Entre o céu e o inferno: boicotado pela NFL, Colin Kaepernick ressurge em campanha publicitária da Nike

Gabriel Menezes
Sep 4, 2018 · 5 min read

Colin Kaepernick é um nome bastante conhecido para quem acompanha o futebol americano. Na NFL, foi um dos grandes destaques da liga nas temporadas 2012 e 2013, quando brilhou como quarterback do San Francisco 49ers. Apesar disso, não joga desde o fim da temporada 2016, quando optou por deixar a equipe que o draftou na segunda rodada em 2011.

O principal motivo para isso - além de uma vertiginosa queda de produção - é o fato de que o QB começou, durante a pré-temporada de 2016, uma série de protestos durante o hino nacional dos Estados Unidos, tradicionalmente tocado antes das partidas. A razão foi uma série de acontecimentos que culminou no surgimento do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), quando Kaepernick quis protestar contra a desigualdade racial e violência policial.

Kaepernick ainda jogando pelos 49ers (Foto: AP)

Desde então, o atleta vem sendo mais lembrado por conta de seus protestos, estando sentado ou ajoelhado durante o hino, do que por sua performance no campo. Quando se tornou agente livre, no começo da temporada 2017, não assinou com nenhuma equipe, mesmo sendo praticamente um consenso de que Kaepernick teria espaço - ao menos como reserva - em diversas franquias da NFL.

Razões para protestar e repercussão da postura de Kaepernick na NFL

“Eu não vou ficar de pé para mostrar orgulho por uma bandeira de um país que oprime negros e pessoas não-brancas. Para mim, isso é maior que do que apenas futebol e seria egoísta de minha parte fechar meus olhos. Existem corpos nas ruas e pessoas se livrando de assassinatos”. Foi com essas palavras duras que Kaepernick se justificou após partida de pré-temporada do San Francisco 49ers contra o Green Bay Packers, em agosto de 2016.

Kaepernick ajoelhado ao lado do safety Eric Reid, que também vem sofrendo retaliações das equipes da NFL (Foto: Getty Images / Thearon W. Henderson)

As reações não haveriam de ser menores, tanto em apoio, quanto contrárias. Segundo o quarterback, ele recebeu até mesmo ameaças de morte, como contou uma reportagem da Al Jazeera. Jim Harbaugh, ex-técnico de Kaep nos Niners, e Jerry Rice, um dos melhores wide receivers da história, foram a público para apoiá-lo, assim como Dale Eanhardt Jr, um dos maiores nomes do automobilismo estadunidense. Bill Russell, lenda do basquete, publicou uma foto onde ajoelhava com a sua “medalha presidencial da liberdade”, maior condecoração que um civil pode receber nos EUA.

Bill Russell, um dos maiores nomes do Boston Celtics, apoiando Kaepernick (Foto: Reprodução/Twitter @RealBillRussell)

Tal condecoração foi entregue a Russell por Barack Obama, que também declarou apoio ao protesto pacífico e silencioso de Kaepernick. Seu sucessor na Casa Branca, entretanto, é uma das maiores vozes contra tais protestos. Donald Trump já utilizou suas redes sociais e seus palanques por diversas vezes para tentar ordenar a Roger Goodell, comissário da NFL, pela demissão sumária de todos os atletas que resolverem protestar durante o hino. Um executivo da NFL, em depoimento anônimo, o chamou de “traidor”, segundo reportagem do Bleacher Report. Já com Kaepernick fora dos holofotes, o dono do Dallas Cowboys, Jerry Jones, anunciou que deixaria no banco qualquer jogador que protestasse em seu time.

Kaepernick inflamou outros atletas, até mesmo fora da liga, a protestar também

De formas distintas, diversos outros jogadores da NFL tomaram parte nos protestos. A maior parte deles, claro, era negro. Seja ajoelhando ou permanecendo sentado durante o hino, dando os braços, ou levantando o punho *- em clara alusão a gesto popularizado pelos Panteras Negras, como fizeram Tommie Smith e John Carlos fizeram na Olimpíada de 1968 *- atletas de renome como Marcus Peters, Brandon Marshall, Martellus Bennett, Mike Evans, Malcolm Jenkins e até mesmo a lenda Ray Lewis, já aposentado, estiveram envolvidos nos protestos.

Marcus Peters repete o punho cerrado (Foto: Kelvin Kuo/USA Today Sports)

Fora dos campos de 100 jardas, o destaque fica para Megan Rapinoe, uma das grandes jogadoras de futebol do país, que também se ajoelhou em mais de uma ocasião, com seu time e com a seleção. Bruce Maxwell, catcher do Oakland Athletics, também protestou em partida da MLB, levando a luta por igualdade racial a mais um esporte, sendo apoiado pela franquia onde joga.

Rapinoe ajoelha durante hino nacional antes de partida da Seleção Feminina de Futebol dos EUA (Foto: AP/John Bazemore)

Na NBA, o apoio foi mais discreto, com os times se mantendo de pé para o hino nacional, mas com diversos jogadores se manifestando favoráveis ao protesto de Kaepernick, incluindo LeBron James, maior nome da atualidade, e também Kevin Durant, outra superestrela da liga de basquete norte-americana.

A volta dos que não foram: Kaepernick estrela campanha da Nike, que sofre com críticas e queda de ações

Em 2018, a Nike comemora 30 anos do slogan “Just Do It”, conhecido mundialmente e diretamente ligado à empresa. O garoto-propaganda escolhido foi justamente Colin Kaepernick, que tem contrato com a fornecedora de material esportivo desde 2011, quando foi draftado pelos 49ers. Com sua ausência na liga, muitos poderiam pensar que a empresa havia encerrado o patrocínio.

A campanha da Nike em 30 anos do slogan “Just do it” (Foto: Reprodução/Twitter @Kaepernick7

Ledo engano. Mesmo sem utilizá-lo em campanhas, o mantiveram como patrocinado, segundo o repórter Darren Rovell, da ESPN, que também divulgou palavras do vice-presidente da marca, Gino Fisanotti: “”Acreditamos que Colin é um dos atletas mais inspiradores dessa geração, que conseguiu utilizar o poder do esporte para ajudar a mover o mundo em frente”. A empresa também é fornecedora oficial da NFL e renovou o contrato com a liga por mais dez anos ainda em março de 2018, o que ajuda a reacender o debate e causar certa pressão sobre Goodell.

Rapidamente, milhares de consumidores utilizaram as tags “JustBurnIt” e #BoycottNike para protestar. Alguns chegaram a publicar vídeos queimando itens da empresa. As ações da Nike, aliás, também caíram quase 3% após o anúncio da campanha, ainda que grandes nomes do esporte -* como LeBron James, Paul George, Jarvis Landry *- tenham republicado a imagem em suas redes sociais, como forma de apoio. DeSean Jackson fez questão de utilizar os stories de seu Instagram para publicar um tweet de um militar estadunidense que pede para que não utilizem as tropas como “desculpa para queimar suas coisas da Nike”.

Gabriel Menezes

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Jornalista. Por aqui, se lê futebol italiano, alguma coisa de futebol brasileiro, e pautas “fora da caixinha”

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