Em Busca de Sentido

“Quedate tranquilo, chiquito, tranquilo”

Sou católico, talvez na pior época para ser. Na era das catacumbas, das perseguições, do martírio, ao menos sabíamos quem deveríamos tentar ser e fazer e reconhecíamos os nossos irmãos e pastores. Hoje, a confusão reina dentro de casa, divisões inúmeras, conflitos constantes e o fiel já não sabe bem em quem confiar. Já faz tempo está assim, eu sei, mas parece piorar a cada dia que passa. Por prudência, quer dizer, minto, por medo e saco cheio, evito acompanhar as discussões infindáveis, mais ainda quando se trata do que o Papa Francisco teria dito ou escrito e depois esclarecido ou explicado para ser de novo questionado e assim vai.

Quando se vive na confusão das línguas, é preciso se orientar de outra forma, não mais pela palavra, seja de quem for. É o que tento fazer. Por exemplo, sobre o Papa Francisco. Lembro que no dia em que a fumaça branca surgiu da famosa chaminé do Vaticano, horas antes algo curioso ocorreu e me chamou muito a atenção, embora não soubesse bem por quê: uma gaivota pousou sobre essa chaminé famosa:

Eis a gaivota e a famosa chaminé, no dia do anúncio.

Isso foi noticiado como mera curiosidade, mas eu achei mais significativo e corri ao famoso dicionário de símbolos de Chevalier e Gheerbrant para saber que significados a gaivota possuiria. Havia apenas um registrado, dado pelo mito dos índios lilloets, da Colúmbia Britânica. A gaivota, nesse mito, era a proprietária primitiva da luz do dia, que ela conservava, por ciúme, dentro de uma caixa. Pensei comigo: “luz do dia, deve ser bom sinal”. E vi aquilo com bons olhos.

2013 passou, trocentas confusões aconteceram envolvendo o Papa e chegamos no dia 26 de janeiro de 2014. Na hora do Ângelus, o Papa se fez acompanhar de duas crianças e depois de rezar pela paz na Ucrânia, soltaram duas pombas, símbolo óbvio da paz rogada. Mas eis que um corvo e uma gaivota atacaram as pombas, com a última conseguindo capturar uma delas:

Na hora lembrei que não foi o primeiro ataque a pombas soltas por um Papa. O mesmo ocorrera com Bento XVI, dias antes dele renunciar, em 2013:

Fui pesquisar mais para ver se não era comum esse tipo de coisas no reino das aves. Parece que os bichos albinos, puramente brancos, como essas pombas, são alvos fáceis para predadores, por se destacarem mais, por isso não costumam durar muito. Como gaivotas e corvos são predadores possíveis dos pombos, estaria tudo explicado.

Estaria, se você desconsiderar o contexto simbólico dos eventos. Decidi reler o significado da gaivota e do corvo no dicionário de símbolos. Aí tomei um susto. Porque no tal mito lilloet a gaivota é aliciada por um corvo! Na história, um corvo consegue convencer a gaivota a abrir a caixa onde guardava a luz, usando de astúcia, dizendo ser para benefício da humanidade. Em seguida, o corvo organiza uma expedição ao país dos peixes, a bordo da barca de luz da gaivota, para conquistar o fogo.

Ih, rapaz… Uso de astúcia, conquista do fogo, tal qual Prometeu, daí a barca de Pedro, digo, de luz, sendo usada para conquista… Mau sinal, mau sinal. Como parece ter sido mau sinal também aquele raio que caiu sobre a cúpula da Basílica de São Pedro horas depois da renúncia de Bento XVI:

Como não lembrar das palavras de Jesus em Lucas 10,18: “Eu vi Satanás cair do céu como um relâmpago”. Enfim, como os dois Papados estão intimamente relacionados, difícil não ver nessas coisas mais do que simples fatos naturais. Seria o Papa Francisco, então, a gaivota seduzida pelo corvo? Estaria a barca de Pedro a serviço das trevas? Não falta quem pense assim por aí.

Mas às vezes um charuto é só um charuto. Tudo poderia ser apenas pura coincidência, nada mais. E interpretação de símbolos sempre pode ser feita em sentido contrário. Ou seja, não poderiam esses fatos significar a luta dos Papas contras as trevas, contra os corvos que tentam conquistar o poder do fogo? Não seriam eles, como as pombas, vítimas dessa eterna batalha espiritual do Bem x Mal? Francisco, aliás, escolheu seu nome não apenas pelos pobres, mas também por ser São Francisco o santo arquetípico da busca pela paz.

Como saber, então?

Bem, um fato natural pode ser apenas um fato natural, mas um fato sobrenatural não deixa escapatória: significa. Você conhece a história de São Januário? Ele era de Nápoles, nascido em 270 d.C. Em 302, foi ordenado sacerdote e, pouco depois, para Bispo de Benevento. Quando, em 304, o imperador romano Diocleciano começou sua cruel perseguição aos cristãos, obrigando os fiéis a oferecer sacrifícios às divindades pagãs, São Januário foi preso por Dracônio, governador da Campânia, por se recusar a realizar tal oferenda. Logo, foi condenado à morte, porém…

O santo foi lançado numa fornalha ardente, mas, tal qual na história dos três israelitas de que fala o Antigo Testamento, São Januário saiu ileso do fogo. Acusado de magia, São Januário foi lançado às feras na arena. Adivinha? Os leões, tigres e leopardos famintos correram em sua direção, mas, em lugar de despedaçá-lo, prostraram-se e começaram a lamber seus pés. Aí resolveram decapitar logo o homem para não correr mais riscos, já que o povo começava a pedir clemência.

São Januário, por Caravaggio.

Segundo relato das crônicas da época, uma piedosa mulher recolheu em duas ampolas o sangue que escorria do corpo de São Januário. Seus restos mortais se encontram em Nápoles, na Catedral local. E ali acontece, duas vezes por ano, no sábado que antecede o primeiro domingo de maio, aniversário da primeira transladação do corpo do santo, e a 19 de setembro, festa do seu martírio, a liquefação do seu sangue dentro das ampolas.

Tudo acontece numa cerimônia com grande pompa e esplendor. As relíquias são expostas ao público e se a liquefação não se verifica imediatamente, iniciam-se preces coletivas. Se o milagre tarda, os fiéis compenetram-se de que a demora se deve a seus pecados. Rezam então orações penitenciais, como o salmo “Miserere”, composto pelo Rei Davi. Quando o milagre ocorre, o clero entoa solene Te Deum e a multidão agradece com efusividade, os sinos repicam e toda a cidade se rejubila.

A notícia escrita mais antiga e segura do milagre consta de uma crônica do século XIV. Desde 1659, estão rigorosamente anotadas todas as liquefações, que já perfazem mais de dez mil. Apenas em duas ocasiões a liquefação se deu fora dessas datas. Uma, em 1848, nas mãos do Papa Pio IX, e outra faz pouco tempo, em março de 2015, nas mãos do Papa Francisco:

O que isso quer dizer? O fato é inegável. As justificativas dos “cientistas” para dizer que a liquefação se explicaria por tixotropia (googleie, ok?), ou seja, sempre que as ampolas fossem manipuladas o sangue se liquefaria, não se sustenta pelo simples fato de que não foi sempre que isso ocorreu quando foram manipuladas. Bento XVI, por exemplo, pegou as ampolas nas mãos e nada aconteceu.

Então, o que isso quer dizer? Para mim, o mais significativo nesse caso do Papa Francisco foi o fato do sangue não se liquefazer por inteiro, mas apenas pela metade. É aí que, no meu entender, reside a chave para a compreensão do seu Papado. A metade liquefeita parece sinal claro de que ele não seria um herege, um agente de Soros no Vaticano ou sei lá mais do que lhe acusam por aí. Por outro lado, a metade não liquefeita demonstra com igual clareza que não é o santo jesuíta que faz tudo com acerto e grande sabedoria pastoral, como outros tantos gostam de acreditar.

A ambiguidade do Papa Francisco, as dúvidas legítimas que seus discursos e ações suscitam nos fiéis, colocam a todos num estado de dúvida permanente. Sobre viver em estado de dúvida, aprendi com Olavo de Carvalho que “O aprendizado é impossível sem o direito de errar e sem uma longa tolerância para com o estado de dúvida.” Eis algo que tanto as cheerleaders do Para Francisco quanto seus algozes têm em comum: não têm dúvidas sobre o Papa. Acontece que dúvidas é só o que podemos ter sobre ele.

O que fazer, então? Ensinava Viktor Frankl que o homem suporta tudo, menos a falta de sentido. O sentido do estado de dúvida está em suportá-lo, na esperança de que, um dia, ela será solucionada. Enquanto isso, acho que não temos outra coisa a fazer senão seguir o que o próprio Papa Francisco disse quando o sangue do santo se liquefez pela metade: “O Arcebispo disse que metade do sangue se dissolveu: vê-se que o santo nos ama pela metade. Devemos converter-nos mais para que nos ame mais.”

Sobre conversão, gosto muito de uma frase do padre Antônio Vieira: “Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro de si e ver-se a si mesmo?” Taí um bom começo. Mais olhar para a própria miséria do que à miséria papal. Desta, tenha certeza, Deus está cuidando, ainda que não seja como você gostaria que Ele agisse.