A Libélula e o Prisioneiro

Dia desses voltei ao pesadelo que há mais de década não era forçado a viver: repartições públicas. Apenas protocolizar uma petição, mais nada. Uma chancela mecânica, um carimbo, feito. Mas, eu disse repartição pública. Entrei, ninguém na fila e pensei: “Paulo Coelho tem razão, o universo conspira a favor”. Dirigi-me à periguete do guichê.

-Ela não está, hora de almoço, só volta às 14h.

Olhei o relógio, 13h15. Sei lá quem era ela, mas, respirei, pensando: “É uma repartição pública, não tente entender. Maktub.” Na margem do guichê eu sentei e chorei no whats app para minha esposa: “Adivinha?”. E ali fiquei a observar, meditar, divagar.

Ninguém mais na sala. A periguete no seu celular, eu, no meu; de vez em quando, entrava uma libélula. Sim, uma libélula. Claro, eu era seu alvo preferido, exigindo toda minha ninjidez inexistente. Nunca ia pra cima dela, logo, só podia ser uma louca, uma deusa, uma feiticeira, ou seja, uma valkíria.

Algumas pessoas apareceram, dirigiram-se ao guichê para fazer o mesmo que eu, só que, como não trouxeram por escrito, ela tinha de colocar a termo, digitar o que havia para ser digitado e protocolizado estava. E os vencedores iam embora, sem dar por mim, sem compaixão, sem um olhar de adeus.

13h34. Verônika decidiu morrer, mas, eu, alquimista velho, aguardei alguns minutos, levantando-me.

-Ela já chegou?

-Você viu alguém passar por aqui e entrar?

Respirei, agradeci, sentei. A libélula. Caí da cadeira. A puta riu. “Apenas protocolizar uma petição, mais nada”, sorri, tentei fazer piada, ignorou-me. Desisti. Celular, timeline.

13h46. Sou brasileiro, tentei de novo: “Gostaria de fazer um protocolo.” Ela me olhou como a libélula:

-Ela ainda não chegou.

-Mas quero fazer como os outros, oralmente.

-É a mesma coisa que está escrita aí no papel?

-Nãããão, lembrei de outra agora.

-Ela não chegou, pensa que sou trouxa?

Penso, pensei. 14h08. Uma senhora entrou, passou por mim, adentrou uma porta encantada e desapareceu. Não ousei. 14h15.

-Me dá aqui que ela chegou.

A petição retornou, só um carimbo, nenhuma assinatura, mais nada, feito. “Quem deseja ver o arco-íris, precisa aprender a gostar da chuva.”, pensei, saindo, com a luz do sol quase me cegando.

Lá fora, a libélula me esperava.