A maldição do petróleo

A seguir, faremos uma discussão a cerca da atual crise na indústria do petróleo fluminense e como esta afeta a economia nacional e do estado do Rio de Janeiro, baseada na palestra “A evolução do preço do petróleo e seus impactos sobre a economia nacional e do Rio de Janeiro”, apresentada no dia 20 de abril de 2016 pelos professores da UFRJ: Edmar Almeida, Helder Queiroz, Marcelo Colomer e Ronaldo Bicalho.

O atual cenário da indústria de petróleo levanta discussões sobre a mudança na matriz energética. Muitos argumentam que o petróleo é uma fonte de energia ultrapassada, e que a prioridade deveria ser investimentos em fontes de energias alternativas, que utilizem recursos renováveis. Porém, como o combustível fóssil ainda corresponde a aproximadamente 70% da fonte de energia no mundo, que está estruturalmente adaptado ao uso dele, e esse cenário não deve se alterar nos próximos cinquenta anos, o petróleo ainda é um recurso importante e estratégico. Portanto, ainda que a matriz energética se altere no futuro, ainda há muito a se aproveitar deste recurso economicamente.

O mercado internacional de petróleo se encontra em dificuldades: diversos fatores contribuem para a queda do preço do barril. Devido a uma desaceleração da economia mundial, principalmente a chinesa, houve uma queda na demanda por petróleo. Ocorreu, também, aumento da produção de petróleo nas áreas de xisto dos EUA e a volta do Irã ao mercado internacional após o fim das sanções ao país, o que gerou um excesso de oferta no mercado. Além disso, a Opep, que reúne 12 países produtores de petróleo, se recusam a diminuir a produção mesmo com a queda do preço, com o intuito de inviabilizar a sua produção por países cuja extração é mais cara.

Ao observar os impactos desse cenário na economia nacional, nota-se que a Petrobras, principal empresa produtora de petróleo do país, vive atualmente uma crise, agravada por investigações de corrupção e pela má administração do governo federal. A empresa investiu muito nos últimos anos, principalmente em exploração do pré-sal, além de investimentos em refinarias. Contudo, esses investimentos se deram através de grande endividamento da empresa e ainda não deram o retorno esperado. Atualmente a dívida da Petrobras ultrapassa o valor de US$ 100 bilhões, a maior na indústria de petróleo.

A exploração do pré-sal exige alta tecnologia e, portanto, tem um custo de exploração maior em comparação com a exploração onshore. Com o atual preço do barril de petróleo, a rentabilidade da exploração do pré-sal caiu muito e se a tendência de queda continuar pode até mesmo inviabilizar a sua exploração. Enquanto as refinarias possuem um custo de capital muito alto e uma baixa taxa de rentabilidade.

Para piorar a situação, como a Petrobras é responsável pelo abastecimento de gasolina no país, o governo represou o preço da gasolina para o mercado interno no período de alta do preço do petróleo, com intuito de conter a inflação e favorecer a indústria automobilística. Com agravante de, mesmo com investimento em refinarias, muito da gasolina consumida no Brasil ainda é importada, com o real desvalorizado a empresa comprava gasolina por um preço acima do que vendia no mercado interno.

A política de monitoramento do preço da gasolina ainda prejudicou o mercado interno de etanol, uma vez que a gasolina abaixo do preço de mercado gera um estímulo ao consumo de gasolina, logo, um desestímulo ao consumo de etanol. A produção de biocombustível é um setor importante para a Petrobras.

Assim, a Petrobras atualmente encontra-se com uma dívida muito alta ao mesmo tempo em que vive um cenário de baixa rentabilidade de suas atividades. Para contornar essa situação, a empresa busca vender seus ativos físicos como forma de se capitalizar, mas no atual cenário de crise do petróleo esses ativos encontram-se desvalorizados, o que dificulta a alienação desses bens por parte da empresa.

Em função desse momento da Petrobras, questiona-se a condição da empresa de exercer o monopólio da exploração do pré-sal. Há quem defenda que a empresa hoje não tem capacidade financeira para arcar com todos os custos e investimentos necessários para exploração. Dessa forma, seria necessário revisar a lei da partilha, de modo a permitir à iniciativa privada a exploração do pré-sal. Entretanto, a Petrobras é uma empresa de grande porte e têm condições de buscar formas de capitalização, o próprio governo federal tem recursos para auxiliar financeiramente a empresa. Além disso, o controle do Estado sobre a exploração petróleo é fundamental, pois se trata de um recurso natural estratégico.

No estado do Rio de Janeiro, a queda no preço do barril afetou diretamente a receita do estado. O Rio, até por uma questão logística e geográfica, tem a indústria de petróleo como principal atividade econômica. Contudo, por uma acomodação da governança estadual, tornou-se dependente dos royalties da exploração de petróleo e não se preparou para um cenário de queda no preço. O estado poderia ter criado um fundo de reserva, de maneira a se prevenir das oscilações que ocorrem no mercado internacional, assim como é feito em outros países, como a Noruega.


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Coordenação: Luiz Mario Behnken, Pâmela Matos e Talita Araújo. Assistentes: Est. Ana Krishna Peixoto, Est. Bernardo Isidio,Est. Camila Bockhorny e Est. Victoria de Castro.

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