artista visual e professor do Núcleo de Arte da FAOP.