IDEOLOGIA: SER FAVELADO É UMA IDEOLOGIA EM SI

Esquerda? Direita? Comunista? Liberal? Hip hop? Crente? Ostentação? O que cada ideologia trouxe de benefício para a população favelada? Muita coisa. O mais justo é admitir que todas elas influenciaram e continuam influenciando a favela. Essa “colcha de retalhos” de pensamentos e proposições trouxe a favela até o seu momento atual. Muito já se caminhou, mas muito ainda se precisa caminhar pra superarmos as desigualdades e alcançarmos um mínimo de dignidade existencial (aquela que é a essência de todas as outras).

Diante dessa proposição interna e da situação caótica da política brasileira atual, surge fortemente a necessidade de a favela se libertar de qualquer tipo de tutela ideológica, e olhar para frente, no sentido da criação de um novo momento ideológico próprio que signifique um novo pacote de avanços. Para si e consequentemente para o Brasil.

No senso comum, o termo ideologia é o conjunto de visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo, orientado para suas ações sociais e, principalmente, políticas. Sendo assim, entendemos que já passou da hora de assumir que ser favelado é uma ideologia em si. O recorte territorial da favela como gerador de uma “ideologia da vivência” nos parece, acima de tudo, legítimo. Nos parece também essencialmente mais transparente (leia-se “honesto”) em relação a quem de fato está por trás de cada fala. É nessa hora que o “lugar de fala” descobre seu mais profundo sentido.

Em última instância, é a pele, sua história e sua identidade, suas dores e seus sonhos, gerando compromissos e consequentemente ação política. Não acreditamos mais em discursos internacionais herdados, retóricas desgastadas e ideias viciadas. Tudo isso faliu, e buscamos uma nova política.

Assim, ser gueto e estar “fora do sistema” é pela primeira vez estar “livre do sistema”, sem amarras. No fundo, a favela não faz parte da política hegemônica que acaba de falir diante de todos. Não somos o centro. Em muitos lugares, somos chamados de “periferia”. Não fazemos parte dos acordos financeiros e não temos offshores. Daí o que era exclusão agora se transforma em oportunidade de uma “inclusão limpa” e liberdade de ação.

Entendo assim que, na política, a FFB, pela expressão espontânea do seu DNA de base, tende a seguir a dinâmica já expressa pela favela em outros campos. Com sua autoestima criativa, a favela brasileira sempre impôs fortemente seus códigos de ressignificação. Com isso, quero dizer que ela não absorve servil e integralmente nenhum valor “externo”, ela não “compra” ideias que não se adequam à sua realidade cotidiana.

Para usar um conceito amplamente compartilhado, a favela é antropofágica: absorve, reprocessa, vomita o que não lhe cai bem e fica com o que deseja. Seja no campo da tecnologia, da moda, do afeto, da religião, da economia, etc. Ela cria sua própria “moda”. A favela criou e chama de funk algo que James Brown jamais imaginou. No campo ideológico político, não será diferente. Ideologia: favela.

Somos, no entanto, conscientes da sinergia de alguns de nossos objetivos com os tradicionais objetivos dos movimentos de esquerda. Estamos, mesmo assim, atentos para avançar em todas as direções sem herdar velhas contradições.

a) O pensamento de um partido de favelas nasce livre dos vícios políticos, tanto financeiros como de representação. As proposições da FBB serão estabelecidas por um coletivo favelado, através do “pacto das periferias”, ideologia de recorte territorial, e não pelo autoengano do militante animado pelo sentimento de sua própria pureza moral. Os representantes serão eleitos internamente e monitorados pelo coletivo. Entendemos que o desvio é do ser humano antes de ser do sistema. Entendemos que lidar frontalmente com essa realidade pode levar nossos sonhos mais longe. A favela tem tudo para mais uma vez, através desse novo modelo, ocupar seu papel de modernidade e ousadia nesse país. (AQUI FALTA NAO APESAR DIZER QUE SOMOS DIFERENTES, MAS COMO SEREMOS DIFERENTES)

b) Esse partido tem a oportunidade de reapresentar a política para os brasileiros. E vice e versa. A favela não quer apenas ganhar esse jogo, quer mudar o jeito de jogar. A FFB pretende construir avanços na ordem social, em mediação constante com as instituições existentes, sem jamais desconsiderar e subestimar os parâmetros constitucionais.

Chegou a hora de inovar na política. E quem tá no olho do furacão (na maior fissura do sistema) tem percepções únicas sobre caminhos a seguir.

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